Maísa Moura borda e costura canções no álbum ‘O azul daqui’ com a paz da voz da cantora mineira


Produzido por Makely Ka, o disco transita com afetividade entre as águas e as montanhas das Geraes. Capa do álbum ‘O azul daqui’, de Maísa Moura
Pintura de Gisele Moura
Resenha de álbum
Título: O azul daqui
Artista: Maísa Moura
Edição: Edição independente da artista
Cotação: * * * *
♪ É sintomático que o segundo álbum solo da cantora mineira Maísa Moura, O azul daqui, se encerre com abordagem de Sertão, bela canção de Caetano Veloso e Moreno Veloso lançada na voz de Gal Costa no álbum Aquele frevo axé (1998).
Além de conter na letra o verso (“O azul do azul daqui”) que gerou o título do disco produzido pelo compositor e músico piauiense Makely Ka entre julho de 2019 e novembro de 2020, sob direção artística da própria Maísa Moura, Sertão sintetiza a geografia deste álbum que transita entre o mar e o chão das Geraes.
Em cena desde 2001, ano em que debutou como intérprete ao gravar músicas de Makely Ka, com quem lançaria cinco anos mais tarde o disco Danaide (2006), Maísa Moura apresentou em 2009 o primeiro álbum solo, Moira, antes de interromper a carreira musical por anos para se dedicar a trabalho na área da educação.
Com capa que expõe pintura da artista plástica Gisele Moura, irmã de Maísa, o álbum O azul daqui retoma o fio da meada, soando coerente com a trajetória pregressa da cantora. Também expostas ao longo do encarte da edição em CD do álbum, as telas de Gisele Moura reforçam o conceito de cada música.
Nesse encarte, cada uma das 14 faixas do disco é ilustrada com telas azuis em que Gisele Moura retrata cada composição cantada com delicadeza por Maísa Moura.
A propósito, a suavidade é traço dominante no disco e no canto da artista. É como se Maísa bordasse cada canção e o álbum resultasse, no todo, numa tela com impressões sensíveis e afetivas da geografia mineira.
Basta ouvir a cantora recontar a história de Acalanto (1973) – canção do sertanista baiano Elomar ouvida por Maísa na gravação feita por Diana Pequeno em 1978 – para perceber como a voz de Maísa parece tecer cada nota com doçura que contrasta com a aridez do toque do baixo acústico de Rodrigo Quintela, orquestrado por Avelar Jr. para a faixa.
O colorido onírico de Valsa azul (Nelson Ferreira com letra imagética de José Miguel Wisnik, 2002) reforça o tom airoso do álbum.
A atmosfera lúdica da aliciante canção Faz de conta (Renato Villaça) e da música Grilo (Rodrigo Torino sobre poema e Renato Negrão) – cujo ar maroto é sublinhado pela marimba de vidro percutida por Leo Dias – contribui para a unidade desse disco conceitual que mantém o clima imaginativo de “faz de conta” em Transeunte, canção de Makely Ka de contorno buarquiano, como bem caracteriza a cantora ao discorrer sobre as músicas do disco.
A cantora Maísa Moura dá voz a músicas de Elomar, Makely Ka e José Miguel Wisnik no álbum ‘O azul daqui’
Moreno Moura / Divulgação
Com predominância de (inspiradas) composições com a assinatura de Makely Ka (oito em 14 músicas), o álbum O azul daqui sustenta essa unidade ao longo de 14 faixas alinhadas entre si com costura fina.
As imagens da Ciranda longe do mar (Sérgio Andrade e Makely Ka), por exemplo, se banham na memória das águas que abrem o disco com a evocação de Senhora Janaína (Makely Ka), canção em feitio de oração.
A reboque dessas mesmas águas, Eu sou do mar (Makely Ka) estende ponte com o interior de Minas em travessia iniciada na África. Atestado da inspiração de Makely, Valsa do bom buriti evoca conto do escritor mineiro Guimarães Rosa (1908 – 1967) enquanto desloca o disco para o interior montanhoso das Geraes em condução feita com o toque do bandoneón de Otto Hanriot.
Esse sertão mineiro é encharcado de afetividade na canção Na beira do tempo (2016), cativante composição de Kiko Klaus e Makey Ka apresentada há cinco anos como música-título de EP lançado pelo pernambucano Klaus.
Na rota do disco, um pau-de-arara conduz O azul daqui até o sertão cearense através da regravação de Araripe Ararat (Chico Saraiva e Mauro Aguiar, 2009).
Música que anunciou o álbum O azul daqui ao ser apresentada em single editado em 9 de abril, Forró em Oeiras (Mário Sève e Makely Ka) transporta o disco para o sertão do Piauí com vivacidade e um sentimento de religiosidade popular recorrente na rota nacionalista do disco, como reforçam os versos de Comutação de promessas (Gustavo Souza e Makely Ka).
Sem jamais se perder nessa rota, Maísa Moura propaga a “paz da voz” – como enfatiza no canto de Sertão ao fim do álbum O azul daqui – em percurso que, entre águas e montanhas, parece iniciar e culminar no coração da intérprete.