MC Cabelinho é intimado a depor e nega apologia ao crime: ‘Não falo nada além da realidade’


‘Se moro em comunidade, não vou falar da patricinha que anda com o cachorro na orla de Copacabana’, diz cantor e ator ao G1. Ele foi intimado junto com MC Maneirinho em apuração sobre apologia ao crime. MC Cabelinho
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MC Cabelinho recebeu uma intimação na semana passada para depor em uma delegacia do Rio sobre apologia ao crime, na mesma investigação na qual foi intimado o MC Maneirinho.
Vitor Hugo Nascimento, o Cabelinho, é um dos cantores de funk mais conhecidos do Brasil hoje. Aos 24 anos, ele tem diversas músicas ouvidas dezenas de milhões de vezes no YouTube e já fez um dueto com Anitta em “Até o céu”.
Ele também é ator, intérprete do personagem Farula em “Amor de mãe”. Na pausa da gravação da novela durante a pandemia, Cabelinho lançou um disco com o objetivo de que “a elite entenda a favela antes de julgar”.
O músico falou na tarde dessa quinta-feira (29) com o G1. Ele diz que a intimação partiu da denúncia de um político, mas que não quer divulgar o nome pois “esses caras querem mídia”.
Ele também afirmou que seus advogados não tiveram acesso a toda a denúncia, e por isso ele foi à Cidade da Polícia, na Zona Norte do Rio, nesta quinta-feira, mas não depôs.
O G1 procurou a Polícia Civil, mas até a publicação da reportagem não obteve retorno.
Ele afirma que suas letras apenas descrevem a realidade da favela, sem apologia ao crime: “Às vezes me pergunto quanto isso vai acabar, quando vão parar de olhar para a gente dessa forma, ver todo favelado como criminoso.” Leia a entrevista abaixo:
G1 – Quando você recebeu essa intimação e qual foi sua reação?
Cabelinho – Tem uma semana. Eu fiquei chateado, mas não fiquei surpreso. Os caras criminalizam o funk há um tempão. Então é uma parada com a qual a gente se acostumou, mas mesmo assim fico chateado
G1 – O depoimento estava marcado para hoje? Como foi?
Cabelinho – Meus advogados não quiseram que eu desse o depoimento, acharam melhor não fazer. Eles não conseguiram ver o inquérito todo, só metade. Assim que eles tiverem acesso ao inquérito todo, vamos ver o que fazer.
G1 – Mas você postou uma foto na frente da delegacia. Você chegou a falar com a polícia?
Cabelinho – Não. Eu fui lá me encontrar com os advogados, mas não falei.
G1 – Você disse no Instagram que a denúncia foi feita por um político. Quem é?
Cabelinho – Eu prefiro não falar, porque esses caras querem mídia, querem causar intriguinha, fofoca, reboliço. Acho que ele não merece que eu fale.
G1 – A denúncia é sobre apologia ao crime. Você faz isso nas suas músicas?
Cabelinho – Eu não considero o que eu falo apologia. E acho que ninguém deveria considerar. O MC não falo nada além da realidade, do que acontece.
Eu fui nascido e criado onde eu via da minha janela boca de fumo, tráfico, correria. Não tem como mudar o contexto. Não tem como falar de coisa bonita, se a gente mora em comunidade, não vou falar da patricinha que anda com o cachorrinho na orla de Copacabana.
G1 – O Maneirinho foi intimado pela mesma denúncia? Há outro MC?
Cabelinho – Eu encontrei com ele lá na delegacia. Acho que o nosso depoimento seria até no mesmo horário. Até agora, que eu saiba, somos só nós.
G1 – E você sabe porque são vocês dois, e não outros?
Cabelinho – Eu queria saber te responder isso.
MC Cabelinho, cantor de funk e ator que interpreta o personagem Farula, de ‘Amor de mãe’
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G1 – Queria saber sobre o impacto de ter sido intimado. Primeiro para você, pessoalmente.
Cabelinho – Não queria que acontecesse, queria que entendessem nossa realidade antes de falarem besteira. O difícil é que tem mais pessoas na sociedade que pensam como eles. Às vezes me pergunto quanto isso vai acabar, quando vão parar de olhar para a gente dessa forma, ver todo favelado como criminoso. Eu não tenho culpa de ter traficante na favela.
G1 – E o impacto profissional disso, na sua carreira e de outros músicos de funk?
Cabelinho – A maioria das pessoas não entende porque a gente fala da nossa realidade. E acho que quando isso acontece com mais um MC, mais um DJ, eles podem ganhar mais confiança nessa forma de pensar, que está errada. Mas como eu falei, eu não vou me calar, enquanto puder me defender desses caras, vou me defender, vamos fazer o possível para reverter. MC e DJ não são bandidos.