Mudanças climáticas: 5 boas notícias sobre a luta contra o aquecimento global


Estamos testemunhando efeitos devastadores sobre as vidas de bilhões de pessoas causados pela elevação da temperatura média global, mas também há sinais de esperança para o nosso futuro. Conheça alguns deles. Boas notícias
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“Nemonte Nenquimo é uma de minhas heroínas”, diz a física de partículas Vandana Singh sobre a líder indígena waorani.
“Nas minhas aulas sobre mudanças climáticas, ensino o que ela fez. Acho que é uma história fantástica sobre o clima”, agrega a presidente do Departamento de Física e Ciências da Terra da Framingham State University, nos Estados Unidos.
Nenquimo liderou uma campanha indígena que levou a uma decisão do Tribunal Constitucional do Equador para proteger 500 mil hectares da Floresta Amazônica contra a extração de petróleo.
“Acho que nunca foi tão relevante dar notícias positivas e gerar um sentimento de esperança”, diz Vanessa Pérez-Cirera, vice-diretora de Clima Global e Prática de Energia do Fundo Mundial para a Natureza.
“A esperança é que, sem deixar o sentido de urgência, seja possível acelerar as soluções que nos permitam manter o a meta de 1,5ºC viva. Estamos justamente no momento em que podemos fazer isso”.
A economista ambiental especializada em política climática e transição energética se refere ao apelo feito pelo Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para limitar o aumento da temperatura global a um máximo de 1,5ºC.
Enquanto o mundo discute o tema na conferência climática COP26, na Escócia, confira aqui alguns aspectos positivos da luta contra um problema que já está causando efeitos devastadores na vida de milhões de pessoas.
1. Comunidades locais estão protegendo a natureza com resultados extraordinários
Nemonte Nenquimo, no centro, em uma manifestação de 2019 em frente ao palácio presidencial em Quito
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Vandana Singh é membro da Climate Imagination Fellowship, um projeto da Arizona State University, nos Estados Unidos, que busca histórias positivas sobre o futuro para impulsionar ações no presente.
A primeira coisa que ela me alerta é sobre o uso do termo “positivo” no contexto das mudanças climáticas.
“Quero usar essa palavra sob a ótica das pessoas que já estão lutando, que já foram atingidas pelo apocalipse, sejam elas os indígenas, os pobres do Sul global, os negros ou as muitas mulheres que foram desproporcionalmente afetadas pelas mudanças climáticas”, explica.
“Eles estão em situação pior em comparação com a maioria de nós. E, no entanto, acho que a esperança vem não apenas porque já existem tecnologias alternativas, mas por causa dessas mesmas comunidades.”
As mudanças climáticas, ressalta a autora, não é o único problema socioambiental que temos: a perda da biodiversidade é outro e, a ela, soma-se uma enorme desigualdade social.
“Quando olhamos para o problema climático sob uma perspectiva mais ampla e olhamos para as outras crises e como elas se relacionam, percebemos que elas têm as mesmas raízes”, diz.
Ela diz que a “economia social globalizada é um sistema que basicamente destrói o resto da natureza, pois a considera, assim como um grande número de pessoas, descartável e menos importante”.
“Mas, se lutarmos contra essas crises, estaremos resolvendo muitos outros problemas que afligem a humanidade. E, para mim, isso é o positivo: é um projeto de felicidade verdadeira para todos.”
“A maior fonte de positividade é a energia das pessoas.”
Menino com um cartaz que pede ‘mudança no sistema em vez de mudança climática’
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Singh fala com entusiasmo dessa “energia” que encontrou em diferentes continentes.
Ela conta o caso de uma mulher chamada Parvati, que vive em um dos Estados mais pobres e vulneráveis ​​ao clima da Índia.
“Há 20 anos, ela e um grupo de mulheres da aldeia viram que o lençol freático [o acúmulo de água subterrânea em profundidades relativamente rasas] em sua área fora reduzido pelo desmatamento, impulsionado pelo modelo de desenvolvimento adotado na Índia”, afirma.
“Decidiram que iriam proteger sua floresta e começaram a monitorá-la. Acordavam muito cedo e a patrulhavam(…). Sem educação formal, eles sabiam por experiência que uma floresta saudável é uma floresta biodiversa.”
Foto (de arquivo) de uma mulher em floresta na Índia
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Duas décadas depois, um amigo de Singh os visitou e encontrou árvores com troncos grossos, animais que haviam voltado a prosperar ali e um lençol freático aumentado.
A história de Parvati, assim como outras — não é uma exceção, frisa ela — ajudam-na a olhar para o futuro com otimismo.
“Parvati lidou com muitos problemas, não apenas as mudanças climáticas, e (estando fora) da estrutura de poder. E olha o que ela está fazendo!”
