Neuropediatra explica que autismo deixou de ser considerado raro, tem diagnóstico difícil e tratamento caro


O neuropediatra José Salomão Schwartzman esclarece dúvidas sobre o Transtorno do Espectro Autista. Profissão Repórter desta quarta (19) acompanha a dificuldade das famílias e das escolas para tratar crianças com autismo. Uma em cada 59 crianças apresenta algum Transtorno do Espectro Autista, segundo um estudo divulgado pelo Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. A incidência é maior em homens. Não há cura para doença e o tratamento adequado pode custar até R$20 mil por mês. Confira abaixo a entrevista com o neuropediatra José Salomão Schwartzman. Veja a edição do Profissão Repórter sobre autismo.
O neuropediatra José Salomão Schwartzman diz que muitas pessoas ainda confundem autismo com doença mental.
Foto: Eduardo de Paula / Rede Globo
O que é autismo?
José Salomão Schwartzman – Autismo é uma condição, um transtorno que apresenta algumas características básicas. Todo indivíduo diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem comprometimento da área da comunicação, comportamento e interação social. Um aspecto bastante comum é a falta de interesse de se comunicar e interagir com os outros. A pessoa com autismo tem uma tendência inata congênita ao isolamento.
Existem hoje três níveis de autismo, classificados conforme o grau de severidade aumenta: Grau 1 ou leve, grau 2 ou moderado e grau 3 ou severo. Neste último nível, a pessoa apresenta um retardo intelectual importante e não tem habilidades de linguagem e comunicação funcional. São os autistas não-verbais, de baixo rendimento. Nos casos severos, o prognóstico é difícil, por mais completo e precoce que seja o tratamento.
Há casos, por exemplo, de crianças autistas leves que são tratadas desde cedo, mas que desenvolvem o grau 3 quando crescem. Isso porque a criança autista nasce com determinado potencial e nem todo mundo responde ao tratamento da mesma forma. A maioria dos indivíduos apresenta um autismo regressivo, com um desenvolvimento normal durante a primeira infância e perda posterior das habilidades até então adquiridas.
Muitas pessoas ainda confundem autismo com doença mental. São completamente diferentes. Autismo é um problema causado por um distúrbio de desenvolvimento. Atinge o cérebro em maturação.
Uma pessoa diagnosticada com autismo pode apresentar uma doença mental?
Schwartzman – Sim. Isso é comum, embora uma coisa não leve a outra. Mas, como qualquer pessoa considerada “típica”, o indivíduo com autismo também está sujeito a apresentar outras patologias e condições psiquiátricas. É comum, por exemplo, a associação do autismo com transtorno obsessivo compulsivo, o transtorno opositor e a epilepsia.
Como os pais podem identificar os primeiros sinais de autismo?
Schwartzman – A família deve ficar atenta aos fatores de risco. Por exemplo, um bebê de um ano que não olha para a mãe, recusa o peito, não aceita colo, não atende pelo nome, não fala, fica isolado olhando para uma determinada coisa o tempo inteiro e faz movimentos repetitivos com a mãozinha. Esse tipo de comportamento tem de chamar a atenção. Não quer dizer que a criança seja autista, mas que apresenta sinais de risco para o desenvolvimento do autismo. No momento em que se percebe que algo está fora do normal, é importante ir atrás de diagnóstico e começar a tratar imediatamente.
Existe um exame que comprove o diagnóstico de autismo?
Schwartzman – Não. O diagnóstico de autismo é clínico.
Autismo tem cura?
Schwartzman – Não. Mas com tratamento adequado é possível minimizar os efeitos do transtorno. Também não há medicamentos para o autismo, mas para combater sintomas do autismo, como agressividade, hiperatividade e epilepsia. O tratamento medicamentoso não resolve, apenas atenua problemas graves.
Como é o tratamento para o autismo?
