Lorde explica ‘Solar power’: som ‘orgânico’, amor à natureza e até ‘cigarras como cantoras’


Ela fala ao podcast G1 Ouviu sobre novo álbum que troca som eletrônico por arranjos acústicos com odes ‘ao mar e à grama’, influência de Natalie Imbruglia e vida fora das redes sociais. Lorde
Divulgação / Ophelia Mikkelson Jones
Talvez a Lorde de 16 anos, toda de preto, cantando o pop eletrônico minimalista de “Royals”, não entendesse a Lorde de 24, de saia amarela esvoaçante, exaltando a natureza com violões e percussão em “Solar power”. Mas a fase “jovem mística” chegou. Seu terceiro álbum sai nesta sexta (20).
Para avaliar o tamanho da mudança, basta ler algumas frases da cantora em entrevista ao G1 Ouviu – e escutar o podcast logo abaixo:
“Estava pensando em sons mais orgânicos, que refletissem o ambiente natural”;
“A grama e o mar: as duas coisas aparecem muito no álbum”;
“Eu realmente queria colocar [sons de cigarras] no disco. Elas são minhas vocalistas de apoio”.
Lorde leve e solta
A virada orgânica foi movida por um “detox” digital – ela largou as redes sociais e o celular. Livre, foi curtir a praia e se apegou ao folk, à psicodelia dos anos 60 e 90 e ao “pop praiano da virada do século” (nas palavras dela), em especial da australiana Natalie Imbruglia, do hit “Torn”.
Enquanto fãs caçavam notícia dela, Lorde ia para o mato caçar cigarras e gravar o canto dos bichos. Depois, foi atrás de retomar a parceria com o produtor Jack Antonoff. A ideia era fazer seu “disco do ácido”, mas no fim pegou bem leve na psicodelia e fez só o “da maconha”.
O movimento “paz e amor” é ousado para uma das artistas que ajudou a dar a cara soturna da música pop nos últimos anos. A impressão digital de seu pop eletrônico intimista está impregnada em sucessoras novinhas como Billie Eilish, Clairo e Olivia Rodrigo.
Lorde canta no clipe de ‘Solar Power’
Reprodução/YouTube/Lorde
Garota, eu vou pra (longe da) Califórnia
Lorde virou do avesso o som que a fez sair da Nova Zelândia para ser apontada como “o futuro da música” por David Bowie, tocar com os ex-integrantes do Nirvana no lugar do Kurt Cobain e virar melhor amiga da Taylor Swift. Ela fugiu também da vida de celebridade.
Na música nova “California”, ela lembra a noite em que Carole King anunciou o Grammy de Canção do Ano de 2014 para “Royals”. “Era uma vez em Hollywood / Quando Carole anunciou meu nome, eu me levantei / O auditório explodiu e eu sabia que nada seria do mesmo jeito”, ela canta.
“Não quero esse amor da California”, rejeita Lorde, com arranjo soft rock que lembra, ironicamente, Carole King. Em todo o disco ela rejeita o glamour americano e exalta a diversão anônima na Nova Zelândia. Ela quer sossego. Em “The path”, ela diz: “Não vou atender se for a gravadora ou a rádio”.
A ousada capa de ‘Solar power’, terceiro disco da Lorde
Divulgação
Lorde Pães & Bolos
Os fãs pelo mundo sofreram com o sumiço dela desde a turnê do segundo álbum, “Melodrama” (2017). Os brasileiros, que não desistem nunca, acharam um jeito de acompanhar sua vida: as fotos que a mãe, a escritora croata Sonja Yellich, postava dos bolos que a filha fazia em casa.
“Lorde fez mais um bolo! Dessa de mousse de chocolate”, escreveu o perfil Lorde Update BR, no dia 30 de março. Na falta de outro “update”, a alegria com as migalhas da intimidade da cantora virou meme. Os fãs brincavam que ela ia lançar a empresa Lorde Pães & Bolos.
Havia uma camada de reclamação, claro: enquanto outras lançavam músicas, Lorde lançava bolos. Além do sumiço das redes, o disco custava a sair do forno…
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Por isso, a entrevista com o G1 começou com uma dúvida: ela sabe que seus bolos viraram memes no Brasil? Lorde ficou confusa: ela não só não conhecia a brincadeira como parecia não fazer ideia de que Sonja postava os bolos.
