Ludmilla reproduz no álbum ‘Numanice ao vivo’ a matriz do pagode paulista que ecoou a partir dos anos 1990


No disco gravado em cartão-postal carioca, artista faz dueto com Thiaguinho e revive sucessos do cantor Belo e do grupo Exaltasamba, entre músicas autorais. ♪ ANÁLISE – Em 1995, quando Ludmilla nasceu no município fluminense de Duque de Caxias (RJ), o pagode feito nos fundos dos férteis quintais cariocas da década de 1980 já tinha sido suplantado nas paradas pela paulistana geração pagodeira dos anos 1990.
Por mais que o bamba Zeca Pagodinho tenha desafiado essa supremacia mercadológica a partir de 1995, com revigorante álbum produzido por Rildo Hora, o tom do samba nas rádios era o do pagode menos percussivo de Raça Negra e Cia. O balanço era outro.
É nesse contexto geracional que deve ser entendido o recém-lançado álbum de pagode de Ludmilla, Numanice ao vivo, disponível desde 29 de janeiro com 25 músicas reunidas nos 14 números de show captado em 25 de novembro em apresentação fechada da artista no Pão de Açúcar.
Embora o disco tenha sido gravado no icônico cartão-postal da cidade do Rio de Janeiro (RJ), com produção musical de Rafael Castilhol, o repertório de Numanice ao vivo reproduz a já originalmente diluída matriz pagodeira paulistana que brotou a partir de 1990, permanecendo firme no mercado fonográfico ao longo dos anos 2000.
Não é por acaso que, entre pagodes simplistas da lavra da própria Ludmilla, como Ela não (faixa lançada em single em 28 de janeiro, véspera da edição do álbum), há medley com sucessos do cantor Belo em que Ludmilla emenda música do repertório do grupo Soweto, Antes de dizer adeus (Altay Veloso, 1997), com Perfume (Júlio Borges e Umberto Tavares, 2006), pagode espalhado por Belo com regravação lançada em 2008.
Capa do álbum ‘Numanice ao vivo’, de Ludmilla
Divulgação / Warner Music
Desdobramento do EP Numanice (2020), gravado por Ludmilla em estúdio e lançado em abril do ano passado, o álbum ao vivo rebobina músicas do disco anterior com convidados que reiteram a opção da artista pelo estilo paulista de fazer samba, com teclados proeminentes nos arranjos.
O pagode Não é por maldade (Ludmilla, 2020), por exemplo, é regravado pela cantora com Bruno Cardoso, vocalista do grupo Sorriso Maroto. Tô de boa (Ludmilla, 2020) ganha o toque do grupo Vou pro Sereno. Já Amor difícil (Ludmilla, 2020) reaparece com a adesão de Thiaguinho.
E por falar em Thiaguinho, há também medley que agrega músicas do repertório do grupo paulista Exaltasamba, como Nem pensar (Andrea Amadeu, Helder Celso e Valtinho, 2007) e Não seria justo (Thiaguinho e Fernando Amaral, 2010).
No fim do álbum, Ludmilla se reúne novamente com Thiaguinho e Vou Pro Sereno para acenar para os quintais cariocas com fluente medley de partido alto que aglutina Vai lá, vai lá (Moisés Santiago, Alexandre Silva e André Rocha, 1994), Que mulher (Nega danada) (Ary Guarda e Chatim, 1987), Cadê ioiô? (César Veneno, 1984) e Alguém me avisou (Dona Ivone Lara, 1980).
Em que pese o aceno, o pagode de Ludmilla está mais para Exaltasamba do que para Fundo de Quintal – até por questão geracional – e mal nenhum há nessa opção. É questão de gosto…