MC Negão da BL faz sucesso na web ao lado da mãe: ‘Tô subindo com a minha criatividade’


Com vídeos simples, sem equipamento ou edições, jovem cantor atingiu a marca de 1 milhão de seguidores no Instagram relatando o dia a dia ao lado da família. Cantor de funk faz sucesso nas redes sociais com vídeos ao lado da mãe
Na era das selfies e do culto à própria imagem nas redes sociais, um jovem MC de 23 anos, morador de um bairro humilde de Magé, na Baixada Fluminense, vem conquistando uma legião de fãs ao retratar, sem filtros e com bom humor, a simplicidade do dia a dia ao lado da mãe.
Com apenas um celular, Matheus Bento, ou MC Negão da BL, como é conhecido pelos internautas, atingiu a marca de 1,1 milhão de seguidores no Instagram nesta semana, com vídeos que ganharam a atenção dos seguidores pela relação entre mãe e filho, e também pelos sopapos que Matheus leva em frente às câmeras.
“Eu trabalhava de camelô e, quando cheguei em casa, comecei a filmar brincando naturalmente com a minha mãe. Quando coloquei no status do meu WhatsApp, explodiu. Eu falei com meu DJ, que hoje é o meu empresário, e me disse para jogar no Twitter. Numa noite, estava com 358 seguidores. Na outra, com 10 mil”, conta Matheus.
Matheus Bento, o MC Negão da BL, ao lado da mãe, Gisele Bento de Souza
Divulgação/Adriana Sena/MC Negão da BL
O sucesso que fazia na internet, no entanto, só foi entendido por Dona Gisele Bento de Souza, mãe de Matheus, depois que a família passou a ser abordada nas ruas pelos seguidores.
“Eu só tive noção mais ou menos do que estava acontecendo quando fomos a Piabetá, um bairro próximo. A gente passou em frente a uma funerária, e o povo largou o defunto para sair correndo atrás da gente. Todo mundo dizendo “são eles”, querendo tirar foto. Olha, foi engraçado”, conta Dona Gisele.
Relação entre mãe e filho passou a divertir internautas
Reprodução/Redes Sociais
O sorriso largo na frente das câmeras, no entanto, não mostra a trajetória de lutas e superações de Matheus ao lado da mãe. Abdicar de sonhos, como o de ser jogador de futebol, foi uma das dificuldades relatadas pelo jovem.
“Meu sonho sempre foi jogar ou cantar. Cantar, minha mãe não deixava, então fui jogar. Mas jogar também não dava porque eu não tinha dinheiro para bancar as despesas. Às vezes, também, eu fingia que já tinha comido na escola só para minha mãe e minhas irmãs poderem comer o que tinha em casa. Sempre fui eu e elas, juntos”, relembra Matheus.
História de superação essa retratada hoje nas canções de Negão da BL, que já atingiram mais de 1,9 milhão de visualizações no YouTube. Discreto, apesar do personagem que assume na frente das câmeras, ele agradece à mãe e aos seguidores, que acompanham os sonhos de Matheus sendo, aos poucos, realizados.
“Eu queria suprir as necessidades da minha mãe, mas nunca pensei que seria um dia artista de internet. Hoje, com 23 anos, tô levantando a minha casa, tô ajudando a minha mãe, eu tô lutando sem atrapalhar a vida de ninguém. Tô subindo com a minha criatividade e com a parceria, que é a da minha mãe”, diz.
Publicação do MC Negão da BL ao conseguir realizar o sonho de fazer uma boa compra em um supermercado para a mãe
Reprodução/Redes Sociais
‘Água, coca, latão’
Entre os vídeos mais famosos de Matheus, que contam casos dos antigos trabalhos do jovem como camelô e vigilante, está o que relata um episódio em que o MC trabalhou como vendedor.
A gravação, que atingiu quase 4,5 milhões de visualizações, logo se tornou meme. A brincadeira “água, coca, latão”, que faz referência aos vendedores cariocas, foi difundida internacionalmente e chegou a ser reproduzida em vídeo pelo lateral Marcelo, do Real Madrid, e pelo zagueiro Éder Militão.
Jogadores Éder Militão e Marcelo, do Real Madrid, reproduziram vídeo de Negão da BL
Reprodução/Redes Sociais
“Negão, tamo junto. Satisfação, a gente se amarra nos seus videos, tu é fera demais. Manda um abraço para a Dona Gisele, um beijão para Hadassa”, diz o jogador Marcelo na filmagem publicada nas redes sociais.
‘Faltou muita coisa, mas sempre teve, de sobra, muita educação’
Matheus, dona Gisele e a pequena Hadassa no bairro do Fragoso, onde o jovem MC cresceu
Reprodução/Redes Sociais
O que também não é exibido na internet junto com os vídeos que levam alegria aos seguidores é o medo que fez com que Dona Gisele, mãe solteira de quatro filhos, deixasse o serviço de acompanhante para estar mais presente na criação do jovem Matheus, hoje astro da internet.
“Eu pensei: não vou cuidar dos outros e perder o meu. Comecei a vender no bazar de roupas usadas, capinava aqui, limpava uma foça ali. Uma coisa que nunca faltou, sempre teve de sobra, foi muita educação. Eu tinha uma preocupação muito grande de desistir do meu filho porque cansa. Vou te confessar: mãe, solteira, cansa. Mas hoje eu tenho meus quatro filhos, estou criando a Hadassa, estou aqui, firme”, Gisele menciona a filha mais nova, que também é estrela nos vídeos de Matheus.
O medo do preconceito vivenciado por jovens negros na periferia do Rio de Janeiro fez com que Gisele tornasse a educação de Matheus ainda mais rígida. O sonho do jovem de se tornar cantor, por exemplo, só foi possível depois dos 18 anos.
“Preconceito era demais. Ainda é. Um menino negro, dentro de uma comunidade, cantando? Eu não deixava porque eu tinha medo de ele ser confundido. Eu, Gisele, sabia o filho que eu tinha educado e o homem que ele se tornou, mas eu tinha medo do mundo”, diz.
A criação de Gisele coincidiu com a personalidade do jovem, que desde muito cedo apresentava maturidade e respeito pela família.
“Eu nunca gostei de andar em tropinha, com gente que não faz nada. Sempre gostei de correr atrás. Eu bati de frente com o mundo, batia. Mas eu dizia pra ela: mãe, eu vou conseguir. Mas eu não posto isso para não passar a visão errada, de que ‘luta aí que você consegue’. Eu sei da dificuldade. A gente tem que respeitar a dificuldade”, diz Matheus.
“Quando eu olho para o Matheus, eu vejo uma batalha vencida porque eu fiz braço com o mundo. Eu caí para dentro do mundo e falei o filho é meu, e você não vai levar. Sempre ensinei ao Matheus o que era droga e o que ela fazia com o jovem. A minha preocupação era tão grande, que o Matheus, quando tinha 10 anos de idade, eu conversei com ele sobre educação sexual. Eu falei com ele sobre camisinha. Eu fiz o papel que um pai devia fazer, mas não tinha. Eu estive ali”, conclui a mãe.
Dona Gisele Bento de Souza e os filhos, Hadassa e Matheus
Reprodução/Redes Sociais
*Estagiária sob supervisão de Janaína Carvalho