Na faixa-título e primeiro clipe de “Solar power”, ela canta: “Eu jogo meu aparelho celular no mar. Você pode entrar em contato? Não pode”. O papo do bolo comprova que, assim como no clipe, ela matou o telefone e foi à praia na vida real. Ela não vê nem o Twitter da mãe – o “detox” foi para valer.
Pequenos teclados, grandes melodias
E como ela colocou em prática essa ideia da nova era “orgânica”? As músicas nasceram de versos escritos ou de melodias?
“Às vezes são só palavras, às vezes elas vêm com a melodia. E eu imediatamente começo a explorá-la. Eu tenho um tecladinho e fico muito tempo sentada na cama tocando, então sai alguma coisa. Então é meio a meio”, ela descreve.
Foi nesse tecladinho, um Yamaha DX, que ela criou a faixa-titulo e também a abertura do álbum, “The Path”, aquela com o aviso para as gravadoras e rádios não ligarem. Os versos climáticos também ironizam os “jovens milionários que têm pesadelo com flashes das câmeras”.
No verso seguinte ela confessa que, no luxuoso baile do Met Gala, escondeu “um garfo na bolsa para levar para a minha mãe” (comer seus bolos, talvez?). Após o deboche, vem um grande refrão soul-pop sobre “o sol nos mostrar o caminho” – na direção oposta da vida artificial do Met Gala e da fama.
‘Não era uma cantora acrobática’
A batida que era a cara da Lorde sumiu. Mas o jeito de cantar é o mesmo, costurando melodias e trechos quase falados. Em trechos como os do garfo roubado e da explosão soul de “The path”, parece que ela conta um caso no seu ouvido enquanto prepara um grande refrão pop.
A cantora diz que esses trechos falados surgiram de uma limitação – ou, ao menos, da impossibilidade de fazer piruetas vocais ao estilo de cantora de reality show.
“Eu chamo isso de ‘falar cantando’, e eu acho que eu comecei a fazer isso porque eu não era uma cantora muito acrobática”, ela define.
“Então eu fazia esses pequenos trechos tipo ‘tadadadda’, pequenas coisinhas faladas que eu acho que soavam legais. Mas sim, é definitivamente uma marca registrada minha”, analisa.
Lorde
Divulgação / Ophelia Mikkelson Jones
Dourado, verde, azul e marrom
Além de música e letra, há as cores. Lorde sofre de sinestesia, um distúrbio neurológico que faz as pessoas confundirem as sensações. Ela associa sons a cores. A cantora vê seu primeiro disco, “Pure heroin” (2013), como verde. “Melodrama” é violeta. Já “Solar power” é “dourado”.
Mas há nuances. “O dourado é o principal, mas tem muito verde e azul. Como eu canto em ‘Solar power’: “Acid green, aquamarine (verde ácido, aquamarino)” , ela exemplifica. “São a grama e o mar: as duas coisas aparecem muito no álbum”, pinta Lorde.
Outro elemento verde no universo de “Solar power” é a maconha. Ela detalhou essa parte em entrevista ao jornal “The New York Times”. Lorde disse que pensou em fazer seu “grande álbum do ácido”, mas teve uma experiência ruim com a droga, mas fez um disco da “maconha”.
De volta ao azul: “Tem uma música chamada ‘Oceanic Feeling’ que é sobre estar na água, onde cresci. É muito azul para mim, obviamente.” É a última faixa do disco, com quase sete minutos e todos os elementos do álbum: folk, percussão, pop anos 2000, reflexões familiares, sons do mar e de cigarras.
Produtor onipresente
Lorde levou essas ideias para o amigo Jack Antonoff. O americano tem uma produtividade impressionante no pop feminino atual, e produziu álbuns recentes de Lana Del Rey, Taylor Swift, SIA, Clairo, Carly Rae Jepsen, Saint Vincent, além do anterior da Lorde, “Melodrama”.
“Antes da pandemia eu já estava pensando em sons mais orgânicos que refletissem o ambiente natural sobre o qual eu estava escrevendo”, diz Lorde.
“Eu queria ouvir baterias de verdade, belas guitarras e esse tipo de coisa. E o Jack, por acaso, estava interessado nisso também na época. Ele ficou bom em gravar coisas que soavam realmente vivas, quentes e orgânicas. Foi um timing ótimo para gravar esse disco.”
“Conheço o Jack desde que tenho 18 anos. Então é tipo uma segunda natureza para nós”, ela diz sobre o produtor.
Sirenes feat. cigarras
Os dois gravaram em Nova York, com a pandemia melhorando, mas ainda à solta. O estúdio ficava todo aberto, para ventilar – protocolo nota 10. Mas e as janelas expostas à barulheira de Nova York (que ainda vivia os protestos do Black Lives Matter), justo neste álbum cheio de microfones sensíveis?
