‘No rap existe um ego muito grande de saber quem é melhor do que quem’, diz Hungria Hip Hop


Rapper conta ao G1 sobre EP acústico produzido durante a quarentena. Hungria lança projeto acústico produzido durante a quarentena
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“Cheiro do mato” tinha tudo pra ser o título de um single ou álbum sertanejo, mas foi o nome escolhido para o novo projeto do rapper Hungria.
Em isolamento em sua casa na cidade de São Sebastião, próximo a Brasília, ele já fez parcerias com muitos sertanejos e resolveu gravar “no meio do mato”. Além disso, inseriu violino e gaita nas gravações em formato acústico.
“Sempre tive em meu coração a vontade de fazer algo acústico. Sou muito ligado ao rap, porém eu gosto da musicalidade do acústico, gosto da interação entre cada instrumento”, afirma o rapper em entrevista ao G1.
Para ele, o formato acústico traz a possibilidade de mostrar “que quem canta rap é um músico, assim como todos os outros”.
Do trap ao rap acústico, qual é a do novo hip hop brasileiro?
Lançado na sexta-feira (21), “Cheiro do mato” tem cinco faixas, sendo quatro delas inéditas e em parceria com Luan Padal.
“Tem música que fiz pra minha mina, música que eu fiz pro mundo, música que fiz pras famílias, pra mulher em situação de mulher que já vi sofrer… mas a mulher tem um poder que se superar a cada dia.”
No bate-papo, o cantor também falou sobre a marca de 10 milhões de inscritos em seu canal no YouTube e do preconceito que o rap acústico sofre.
“Acho que no rap, existe um ego muito grande de saber quem é melhor do que quem. Agora tá na onda de quem está no hype. Certas coisas que realmente acabam inflando o ego de pessoas que ainda não sabem o que é trabalhar de verdade, o que é trabalhar por amor”, afirma Hungria.
Hungria lança projeto acústico produzido durante a quarentena.
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G1 – Esse seu projeto acústico tem relação com o crescimento do rap acústico nas plataformas e maior espaço nas rádios ou foi mais por ser a forma que encontrou pra seguir produzindo durante a pandemia?
Hungria – Eu sempre tive vontade de fazer, sempre tive em meu coração a vontade de fazer algo acústico. Sou muito ligado ao rap, porém eu gosto da musicalidade do acústico, gosto da interação entre cada instrumento. Nessa pandemia, eu tirei um tempo pra compor, pra produzir. Achei o momento certo para fazer isso.
Quando estava na correria de show, turnê, eu não tinha tanto tempo pra focar. Até porque o acústico exige uma atenção a mais, uma dedicação a mais, de reunir músicos, de gravar, repassar música.
E tem esse lado também de que, talvez, o rap que o Hungria já faz não alcançava 100% das pessoas. Ainda existe um certo preconceito com a nossa bandeira, com certas mensagens que são expostas nas nossas músicas, porém esse projeto acústico pode alcançar um número maior de pessoas. Ele pode passar a visão de quem canta rap é um músico, assim como todos os outros.
G1 – Além dessa questão do preconceito com o rap que você comentou, há o preconceito dentro do próprio rap diante de projetos acústicos. Alguns artistas não consideram o acústico como rap. Qual sua visão sobre isso?
Hungria – Na real, desde quando comecei minha carreira, sempre mergulhei muito cego, foi isso que me fez chegar onde cheguei até hoje. Se eu tivesse uma visão ampla desse mergulho, talvez eu não tivesse pulado nessas águas da música. Se eu tivesse a visão de tanto preconceito, de tanta crítica, eu não tinha ido.
Existe esse preconceito dentro do próprio rap. Se a gente muda um pouco, faz uma participação com um gênero diferente, falam que não está fazendo mais rap. Só que eu sou a favor de fazer música, sou a favor de levar uma mensagem positiva, sou a favor de fazer as pessoas refletirem.
