Nobre dama do cabaré brasileiro, Cida Moreira voa alto sobre ruínas ao festejar 70 anos


Cantora celebra a data com o single ‘A nobreza do não’, cuja capa expõe pintura de Gal Oppido. ♪ ANÁLISE – “Sou melhor quando canto / Essa é a virtude que deixo / No ar / Sou melhor quando canto / Esse é o mistério que faço / Soar”, avisa Cida Moreira através de versos da canção A nobreza do não, composta por Arthur Nogueira para saudar os 70 anos da cantora, pianista e atriz paulistana.
Nascida em 12 de fevereiro de 1951, Maria Aparecida Guimarães Campiolo faz hoje 70 anos como um pássaro que voa alto sobre as ruínas do Brasil de 2021 com voz inalcançável pelo país em que habita.
Nobre dama do cabaré nacional, Cida Moreira está em cena desde 1977 e, desde então, tem se firmado como intérprete precisa no teatro da canção, descortinado quando ela dá a voz aguda, de timbre originalmente operístico, a músicas de compositores como Chico Buarque – a cujo cancioneiro dramático a artista dedicou em 1993 álbum elogiado pelo próprio compositor – e Bertolt Brecht (1898 – 1956), dramaturgo alemão cuja obra musical foi abordada pela cantora em álbum de 1988.
Com a lâmina vocal que afia canções na faca da poesia, Cida Moreira é intérprete tanto de músicas do compositor alemão Kurt Weill (1900 – 1950) quanto do cancioneiro corta-pulso do norte-americano Tom Waits como do repertório refinado do bamba carioca Cartola (1908 – 2008), sambista cujo centenário de nascimento foi celebrado pela intérprete com o álbum Angenor (2008).
O traço de união é o canto repleto de sensibilidade e do entendimento que cada compositor quer dizer. Por também ser atriz e também por ser formada em psicologia, profissão que chegou a exercer antes de ser tomada pela música, Cida Moreira faz soar a nobreza do reino das palavras, desnudando a alma humana através do canto.
Estudante de piano desde a infância, Cida teve o primeiro contato com o instrumento na interiorana cidade de Paraguaçu Paulista (SP), onde entrou em cena pela primeira vez em 1957, aos seis anos, interpretando o samba-canção Serra da boa esperança (Lamartine Babo, 1937) em emissora de rádio local.
Cida Moreira posa com a pintura feita por Gal Oppido para celebrar os 70 anos da artista
Gal Oppido / Divulgação
É quase sempre a sós com o piano – instrumento que toca na gravação da canção A nobreza do não, lançada hoje em single com capa que expõe pintura feita por Gal Oppido para celebrar os 70 anos da artista – que a maior saloon singer do Brasil alcança os mais altos voos artísticos.
É munida da voz astuta e do piano que Cida parte para a cotidiana guerra do mercado da música, travada por ela com a nobreza do não, sem jamais ter se rendido aos caprichos da indústria.
Aos 70 anos, Cida Moreira tem obra construída em selos e gravadoras nacionais de pequeno porte – Lira Paulistana, Continental (companhia já extinta, de potência voltada para o universo sertanejo), Lua Music, Kuarup e Joia Moderna – em que é possível fugir da superfície do sim.
Disponível nos aplicativos de música, álbuns como Abolerado blues (1983), Cida Moreyra (1986), Cida Moreyra interpreta Brecht (1988), Na trilha do cinema (1997), Uma canção pelo ar… (2003), A dama indigna (2011) e Soledade (2015) são atestados perenes da Arte maior da cantora e a garantia de que, através deles, no futuro alguém lembrará da artista.
Já shows como Summertime – Um show pra inglês ver (1979 /1980), Serpente rara (1981) e Arte (1984) estão somente nas retinas de quem os viu e tendem a desaparecer juntamente com a memória dos espectadores, ainda que o primeiro tenha gerado há 40 anos o álbum inicial de Cida, Summertime (1981), gravado ao vivo.
A efemeridade da cena faz parte da magia do teatro da canção. Teatro no qual, parafraseando versos da composição A nobreza do não, Cida Moreira se eterniza pelo canto, pairando sobre ruínas com canções, momentos e voz que ninguém pode calar. E fazendo soar, a cada nota emitida, o doce mistério da vida…