Então, “se ela pode ser positiva nessas circunstâncias, eu tenho que encontrar um caminho. Não se trata de negar a realidade, mas de aceitar o quão difícil é reconhecer que estamos nessa situação horrível e a única saída é avançar coletivamente para apoiarmos uns aos outros.”
“Essas comunidades têm o direito de escolher o seu próprio caminho, são inteligentes, criativas, apaixonadas. É isso que me faz me manter positiva sobre o problema do clima”.
O antropólogo David Bray, professor do Departamento de Terra e Meio Ambiente da Florida International University, nos Estados Unidos, estudou as florestas comunitárias mexicanas e as considera “o melhor modelo de manejo local sustentável do mundo”.
“Minha pesquisa de mais de 30 anos mostrou que quando as comunidades indígenas e locais controlam suas florestas para a produção comercial de madeira, tanto os humanos quanto a terra se beneficiam”, escreveu ele em um artigo publicado no site acadêmico The Conversation.
O especialista explica que o sistema permite que a floresta e sua biodiversidade sejam conservadas, mas também “mitiga as mudanças climáticas, porque, enquanto essas comunidades fazem suas colheitas, as florestas também coletam carbono, e ele é armazenado em produtos de construção e móveis, onde será mantido por décadas. ”
Para Pérez-Cirera, o reconhecimento do “grande” papel que os povos indígenas têm desempenhado na proteção da natureza é uma “notícia muito boa”.
“Percebemos que a natureza é uma grande aliada não só para resolver a crise climática, mas também para perseguir os objetivos do desenvolvimento sustentável.”
Embora acredite ter havido uma “dignificação” das comunidades locais que zelam pelo “patrimônio natural do qual todos dependemos”, ainda há muito por fazer, especialmente no que diz respeito aos seus direitos.
Singh reflete sobre o sofrimento de muitos indígenas, em alguns casos “ameaçados pela mineração e derramamentos de petróleo” e, em outros, abalados pela violência e assassinatos.
“E veja o que eles alcançaram. Eles são um testemunho do espírito humano com o qual devemos aprender” e pelo qual sentir “esperança”.
2. O tema nunca esteve tão em alta entre governos e empresas
“O clima nunca esteve tão em alta na agenda política. Se pensarmos no Acordo de Paris [assinado em abril de 2016 e que estabeleceu medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa] (a questão) agora está ainda maior”, diz Pérez-Cirera.
“Ter o primeiro-ministro chinês e o presidente dos Estados Unidos falando sobre o clima como uma de suas três prioridades políticas em nível nacional é algo que nunca vimos antes.”
Isso significa que o clima não se limita mais às agendas de organizações ambientais ou de alguns países, mas está se tornando um tema de interesse econômico global, e “isso é definitivamente uma boa notícia”.
Segundo o especialista, muitas empresas já começaram a reagir e estão percebendo que virão regulamentações governamentais mais rígidas. “Mas também que há demandas cada vez mais importantes dos consumidores.”
Existem empresas em diferentes partes do mundo que “estão estabelecendo metas alinhadas com a ciência, com [a meta de manter o aquecimento global abaixo de] 1,5ºC”.
Em setembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que mais da metade dos setores que compõem a economia mundial se comprometeram a reduzir suas emissões pela metade na próxima década.
“Em cada um desses setores, pelo menos 20% das principais empresas por receita estão alinhando em torno de metas setoriais específicas para 2030, em linha com a obtenção de emissões líquidas zero até 2050, e que incluem metas como 60% de geração renovável no setor de energia e 5% de combustível com emissão zero no setor de transporte marítimo”.
Raúl Salazar, chefe regional para as Américas e o Caribe do Escritório da ONU para a Redução do Risco de Desastres, também vê motivos para otimismo.
“Do nosso ponto de vista, vemos que existe um compromisso importante dos níveis governamental e comunitário para avançar na redução do risco de desastres e ameaças de origem climática.”
“Há uma consciência muito clara de que se não forem tomadas medidas objetivas para lidar com as mudanças climáticas nos próximos dez anos, eventos climáticos extremos serão esmagadores, especialmente para os países em desenvolvimento.”
3. Temos muito mais informações — e isso nos ajuda a prevenir desastres
O estudo das mudanças climáticas tem levado ao desenvolvimento de novas ferramentas de pesquisa e modelos de análise.
“Temos mais dados e, quanto mais informações (acumulamos) ao longo do tempo, melhor podemos entender o que está acontecendo, bem como a direção e magnitude da mudança”, diz Erika Podest, cientista do Grupo de Ciclo e Ecossistemas de Carbono na Divisão de Ciências da Terra do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, a agência espacial americana.
