Nina Ximenes vai da bossa ao forró com desenvoltura, mas perde o foco no álbum ‘Natural’


Cantora dá voz macia a repertório que inclui sucessos de Black Sabbath, Lulu Santos, Shirley Horn e Tom Jobim. Capa do álbum ‘Natural’, de Nina Ximenes
Ilustração de Mirian Malzyner
Resenha de álbum
Título: Natural
Artista: Nina Ximenes
Gravadora: Kuarup
Cotação: * * *
♪ Cantora nascida em Fortaleza (CE), mas criada em São Paulo desde a infância, Nina Ximenes tem a voz de Jane Duboc como uma das referências da carreira iniciada em 1978, aos 15 anos.
Duboc também tece loas ao canto de Ximenes em depoimento reproduzido em uma das contracapas internas da edição em CD do álbum Natural, do qual Duboc participa em gravação bilíngue do samba Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) feita com a adesão do toque do piano de Silvia Goes.
Apresentado em dezembro de 2019 em edição digital, com capa que expõe a cantora em ilustração de Mirian Malzyner, o disco Natural foi lançado em CD neste primeiro bimestre de 2020.
Não se trata do primeiro álbum de Nina Ximenes, como informam equivocadamente o texto distribuído pela gravadora Kuarup à mídia e a apresentação escrita por Aquiles Rique Reis para o encarte da edição em CD. A cantora gravou o primeiro álbum em 2001 por vias independentes.
De toda forma, Natural certamente vai soar como cartão-de-visitas de Nina Ximenes para a maioria dos ouvintes e a audição do disco justifica a admiração recíproca entre Nina e Jane Duboc.
Difícil escutar o registro macio e extremamente afinado de Here’s to life (Artie Butler and Phyllis Molinary, 1992) – canção norte-americana identificada com a voz jazzística da pianista Shirley Horn (1934 – 2005) – sem lembrar do canto macio de Duboc. A gravação classuda de Here’s to life sobressai em disco de repertório demasiadamente eclético.
Nina Ximenes justifica o título do álbum, Natural, cantando com desenvoltura esse (tão heterogêneo quanto saboroso) repertório que faz a intérprete adentrar a nação nordestina no tom forrozeiro do baião Rainha do sertão (Papete), acenar para o pop em Anos-luz (Alex braga), cair no sambossa Amor certinho (Roberto Guimarães, 1960) – pérola lapidada por João Gilberto (1931 – 2009) no terceiro álbum do cantor, cabe lembrar – e se apresentar como compositora com Wings and wings, canção autoral em inglês em que a artista evoca o clima celestial do som new age de Enya.
Nessa salada mista, a era de Nina Ximenes em nada resulta nova. Sem qualquer centelha de novidade na abordagem de canções como Certas coisas (Lulu Santos e Nelson Motta, 1984), Natural é disco pautado pelo excesso de ecletismo, mas também pelo rigor estilístico, observado tanto no canto da artista quanto nos arranjos e na produção musical confiada a Wagner Amorosino, hábil arquiteto de 13 das 15 faixas.
Uma das duas exceções é o maior erro desse álbum iniciado com gravação de Insensatez (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961) pontuada pela gaita de Omar Izar. Trata-se da regravação modernosa de Lindo lago do amor (Gonzaguinha, 1984), imersa em beats eletrônicos que não se encaixam na moldura mais orgânica do disco.
André Andreo, que deu forma à faixa, se redime em Into the light tanto como produtor dessa interiorizada e climática faixa quanto como compositor da canção (em parceria com Leila Cohen).
Com segurança vocal, Nina Ximenes se equilibra bem na linha demasiadamente sortida do repertório sem atenuar a sensação de que faltou foco neste disco que termina com sensível abordagem de Changes (Ozzy Osburne, Tony Iommi, Gezzer Butler e Bill Ward, 1972), balada do repertório da metaleira banda britânica Black Sabbath.
Um recorte mais específico no repertório faria com que o álbum Natural delineasse com maior nitidez a assinatura de Nina Ximenes. Até porque cantoras ecléticas estão sem voz em mercado cada vez mais segmentado e estruturado em nichos.