Mais de 15 mil Yanomami são afetados por suspensão de voos e Conselho de Saúde prevê colapso


De acordo com Junior Hekurari, presidente do Condisi-Y, cerca de 20 indígenas estão em situação grave de malária na região. Voos para o território Yanomami estão suspensos desde 1º de novembro por conta de uma dívida de R$ 17 milhões do Dsei-Y. Posto de saúde na comunidade Palimiú, Terra Indígena Yanomami
Alexandro Pereira/Rede Amazônica
A suspensão de voos para a Terra Indígena Yanomami afetou mais de 15 mil indígenas de cerca de 19 regiões, afirma o presidente do Conselho Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuanna (Condisi-Y), Junior Hekurari Yanomami. A decisão da empresa Voare Táxi Aéreo, na última segunda-feira (1ª), foi tomada devido dívidas de mais de R$ 7 milhões por parte do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), órgão ligado ao Ministério da Saúde.
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Hekurari prevê ainda que se os voos não forem retomados haverá um “grande colapso na saúde Yanomami”. Entre as regiões que foram afetadas em três dias de suspensão dos voos, estão:
Surucucu;
Kataroa;
Watho-u;
Homoxi;
Haxiu;
Hakoma;
Xitei;
Ketaa;
Waputha;
Parafuri;
Parima;
Ajarani;
Maloca Paapiu;
Kayanaú;
Uxiu;
Alto Catrimani;
Baixo Mucajaí;
Alto Mucajaí;
Pewáu.
A Voare Táxi Aéreo é a única que presta serviços na Terra Yanomami. Até o dia 31 de outubro, eram feitos ao menos 12 voos por dia, para levar até quatro toneladas de alimentos, médicos e enfermeiros, conforme a empresa. O gasto diário é de R$ 70 mil.
Esse atendimento era feito com três aeronaves. Uma de porte pequeno, com nove lugares, outra com Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e um helicóptero para pouso em locais mais difíceis.
Em nota, a Voare informou que ao todo, o Dsei-Y possui quatro contas em atraso, três referentes a 2019 e uma de 2021. Disse também que o Distrito sinalizou que iria sanear as pendências financeiras.
Conforme a Voare, assim que ocorrer o pagamento, a empresa vai conseguir pagar os fornecedores e restabelecer a normalidade das rotinas do transporte aéreo. A empresa afirma que vai aguardar o pagamento até a próxima sexta-feira (5).
O Ministério da Saúde informou por meio da Secretaria Especial Indígena (Sesai) que o Dsei-Y é o Distrito que mais recebeu investimentos do Governo Federal nos últimos três anos, somando-se mais de R$ 216 milhões para serviço, contratação de transporte aéreo, terrestre e fluvial, recursos humanos, aquisição de bens, insumos, medicamentos, entre outros.
A reportagem também procurou a coordenação do Dsei-Y, mas até o momento da publicação não obteve resposta.
Ao g1, Junior Hekurari informou que os voos para a Terra Indígena Yanomami eram feitos “dia sim e dia não”. Ele afirma que apenas no primeiro dia da suspensão, foram afetados mais de 10 mil indígenas nas comunidades que seriam atendidas com o envio dos mantimentos.
“Foram mais de 10 mil indígenas desatendidos a partir do dia 1º. Teriam comunidades atendidas no dia 1º, depois hoje, mais 5 mil indígenas. São tabelas de rotina, dia sim e dia não. Esses voos, se não forem realizados até o dia 5 de novembro, vão trazer um colapso muito grande na saúde Yanomami”, relata Junior Hekurari.
Hekurari também relata que, de acordo com o calendário de voos, todos os 30 mil indígenas que vivem no território Yanomami, vão sofrer “graves consequências dessa suspensão”.
“São 30 mil indígenas que vão ficar sem abastecimento de medicamento, sem alimentação dos profissionais que trabalham lá na terra indígena, sem abastecimento dos pacientes que estão internados lá fazendo tratamento nos postos de saúde da Terra Indígena Yanomami. São 75 pontos de atendimento que estão sendo prejudicados, e os médicos não estão entrando por causa dessa paralisação. Os outros profissionais, que estão na Terra Indígena, já estão sem alimentação para poder trabalhar”, afirma.
Indígenas atingidos pela malária
Região do Surucucu na Terra Indígena Yanomami em Roraima
Junior Hekurari Yanomami
Segundo Hekurari, há pelo menos 20 pessoas em estado grave pela malária e, apenas na região do Surucucu, há 60 pacientes aguardando atendimento. Essa doença é a que mais afeta os habitantes do território.
“Os [casos] mais urgentes estão sendo trazidos para Boa Vista pelo Dsei-Y, pois na terra indígena não tem o que fazer. Então, é uma coisa muito séria. É malária, desnutrição, pneumonia, as mulheres gestantes que estão em acompanhamento nos postos de saúde”.
Além dos indígenas, os profissionais que trabalham na região também estão sendo prejudicados pela falta de voos. Ainda segundo Hekurari, no território trabalham 260 servidores, e 180 profissionais estão nos postos de saúde sem ter como saírem.
Hekurari afirma que o Condisi-Y está dialogando “diretamente com a Secretaria e o Ministério da Saúde para que seja resolvida as questões”.
“Já falei com eles [Secretaria de Ministério da Saúde] e disseram que iriam resolver hoje, até meio-dia. Até agora o Dsei-Y não recebeu nenhum recurso para realizar o pagamento com a empresa, então é um problema muito grave”.
Junior Hekurari prevê um colapso na saúde Yanomami
Caíque Rodrigues/g1 RR
Terra Yanomami
Maior reserva indígena do Brasil, a Terra Yanomami tem quase 10 milhões de hectares entre os estados de Roraima e Amazonas, e parte da Venezuela. Cerca de 30 mil indígenas vivem na região em mais de 360 comunidades.
A área é alvo do garimpo ilegal de ouro desde a década de 1980. Mas, nos últimos anos, essa busca pelo minério se intensificou, causando além de conflitos armados, a degradação da floresta e ameaça a saúde dos indígenas.
A invasão garimpeira causa a contaminação dos rios e degradação da floresta, o que reflete na saúde dos Yanomami, principalmente crianças, que enfrentam a desnutrição por conta do escasseamento dos alimentos.
O número de casos de Covid entre indígenas que habitam a região, aumentou em razão da presença de garimpeiros. No ano passado, em apenas três meses, as infecções avançaram 250%.