E eu acho que a gente está atravessando um momento muito bacana, que o preconceito ainda é grande, porém muito menor que um tempo atrás. E quando fiz esse projeto aí, não foi ‘ah, vou fazer um projeto acústico agora porque quero me tornar mais popular nas rádios e nas televisões’. Nunca foi isso. Eu lancei esse projeto acústico porque sempre tive vontade de fazer, era algo que ecoava aqui dentro do meu coração.
“Por mais que existam críticas, eu vou fazer sempre o que eu tenho vontade. Porque a música é liberdade de expressão. Se um dia eu parar de cantar o que eu quero pra cantar o que as pessoas querem, eu paro de ser um músico.”
G1 – E qual a relevância que você vê desse formato mais acústico dentro do cenário do rap e da música no geral?
Hungria – É muito grande. Até porque a molecada que cantava um rap mais underground, assim como eu também, quando eles entram com o projeto acústico, a gente começa a provar pras pessoas que a gente tem um potencial de músico, de fazer mudanças, de tocar com banda.
Acho isso muito bacana, de uma relevância extremamente importante, porque a gente consegue quebrar paradigmas de “há, só canta rap, só canta nesse estilo”.
G1 – O título `Cheiro do mato` faz relação com o lugar que você está passando o isolamento. Mas a escolha do nome meio que desconstrói um pouco aquela pegada de cidade que é do rap. Você pensou nisso?
Hungria – Pensei também nessa desconstrução, total. E na real, quando toda minha equipe topou esse projeto, foi um projeto que foi elaborado muito rápido. E foi incrível também que escrevi as músicas e logo no outro dia, ensaiei com os músicos. No outro dia, a gente foi para o estúdio e no dia seguinte a gente gravou.
Então foi algo realmente rápido, sacou. Aí intitulei esse projeto como “Cheiro do Mato”, pelo cheiro da natureza. O cheiro da natureza me deixa calmo, me deixa em paz e mais perto de Deus.
G1 – Você escreveu as músicas agora durante a quarentena. Os sentimentos foram diferentes? O que você colocou pra fora aí nessas músicas?
Hungria – Todas as músicas minhas costumo usar bastante sentimento. Essa quarentena foi essencial pra esse projeto sair. Na real, eu acho que a quarentena me trouxe muito mais uma reflexão. Os instrumentos, como os que botei nesse projeto, como violino, gaita, remetem muita reflexão.
E todo esse momento de quarentena se torna um momento de reflexão. Sou muito de fazer o que sinto. Não tinha como eu fazer música falando de uma festa se a gente está em quarentena e não está existindo nem festa. Então realmente foi um momento de refletir, de pensar em pessoas que amei, em pessoas que eu amo, de pensar na situação atual do mundo. E de tentar, desde o arranjo musical às letras, levar paz para o coração das pessoas.
G1 – Como está sendo esse período de isolamento, de pandemia, pra você?
Hungria – É um momento crítico pra todo mundo, pro mundo todo, porém dentro da minha casa pude reconhecer alguns valores que antigamente eu não via. O valor de um abraço, do beijo da minha filha, do olhar da minha mãe. Acho que o mundo deu uma pausa e essa pausa às vezes serve pra gente analisar a situação do jogo. A gente estava muito robotizado, saindo pra trabalhar, pra viajar, e se esquecendo do que realmente tem valor.
Hungria lança projeto acústico produzido durante a quarentena.
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G1 – Das cinco músicas do EP, quatro são em parceria com Luan Padal. Como foi o processo de produção? Foi virtual ou estiveram juntos?
Hungria – O Luan é um vizinho meu. Se você olhar pro Luan você já vai falar que ele tem o cheiro do mato, é um moleque completamente roots, completamente do violão. E na verdade, todas as minhas faixas, nunca tinha escrito com ninguém. E o Luan foi a primeira pessoa que eu me identifiquei pra escrever e fluiu muito bacana todo esse projeto.