Schwartzman – O que tem eficácia científica de que funciona são os tratamentos da psicologia comportamental, que por meio de recompensas, reforçam os comportamentos adequados e diminuem os inadequados. Cada indivíduo responde ao tratamento de uma forma particular, mas é seguro dizer que quem é tratado estará melhor do que quem não é.
A pessoa com autismo não responde a apenas uma consulta semanal de 40 minutos, por exemplo. Ela precisa ser massivamente trabalhada. Recomenda-se acompanhamento de psicólogos altamente especializados de, no mínimo, 10 a 40 horas semanais.
Também é fundamental o tratamento fonoaudiológico, desenvolvendo a oralidade e métodos alternativos de comunicação, além da terapia ocupacional, trabalhando as dificuldades sensoriais do indivíduo a longo prazo.
O tratamento adequado para autismo é caro. Em São Paulo, por exemplo, tratar corretamente alguém com TEA pode custar até vinte mil reais por mês. O questionamento que se faz é: quem pode pagar por um tratamento desses a longo prazo? A imensa maioria das pessoas que precisa não tem tratamento adequado (conforme mostra o programa desta quarta-feira). O Brasil tem hoje uma política pública que garante à família alguns direitos básicos, mas não há locais de tratamento adequado sem pagamento pelo Sistema Único de Saúde. Hoje, você identifica um monte de casos, mas lamentavelmente não há muito o que fazer com essas pessoas. Ainda não tem alternativa no Brasil, pelo menos do ponto de vista público.
Antes, considerava-se que o autismo atingia uma em cada 10 mil crianças. O número mais recente que se tem hoje é que uma em 59 crianças apresenta o TEA. É um problema premente de saúde pública, que atinge milhões de pessoas. Deixou de ser considerada uma doença rara. O autismo atinge predominantemente os homens, numa proporção de cinco homens para cada mulher afetada pelo transtorno.
O autista consegue desenvolver um afeto?
Schwartzman – Cada autista tem sua própria personalidade, seu jeito de ser. Não existe aquele estereótipo do autista violento ou bonzinho. Há os que odeiam toque físico e os que adoram. Alguns são extremamente carinhosos. Algumas pessoas usam esses estereótipos para negar o diagnóstico. “Dizem que meu filho é autista, mas ele me olha nos olhos e é carinhoso”, por exemplo. É preciso tomar cuidado.
As escolas estão preparadas para receber alunos autistas?
Schwartzman – A maioria não está. O autista tem um perfil peculiar, vê de um jeito, ouve de um jeito, se comporta de um jeito. Como esperar que ele aprenda e se desenvolva numa escola que baseie seu conteúdo no aluno “médio”? Uma escola inclusiva é aquela que aceita o aluno com suas limitações particulares e que, ao mesmo tempo, elabora um plano de ensino e um currículo sob medida para o aluno. Poucas escolas oferecem essa possibilidade. É caro e cansativo.
Também é preciso cuidado para não generalizar. Não é todo autista que tem de estar matriculado na escola do ensino regular. Sou a favor da inclusão, mas contanto que o aluno autista seja incluído no melhor lugar para seu desenvolvimento. Esse lugar não é, obrigatoriamente, a mesma escola dos irmãos.
Como as famílias podem se preparar para cuidar de uma pessoa com autismo?
Schwartzman – Não existe uma criança autista numa família sadia. A família também passa a ser autista. Passa a viver numa dinâmica completamente diferente do que se tivesse apenas um filho típico. O que a gente faz pouco no Brasil é um atendimento intensivo à família, como grupos de pais. Não adianta cuidar da criança autista sem levar em conta o ambiente familiar em que ela vai crescer. Para que o tratamento do autismo seja eficaz, é fundamental que a família também seja capacitada e orientada. Os pais, os terapeutas, a escola e o meio em que a pessoa com TEA vive devem apresentar uma postura mais ou menos similar.
Como viver com o autismo? Veja série especial do Bem Estar.