Mais impostos para os ricos, uma ideia que cresce nos Estados Unidos


Debate tem sido liderado pela ala mais à esquerda do Partido Democrata. Aumentar os impostos sobre os ricos e as empresas para melhorar o sistema de saúde ou, mais genericamente, lutar contra a desigualdade? Por muito tempo assunto tabu nos Estados Unidos, a ideia agora ganha terreno, encorajada pela ala mais à esquerda do Partido Democrata.
Em um país que incorpora o espírito empreendedor e que tem o maior número de bilionários do mundo, a questão está em alta nas últimas semanas.
Não há um único candidato democrata para as eleições presidenciais de 2020 que não fale sobre isso, um debate agitado por dois homens que estão preocupados com o aumento da desigualdade: Bill Gates e Warren Buffett, segundo e terceiro mais ricos do mundo de acordo com a Forbes.
Fachada sul da Casa Branca, em Washington
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O senador de esquerda Bernie Sanders foi o primeiro a lançar a questão na eleição presidencial de 2016, defendendo o aumento dos impostos federais para financiar a gratuidade das universidades e uma cobertura universal de saúde.
Elizabeth Warren defende um imposto de 2% sobre qualquer fortuna superior a US$ 50 milhões, enquanto Kirsten Gillibrand um imposto sobre transações financeiras e Sanders um imposto sobre as heranças para os rico.
Ocasio Cortez à frente
Sem ser candidata à presidência, a deputada de origem porto-riquenha Alexandria Ocasio Cortez está na vanguarda do debate: defende um novo imposto sobre a renda acima de US$ 10 milhões, que chegaria a 70%, para financiar um programa ambicioso que combina mais energias renováveis, cobertura médica para todos e emprego.
Alexandria Ocasio-Cortez lidera o debate
Brian Snyder/Reuters
Outra prioridade para os democratas: aumentar os impostos sobre as empresas.
A discussão foi acesa com a controvérsia em torno da situação fiscal da Amazon, a empresa com a qual Jeff Bezos fez sua fortuna.
A Amazon não paga impostos federais graças aos créditos obtidos por seus grandes investimentos e alimenta o debate sobre as empresas que não pagam impostos mesmo que obtenham benefícios.
Vários republicanos atacam as propostas democratas.
Grover Norquist, presidente do centro Americans for Tax Reform e próximo dos republicanos, alerta desde janeiro contra as propostas que têm os ricos como alvos, mas que sempre “terminam afetando a classe média”.
Mas para Joseph Thorndike, especialista na história da política fiscal americana, um retorno da tendência que empurrou os impostos para baixo desde o fim da Segunda Guerra Mundial é agora possível.
“Acho que algo está realmente acontecendo: foi lançada uma discussão que não tínhamos desde os anos 60 ou mesmo dos anos 50”, disse.
No final da guerra e do “New Deal” do presidente Roosevelt, os impostos eram muito altos, com uma taxa máxima de impostos de 94%. Caíram drasticamente primeiro nos anos 60, e depois com Reagan nos anos 80, explicou.
Em 2017, o bilionário Donald Trump – que sempre se recusou a divulgar sua declaração de renda – e a maioria republicana no Congresso aprovaram um novo corte dos impostos federais, apesar da oposição dos democratas.
Como o discurso se inverteu?
Em grande parte, por causa das crescentes desigualdades, estima Thorndike.
“As pessoas podem tolerar quando os ricos se tornam mais ricos, desde que a classe média também se beneficie. Mas quando as classes médias e trabalhadoras se estagnam, isso cria tensões sociais que são politicamente problemáticas”, aponta.
Trump também poderia ter um efeito catalítico.
Enquanto grandes mudanças na tributação americana ocorreram em tempos de crise – guerra ou severa recessão – a presidência Trump “poderia representar uma ruptura suficiente para desencadear este tipo de mudança”, acredita Thorndike.
Uma pesquisa realizada entre os dias 22 e 24 de fevereiro pelo instituto Morning Consult para o site Politico parece confirmar a crescente aprovação dos americanos: 74% dos eleitores disseram que são favoráveis a impostos mais elevados para os ricos, e 73% para as empresas.
Mais de 90% dos eleitores estimaram que esses impostos adicionais devem ser destinados a uma melhoria do sistema de saúde ou infraestrutura.
Mas esse aparente consenso, que esconde importantes disparidades entre democratas e republicanos, deve ser interpretado com cautela, já que as questões tributárias são delicadas, alertam especialistas.
As medidas mais eficazes são muitas vezes difíceis de explicar ao público, e os argumentos “anti-ricos” apresentados por alguns democratas podem assustar os eleitores, destaca Thorndike.
Uma coisa é certa: “os políticos buscam inovar e responder com métodos não-tradicionais”, acredita Kenneth Scheve, professor de ciência política na Universidade de Stanford.