E na real, esse projeto fala de amor também. Tem músicas que eu fiz pra minha mina, músicas que eu fiz pro mundo, música que fiz pras famílias, música que fiz pra mulher em situação de mulher que já vi sofrer, mas a mulher tem um poder que se superar a cada dia… enfim…
G1 – Fiz uma entrevista com você em 2017 e você comentou que nosso pais é sertanejo, pelo domínio do ritmo. Ainda vê o cenário musical assim?
Hungria – Na real, a potência do mercado sertanejo é muito grande. Porém a gente está atravessando de uma geração muito eclética. Antigamente meus avós só curtiam um estilo musical e se a gente colocasse outro dentro de casa, pessoal brigava pra desligar o som.
E hoje a gente atravessa uma fase onde a geração se torna muito eclética. Os pais escutam tudo, os filhos escutam tudo. Então acho que realmente tudo tá virando música. Se faz sorrir, se faz dançar, se leva alegria, tudo está se tornando música.
E eu acho que o mercado sertanejo é muito aquecido pelo fato de investimento em rádio, é um mercado muito caro pra se entrar, a manutenção é muito cara. Não que não tenha pessoas talentosas lá dentro dele. Lógico que existem milhares de pessoas talentosas. Mas acho que o impacto dele, desde o início, foi muito rádio, televisão. Realmente o sertanejo é uma cultura dos nossos avós, nossos bisavós, que veio para os nossos pais e reflete na gente também. O sertanejo é um patrimônio tombado do país, não tem como.
G1 – Você falou sobre o preconceito mesmo dentro do próprio rap. Como você analisa o mundo do rap em relação a união? Acha que se tivesse mais união, poderia ter menos preconceito no mercado?
Hungria – Acho que a união é essencial pra qualquer estilo musical. Deve existir também desunião no mercado sertanejo, mas no meu ponto de vista eles se abraçam com uma facilidade bem maior.
Acho que no rap existe um ego muito grande de saber quem é melhor do que quem. Agora tá na onda de quem está no hype. Certas coisas que realmente acabam inflando o ego de pessoas que ainda não sabem o que é trabalhar de verdade, o que é trabalhar por amor.
Na real, eu não trabalho por hype, eu trabalho pra fazer o que gosto e levar som pra quem eu amo. Então o rap sempre teve uma pose de chegar no lugar com o peito muito inclinado. Eu acho que a gente tem que perder isso aí.
G1 – Recentemente você bateu a marca de 10 milhões de inscritos no YouTube. O que esse número representa pra você?
Hungria – Na real, me remete uma história toda. Eu lembro que no começo, pra ter dez pessoas, foi muito difícil. E hoje quanto atinjo uma marca de dez milhões, eu tenho uma fé tão grande que pra chegar nos 100 milhões também vai ser trabalhoso, porém eu tenho condição de chegar. Então tudo o que me remete quando olho pra esses números é fé.
G1 – Durante a quarentena, além do EP, você também fez algumas lives. O que você acha desse tipo de transmissão de show? Acha que vai ter continuidade após a pandemia, que veio pra ficar?
Hungria – Acho que sim. Na real, foi algo incrível nessa pausa toda que o mundo deu de aproximar o artista do público dele. Eu fiz três lives, só que nenhuma das três se aproximou do contato físico do meu público, de olhar ali embaixo e eles estarem cantando comigo.
Quebra um pouco da saudade de você ver eles comentando, de estar assistindo essa energia. E eu acho que também que é um projeto que vai perdurar anos e anos no mundo inteiro. Na real, acho até que nos bares as pessoas vão vender as lives. Vai virar algo global.
G1 – Muitas pessoas pedem a retomada de show. Você pensa nisso para já?
Hungria – Já tive várias propostas de drive-in, mas realmente eu não estava num momento que estava querendo fazer. E até nesse exato momento tudo pode mudar, sou meio bipolar, tudo pode mudar.
Mas eu estou aguardando realmente pra quando tudo estiver bem e ver meu público de perto e ver meu público gritar, ir no meu camarim me abraçar.