Nana Caymmi chega aos 80 anos como grande cantora de voz, suor e aura clássica


Discografia da artista é pautada pela extrema coerência na seleção de repertório, arranjadores e produtores musicais. ♪ Nascida Dinahir Tostes Caymmi em 29 de abril de 1941, a carioca Nana Caymmi chega hoje aos 80 anos como cantora de aura clássica, dona de discografia pautada por extrema coerência na seleção de repertório, arranjadores e produtores musicais. Uma grande cantora do Brasil, projetada na mesma era dos festivais e da MPB que propagou, a partir de 1965, as vozes das contemporâneas Elis Regina (1945 – 1982), Gal Costa e Maria Bethânia.
Exceto pelo sucesso atípico de 1998, ano em que a difusão do bolero Resposta ao tempo (Cristovão Bastos e Aldir Blanc) na abertura da minissérie Hilda Furacão (TV Globo) amplificou a voz de Nana, a filha de Dorival Caymmi (1914 – 2008) nunca obteve a popularidade massiva de Bethânia, Elis e Gal.
Mas sempre teve prestígio e respeito no elitizado clube da MPB porque soube impor a personalidade forte na vida e na música. E também e sobretudo porque Nana Caymmi irradia sentimentos profundos quando dá voz a boleros, canções, sambas e sambas-canção – ritmos predominantes na discografia iniciada no colo do pai, em 1960, ano em que gravou Acalanto (1957) com mestre Dorival.
Embora nunca tenha sido cantora de arroubos teatrais, Nana encara o peso e a dramaticidade das músicas em que põe a voz lapidada com o tempo que fez emergir, a partir dos anos 1970, o brilho do verdadeiro diamante embutido nas cordas vocais da intérprete.
Nana Caymmi é cantora emotiva de voz e suor – título, aliás, do álbum de 1983 que assinou com o pianista César Camargo Mariano. Em 1989, outro álbum dividido com um pianista – Wagner Tiso, partner da cantora no disco ao vivo Só louco – corroborou a vocação de Nana para se ambientar em atmosfera de câmara para cantar músicas que podem ter sido lançadas meses antes. Ou há 50 anos.
Nana tem o poder de irmanar compositores de gerações e estilos distintos em repertório dominado por músicas dos soberanos Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) – a cujo cancioneiro dedicou o (por ora) derradeiro álbum, Nana Tom Vinicius (2020), lançado em julho do ano passado – e Dorival Caymmi.
E, se ninguém canta o cancioneiro de Dorival como o próprio Caymmi, Nana sempre desafiou o domínio paterno, sobretudo quando interpreta os sambas-canção da lavra desde sempre moderna do compositor baiano.
Nana Caymmi em foto promocional do álbum ‘Sem poupar coração’, de 2009
Lívio Campos / Divulgação
Sem poupar coração, Nana construiu discografia luminosa a partir dos anos 1970, fase dos álbuns Nana Caymmi (1975) – disco em que apresentou registro emblemático da canção Beijo partido (Toninho Horta, 1975) – e Renascer (1976).
E, para quem quiser ir direto ao suprassumo dessa obra-fonográfica, a dica é priorizar os álbuns gravados na EMI-Odeon e lançados na década magistral que foi de 1979 a 1989. Há pérolas raras em álbuns como Nana Caymmi (1979), Mudança dos ventos (1980), …E a gente nem deu nome (1981) e Chora brasileira (1985).
Nesses discos, há músicas menos conhecidas de compositores como Claudio Nucci, Fátima Guedes, Gonzaguinha (1945 – 1991), João Donato e Sueli Costa, entre outros.
A propósito, Nana nunca foi cantora de hits. Os poucos pareceram obras do acaso, caso de Se queres saber, bolero do compositor alagoano Peter Pan (1911 – 1983), lançado em 1947 por Emilinha Borba (1923 – 2005) e revolvido por Nana trinta anos depois, em 1977, em gravação que, cinco anos depois, foi parar na abertura da série Quem ama não mata (TV Globo, 1982).
Entusiasta do bolero, Nana gravou álbum dedicado a esse gênero musical em 1993. Foi a saída encontrada pela cantora para voltar ao mercado fonográfico sem ir atrás do ritmo momento.
Na esteira do êxito comercial do álbum Bolero (1993), veio no ano seguinte outro disco temático, A noite do meu bem – As canções de Dolores Duran (1994), formatado pelo produtor musical, José Milton, que acompanharia a cantora de 1993 até o songbook lançado em 2019 com músicas do compositor e pianista Tito Madi (1929 – 2018), uma das primeiras paixões musicais de Nana, em interpretações de registros mais suaves.
Seja cantando Tom, Tito ou Dolores, Nana Caymmi nunca sai do tom que escolheu para si e ao qual já está acomodada no bom e no mau sentido.
Refratária às mudanças dos ventos musicais e dona de postura conservadora que a impede de enxergar o talento da sobrinha Alice Caymmi, Nana Caymmi parece perseguir a eternidade em vez da modernidade e, nesse sentido, se afina com o irmão Dori Caymmi, cuja presença é fundamental na discografia da cantora como arranjador.
Aos 80 anos, festejados sem alarde neste 29 de abril de 2021, a dama da canção está entronizada em lugar pessoal e intransferível no reino da MPB.