Músicas para descobrir em casa – ‘Diálogo’ (Marcos Valle, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, 1968)


Milton Nascimento e Marcos Valle em 1968, ano da música ‘Diálogo’
Reprodução / Facebook Marcos Valle
♪ MÚSICAS PARA DESCOBRIR EM CASA – Diálogo (Marcos Valle, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, 1968) com Marcos Valle e Milton Nascimento
♪ Milton Nascimento já estava em cena desde o início dos anos 1960, mas se tornou a sensação da música brasileira ao ser apresentado nacionalmente em 1967 no palco do II Festival Internacional da Canção (FIC), no qual obteve o segundo lugar com a música Travessia, marco inicial da parceria do compositor com Fernando Brant (1946 – 2015).
A obra fundamental de Milton seria construída com letristas associados ao Clube da Esquina. Contudo, em 1968, o artista fez bem-sucedida conexão com Marcos Valle – compositor da segunda geração da bossa nova, revelado em 1963 – ao gravar Viola enluarada, parceria engajada de Marcos com o irmão letrista Paulo Sérgio Valle, em dueto com o cantor.
Composta em 1967 e apresentada em disco em 1968, Viola enluarada fez muito sucesso e abriu caminho para as duas únicas parcerias de Milton com Marcos Valle. Com letra de Ruy Guerra e do então debutante Ronaldo Bastos, Réquiem apareceu no álbum justamente intitulado Viola enluarada e lançado por Marcos Valle em 1968.
A outra música, Diálogo, foi apresentada ao Brasil em 25 de novembro de 1968 nas vozes de Marcos e Milton na segunda das três eliminatórias do IV Festival da Música Popular Brasileira. A música foi classificada para a final do festival, apresentada em 9 de dezembro de 1968.
Mesmo sem levar nenhum prêmio nessa final, Diálogo causou excelente impressão tanto pela melodia – criada por Marcos com Milton – quanto pela letra em que Paulo Sérgio Valle já antevê o cerceamento da liberdade de expressão com a promulgação do AI-5 em 13 de dezembro daquele ano de 1968.
Nos versos de Diálogo, o canto e a fraternidade entre dois amigos-irmãos são as armas contra o mal e o medo paralisante. “Meu canto é uma lança forjada em som”, disparou Milton Nascimento no primeiro verso em que solta a voz divina na gravação de Diálogo feita com Marcos Valle e lançada em single pela gravadora Odeon no fim de 1968 a tempo de faturar com a exposição da composição no festival.
Simultaneamente, Diálogo foi eternizada no disco do festival, precisamente no segundo volume dos LPs com o repertório do IV Festival da Música Popular Brasileira, mas na voz da cantora Nara Leão (1942 – 1989). Explica-se: como os discos do festival eram editados pela gravadora Philips e como Marcos Valle pertencia ao elenco da concorrente Odeon (companhia fonográfica na qual Milton ingressaria em 1969), a solução jurídica foi convocar Nara para gravar Diálogo no LP do festival.
No ano seguinte, Diálogo reverberou no próximo álbum de Marcos Valle, Mustang cor de sangue (1969) em gravação arranjada pelo maestro paulista Lyrio Panicalli (1906 – 1984).
Embora muito menos conhecida do que Viola enluarada, Diálogo é música que justifica o encontro entre três grandes compositores projetados nos anos 1960.
♪ Ficha técnica da Música para descobrir em casa 47 :
Título: Diálogo
Compositores: Marcos Valle, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle
Intérpretes originais: Nara Leão e Marcos Valle com Milton Nascimento
Álbuns das gravações originais: IV Festival da Música Popular Brasileira Vol. 2 (com Nara Leão) e single Odeon 7B-347 (com Marcos Valle e Milton Nascimento)
Ano da gravação original: 1968
Regravações que merecem menções: a música Diálogo nunca foi regravada.
♪ Eis a letra da música Diálogo :
“Eu, só de amigo e só de amor
Em meu mundo de ilusão
Faço em versos meu viver
Mas ante o desamor
Me guardo em poesia
Fecho-me em canção
A cantar o medo
Eu prefiro me calar
Meu canto é uma lança forjada em som
Meu irmão, trago a voz armada em aço e dor
E, ao lutar, se peco é por amor
Molhado em vermelho, fiz meu cantar
Eu, viajante do amor
Peço abrigo, amigo meu
Destemido cantador
O medo não cala tua voz
Medo, sim
Tem a mão que impede o teu cantar
Não quer amar
E dá guarida ao mal
Teus versos esperam quem vai lutar
Meus versos te seguem, rubra voz
Em canto de guerra, vou te encontrar
Te chamo de amigo ou de irmão
Mais forte que amigo, eu te chamo irmão
Meu amigo, meu irmão!
Meu abrigo, meu irmão!”