Marcos Veras fala sobre transição do humor para outros gêneros: ‘Encontrei resistência no início’


Ao G1, ator desabafa: ‘Não está mais difícil fazer humor, não. Tá sobrando gente chata, frustrada e manipulada que repete discurso de gente perigosa e poderosa’. O 2020 de Marcos Veras começou agitado. Em janeiro e fevereiro, o ator se dividiu entre as gravações da comédia romântica “Um casal inseparável” e da série “Filhas de Eva”, da Globo.
No filme, o ator é Léo, um pediatra bem-sucedido sempre de bom humor. Ele se envolve com várias mulheres até conhecer Manu (Nathalia Dill).
Já na série, sem previsão de estreia, Veras é Fábio Ferreira, um dedicado jornalista que trabalha em um caso de corrupção envolvendo um empresário de renome.
Entre as filmagens, Veras “dormiu pouco e trabalhou muito”. “Mas a gente sempre dá um jeitinho de jantar com a namorada, encontrar a mãe. Talvez menos que gostaria, mas dá”, diz o ator ao G1.
Após um tempo de folga, ele engata em abril a gravação da sexta temporada da “Escolinha Nova Geração”. “Queria fazer uma viagem para fora do país, mas com o coronavírus fica difícil.”
Marcos Veras
Divulgação
“Filhas de Eva” convida o público a pensar sobre as mudanças da vida. A história a ser contada é a de Stella (Renata Sorrah), Lívia (Giovanna Antonelli) e Cléo (Vanessa Giácomo). E a série trouxe um momento de reflexão para Veras:
“Estou sempre em busca de mudanças. Em 2015, quando sai do ‘Encontro com Fátima Bernardes’ para encarar outros desafios na carreira, ouvi de algumas pessoas: ‘Você vai abrir mão de fazer um programa como esse, pra fazer cinema, novela…’.”
“Já tinha ficado três anos no programa e que foram lindos. Já me separei de um relacionamento de 12 anos, isso também é uma mudança grande. E agora estou vivendo a maior delas até agora: vou ser pai.”
G1 – Quais as mudanças que pretende fazer para sua vida a partir de agora, aproveitando esse novo ano?
Marcos Veras – Esse ano quero me dedicar a chegada do meu primeiro filho. É um momento especial que requer foco e organização.
Estou escrevendo meu segundo solo de humor e preciso terminá-lo porque quero fazer algumas apresentações no segundo semestre ainda. Estou interessado em Meditação Transcendental e venho estudando o assunto pra me tornar menos ansioso e mais focado em coisas que realmente interessam. Estou estudando espanhol também. E chega, né? Com isso já acabou o ano.
G1 – Por falar em mudanças, você é um ator muito conhecido por seu trabalho com humor, mas tem cada vez mais feito uma transição para o drama e outros projetos longe do cômico. Como é fazer essa mudança, já que muitos atores que vieram do humor, por vezes, relatam uma espécie de preconceito e/ou falta de abertura para mostrar suas outras vertentes?
Marcos Veras – Sempre fui ator antes de ser comediante, mas é claro que em algum momento da carreira você acaba tendo um cartão de visitas e o meu foi a comédia, é a comédia. E me orgulho muito disso. Acho algo muito difícil de fazer e muito nobre.
Mas é fato que venho mostrando ao público e ao mercado que sei e gosto de fazer outros gêneros. Acho que o artista pode fazer tudo. Mas isso depende do próprio artista também.
Encontrei resistência também no início dessa transição ao querer fazer um drama, por exemplo. Hoje encontro bem menos e venho fazendo cada vez mais outros gêneros, sem abandonar a comédia, claro.
Marcos Veras em cena de “Divaldo – O Mensageiro da Paz”
Divulgação
G1 – Tem alguma preferência pra você atualmente?
Marcos Veras – Minha preferência é de alternar sempre. Fazer uma comédia e em seguida um drama. Seja na TV, Teatro ou Cinema. Esse é o meu objetivo. Tenho muita vontade também de apresentar um programa meu. Também sou apresentador. E já existe um projeto piloto pra isso, aliás
G1 – Como é fazer humor atualmente, em tempos de “cancelamento” na internet?
Marcos Veras – Nunca me pautei pela polêmica, sempre fujo disso. Mas é claro que mesmo não sendo uma característica minha, posso errar, polemizar e ser cancelado. O humor também erra.
Essa coisa de cancelamento é um mistério. Não sei muito o que pensar sobre. Porque às vezes parece uma moda de Twitter, às vezes parece uma brincadeira. Mas também pode causar estragos enormes na vida de uma pessoa. Muitas vezes me parece rasteiro, vazio. Um julgamento feito através das redes por pessoas que não te conhecem, não sabem o contexto da situação.
Mas é óbvio que uma declaração racista, homofóbica deve e será cancelada junto com a pessoa. E aí a internet não perdoa e muitas vezes a rede está certa.
G1 – Você planeja seus posts pensando nisso? Como é sua relação com as redes sociais?
Marcos Veras – Meus posts ultimamente são os mais neutros possíveis. Em sua maioria buscando o humor. Mesmo que seja pra dar um recado ou criticar algo. Não quero e nem gosto de ser xingado, ameaçado. Me faz muito mal.
Percebi que quando eu postava algo sobre política, aquilo me tirava energia, mas ao mesmo tempo não deixo de me colocar. Tenho minha opinião.
Marcos Veras e Rosanne Mulholland curtem primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro
Iwi Onodera/Brazil News
Posto charges e memes contra os absurdos do governo. Mas entendi também que prefiro discutir, dialogar ao vivo, na mesa de bar, olho no olho.
Uso todas as redes sociais e me dou bem com todas. Ela é importante para democracia, para campanhas sociais e até pra mudanças como já foi provado através de abaixo assinado etc.. Busco as pautas positivas, na medida do possível, porque a coisa tá feia por aqui e no mundo.
G1 – Lembrando a recente proibição e polêmica com o “Porta dos Fundos” de Natal, está mais difícil fazer humor hoje?
Marcos Veras – Esse ataque ao “Porta dos Fundos” é o maior absurdo dos últimos anos. Até o humor que era algo quase acima do bem e do mal, entrou nessa briga idiota política/ideológica/religiosa. E pior, muita gente a favor dessa violência, gente que se diz cristã.
Eu sou cristão e pratico minha religiosidade todos os dias. Tô fora dessa briga tosca que se tornou o país. Deus, Jesus tem mais humor que essa gente que prega o ódio. Jesus é hétero, gay, branco, negro. Jesus é tudo, pô!
Que história é essa que não pode brincar com o presidente? Desde que me entendo por gente eu vejo imitação do Sarney, do Collor, do Brizola, do Lula, da Dilma. E por que não pode com o Bolsonaro?
O político agora tomou o lugar dos times de futebol? As pessoas torcem? Chico Anysio, Jô Soares faziam paródias de Deus, Jesus. E brincavam com todas as religiões.
Não está mais difícil fazer humor, não. Está mais fácil. Tá sobrando gente chata, frustrada e manipulada que repete discurso de gente perigosa e poderosa. O que não falta é matéria-prima pra fazer humor.
Mas como sou um cara positivo eu tenho esperança que esse período difícil vai passar. Nosso país é muito melhor que isso que está sendo apresentado.