‘Nomadland’: livro que inspirou filme mostra que nômades estão em fuga de distopia, não a passeio


Reportagem que inspirou filme levou 3 anos e mostra que nômades indicam futuro sombrio com trabalho precário sem aposentadoria. Leitura ajuda a entender angústia e solidariedade deles. Linda May, coadjuvante que interpreta a si mesmo em ‘Nomadland’, é a personagem principal do livro que inspirou o filme, chamado ‘Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century’, de 2017
Divulgação / Jessica Bruder
No livro “Nomadland”, o “nômade” Bob Wells fala do dia em que se viu sem casa nem aposentadoria, após trabalhar a vida toda. Ele comparou a sensação à de estar no filme “Matrix” e descobrir que “o mundo agradável e previsível que ele habitava era uma miragem, que escondia uma distopia brutal.”
Ele acabou aparecendo mesmo em outro filme, mas não de ficção científica. “Nomadland”, longa inspirado no livro-reportagem sobre idosos que vivem em automóveis nos EUA, tem a atriz Frances McDormand ao lado de não-atores que interpretam a si mesmos, como Bob Wells.
O filme indicado a seis Oscars dirigido pela chinesa Chloé Zao foi lançado nos cinemas do Brasil no dia 15 de abril. O livro da jornalista Jessica Bruder, publicado nos EUA em 2017, vai sair no país pela editora Rocco, ainda no primeiro semestre de 2021, mas sem data confirmada.
O longa mostra a rede de solidariedade que estes nômades criaram ao deixar suas casas em busca de trabalhos temporários e encontros com novos amigos na estrada. O livro deixa mais claro que eles não estão ali a passeio. A situação deles indica o fim da aposentadoria para boa parte dos americanos.
Veja o filme, leia o livro
Assista ao trailer de “Nomadland”
Para quem gostou do filme, o livro é um ótimo complemento, tanto para entender o contexto social dessa tribo dos nômades quanto para conhecer com detalhes as histórias sensacionais dos personagens que acompanham a protagonista do filme.
A figura principal do livro, que aparece também na tela, é Linda May. Assim como todos os outros nômades da terceira idade, Linda trabalhou durante décadas, teve um padrão de vida de classe média, e tinha poucas dúvidas de que teria alguns anos para descansar quando fosse idosa.
O origem dos nômades
Robert Wells, que todos chamam de Bob, interpreta ele mesmo em Nomadland
Getty Images via BBC
Os EUA têm um sistema de Seguridade Social que dá uma aposentadoria mensal modesta (cerca de US$ 500 para Linda May, por exemplo) e conta com previdência privada como complemento – que quase ninguém tem. Muitos têm que escolher entre comer, ir ao médico ou ter uma casa.
Com a crise de 2008, cresceu o número de pessoas se arrisca na parte da casa e vai viver em automóveis. Esse tipo de veículo nos EUA é relativamente acessível, assim como a cultura de adaptações e truques para viver na estrada. Mas eles estão lá mais por falta de opção do que por escolha.
A personagem principal do filme, a ficcional Fern, cai na estrada após perder o emprego e sua cidade simplesmente desaparecer do mapa, com a desativação de uma grande fábrica. As outras histórias do livro são mais mundanas, mas igualmente tristes – demissão, divórcio, dívidas e perda de hipotecas.
Idosos explorados
Frances McDormand (Fern) e os nômades da vida real de ‘Nomadland’
Divulgação
Outra história impressionante da reportagem de Jessica Bruder é de como a precarização do trabalho se aproveita desses idosos. Há relatos de pessoas de mais de oitenta anos trabalhando em galpões da Amazon e inúmeros casos de idosos extenuados, maltratados e feridos neste e em outros trabalhos.
A Amazon oferece analgésicos nos galpões para estes idosos, que ela recruta diretamente em um programa chamado CampForce. Um deles diz a Jessica no livro que um bom dia de trabalho é quando ele tem que tomar só dois comprimidos de analgésico depois.
Para conhecer essa vida real, Jessica pesquisou por três anos e até trabalhou na Amazon e em uma indústria de processamento de beterrabas – onde alguns trabalhadores ficam seriamente feridos por legumes gigantes que caem neles.
Ela também encontra “nômades” mais jovens, sufocados por dívidas estudantis, e que dizem se antecipar a um prospecto sombrio de não ter dinheiro para morar, muito menos para descansar.
Idosos adolescentes
Mas o livro não é só de denúncia. Os personagens que Jessica acompanha profundamente, como Linda e Bob, são tão cativantes quanto parecem na tela em “Nomadland”. Eles transformam a vida nos automóveis em uma negação do capitalismo que os expeliu, e se juntam numa comunidade vibrante.
Jessica tem talento para conversar com os personagens e encontrar uma luz neles – Linda, por exemplo, tem um sonho peculiar de achar um terreno e construir uma casa só com materiais reciclados. Ao abandonar o ideal da classe média, eles recuperam uma aura adolescente e hippie.
Eles se ajudam na montagem dos veículos, a encontrar os trabalhos temporários, a aguentar os abusos desses trabalhos, a fazer encontros em momentos de lazer, a trocar relatos sobre as viagens em blogs e comunidades online, a criar um sentido e a amar aquela vida na estrada.
Por caminhos diferentes – o livro com uma investigação e relato minuciosos de Jessica Bruder; o filme com as cenas sintéticas e imagens evocativas de Chloé Zao – ambos traçam esse cenário de carinho em meio a um desastre do capitalismo.
O livro começa, aliás, com a citação de “Anthem”, música do canadense Leonard Cohen, que também sintetiza bem esse cenário: “Há uma rachadura em todas as coisas / É assim que a luz entra”.
Dirigido por uma mulher, ‘Nomadland’ é um dos favoritos ao Oscar 2021