A Nasa possui uma frota de satélites para monitorar o planeta, assim como outras agências espaciais, como a europeia e a japonesa.
E um grupo de cientistas está usando a Estação Espacial Internacional para estudar o clima da Terra.
“Se conseguirmos entender como as coisas eram antes e qual foi a trajetória, podemos prever melhor como será o futuro e nos preparar, porque parte de todo esse processo de compreensão dos impactos das mudanças climáticas é tentar mitigar e se adaptar.”
Por exemplo, detectar a vulnerabilidade de áreas onde você deseja construir pode salvar vidas e reduzir perdas econômicas.
Na América Latina e no Caribe, diz Salazar, a coleta sistemática de informações sobre danos e perdas causados ​​por desastres nos permitiu tomar melhores decisões para o futuro.
“Em alguns casos, foram medidas concretas de preparação para emergências”, embora existam lacunas importantes entre os países quando se trata de coleta de dados.
“Se você me perguntar se estamos melhorando, acho que sim. As tendências regionais mostram que houve redução da mortalidade por efeito das ameaças de origem climática (furacões, inundações, deslizamentos) e geológica (terremotos, tsunamis)”.
A análise dos dados de eventos de grande e pequena escala levou a uma estimativa de que nove entre dez desastres ocorridos na região nos últimos 40 anos foram de origem climática.
“Isso nos diz claramente que eles podem ser evitados e previstos com sistemas melhores, por exemplo, monitoramento meteorológico, alerta precoce”, argumenta.
“Nesse sentido, serão originadas uma maior quantidade de medidas governamentais para prevenir a perda de vidas.”
O conhecimento dos dados também lhes permite desenvolver modelos probabilísticos “que ajudem os governos a quantificar a possibilidade de perdas no futuro e, portanto, enumerar as medidas ou dotações orçamentárias para a prevenção de desastres”.
4. Fontes alternativas de energia hoje são acessíveis
Pérez-Cirera explica que um dos fortes argumentos contra a energia eólica e solar no passado eram os custos dessas tecnologias. Isso mudou.
“Pensando nos custos de mercado, a energia solar, por exemplo, é muito competitiva. Alcançou preços mínimos impressionantes, o que, com as políticas adequadas, a torna uma alternativa perfeitamente viável.”
Outro argumento utilizado é que nem sempre há sol ou vento.
“Alguns políticos que tinham relações com a indústria do petróleo disseram que a energia renovável não era confiável. No entanto, já existem sistemas de armazenamento de energia disponíveis.”
“Se você tem meses com muito vento, pode armazenar essa energia e usá-la em outro momento. Antes, as baterias de armazenamento eram muito caras, agora, são muito acessíveis.”
As energias renováveis ​​”já não são um sonho distante, estão mesmo disponíveis”.
Podest menciona outras formas, como geotérmica e marés, e o avanço dos carros elétricos. E diz que, se desenvolvidas de forma responsável, podem ajudar a reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2).
5. Estamos mais conscientes do problema e dispostos a agir
“O planeta está esquentando, e já estamos vendo os impactos das mudanças climáticas”, diz Podest.
À medida que a situação piora, veremos eventos extremos com mais frequência: ondas de calor, ondas de frio, furacões mais intensos.
“Mas dá tempo de mudar ou pelo menos parar e começar a reverter os danos que causamos ao meio ambiente”, afirma.
E esclarece que, “quanto mais rápido agirmos, melhores serão as chances de preservar nosso planeta de forma habitável”.
Para a especialista, “nunca é tarde demais”. “Muitas pessoas podem pensar: ‘Para quê? É melhor eu aproveitar todos os confortos da minha vida porque não há nada que possa ser feito’. Mas todos nós podemos fazer alguma coisa.”
Segundo ela, as ações mais importantes no nível individual dizem respeito a minimizar o consumo de combustíveis fósseis, o uso de carros convencionais, recursos como eletricidade ou água. “Ser mais consciente de nosso impacto sobre o meio ambiente.”
Na América Latina, diz Pérez-Cirera, temos grandes possibilidades de escolher alimentos altamente nutritivos que deixam uma pequena pegada de carbono.
Se queremos um futuro próspero e mais justo, temos que nos voltar para ver a natureza, ressalta.
“A ciência nos diz que a janela do tempo está se fechando, mas também nos diz que é possível. E o que indica o nível de preocupação da sociedade também é um farol de esperança”.
Assim, a consciência individual e coletiva sobre as mudanças climáticas cresce.
“É muito importante que não caiamos em um sentimento de desesperança, mas sim de empoderamento”.
“Pensar que como consumidores temos poder, como eleitores temos poder, como indivíduos podemos fazer algo e que algo não é marginal, mas poderoso”.