“Na verdade, tem uma música em que dá para ouvir sirenes e coisas do lado de fora, por causa das janelas. A gente falou: dane-se, vamos deixar no disco.”
A faixa com a sirene (realmente alta) é “Dominoes”, um pop-reaggae que parece alegre, mas com letra venenosa sobre uma figura falsa do mundinho dos famosos (“É estranho ver você fumando maconha / Você era o cara que mais cheirava cocaína que eu conheço”). Combina com ambulância mesmo.
Mas a sirene de Nova York não é o som ambiente principal de “Solar power” – o posto é das cigarras da Nova Zelândia. Nesse tempo sem redes sociais e em comunhão com a natureza, ela saía gravando barulhos dos insetos, incluídos no fundo de várias faixas. Foi tudo planejado.
“Eu queria captar de verdade o lugar de onde eu venho, para o disco soar como um verão da Nova Zelândia. E um grande som disso para mim é o de cigarras. É nossa música do verão. A gente colocou em vários lugares. Elas são minhas vocalistas de apoio.”
O disco tem backing vocals humanas também – coros em algumas faixas de um grupo de amigas que inclui Clairo e Phoebe Bridgers. Além disso, a sueca Robyn declama um texto no final de “Secrets from a girl”, interpretando uma “aeromoça surreal”, como define Lorde.
Lorde
Divulgação / Ophelia Mikkelson Jones
De Primal Scream a Natalie Imbruglia
Quando a música “Solar power” foi lançada, em 11 de junho, a mudança radical de estilo foi o primeiro comentário mais comum. O segundo foi a semelhança com “Loaded”, faixa de 1990 do clássico álbum “Screamadelica”, do grupo escocês neo-psicodélico Primal Scream.
Também houve comparações com a percussão de “Simpathy For The Devil”, dos Rolling Stones, e o arranjo de “Freedom 90”, de George Michael. Mas ela se preocupou mesmo com o Primal Scream.
Antes de lançar, ela ligou para Bobby Gillespie, líder do grupo, e explicou que nunca tinha ouvido “Loaded” antes, mas admitiu que ficou parecido mesmo. Bobby foi legal, segundo ela, e a tranquilizou dizendo que os dois buscavam a mesma “vibe”.
Mas uma influência direta e assumida, essa ouvida por Lorde desde criança, é a cantora australiana Natalie Imbruglia. Ela diz que o disco é influenciado pelo tal “pop praiano da virada do século”, de gente como Nelly Furtado, All Saints e Natalie Imbruglia.
“Cresci ouvindo ‘Torn’ [hit gravado por Imbruglia, de 1997], tem um som tão legal. Lembrei que ela tem uma forma ótima se colocar violão numa música pop sem perder o movimento. As melodias são tão boas, tem tantas partes diferentes. Ela nunca deixa a bola cair, só segue por quatro minutos”, elogia.
Um trunfo para refazer esse clima do pop do início dos anos 2000 é a bateria do veterano Matt Chamberlain, que já ajudou de Robbie Willims a Fiona Apple. Seu estilo é marcante em “Mood ring”, música de trabalho mais recente do álbum.
O clipe de “Mood ring” mostra Lorde loira e ainda mais “jovem mística”, ao redor de incensos e cristais – ela diz que a música é uma sátira da geração do “pseudo-bem-estar” e da “pseudo-espiritualidade”.
‘Canções de amor sobre a natureza’
Lorde no clipe de ‘Mood ring’
Divulgaçaõ
Apesar do clima otimista, Lorde diz que começou a pensar no conceito do álbum sobre a natureza quando visitou a Antártida em 2019 e presenciou o desastre das geleiras derretendo.
Fora a música “Fallen fruit”, que lamenta a herança dos jovens de uma terra arrasada, o clima é mais de exaltação do que de alerta. Não é difícil ser otimista sobre a natureza em 2021? “Acho difícil ser otimista, sim”, ela admite. “É terrível o que estamos vendo todo dia acontecer com o meio ambiente.”
“No fim das contas, há um poder em contar histórias de amor sobre a natureza. Porque é mais fácil, para mim, me conectar a uma história com otimismo do que com uma que é só trevas.”
“Então mesmo escrevendo um disco sobre o mundo natural que é uma celebração, ele também contempla uma perda”, ela conclui.
‘Solar power’: manual de instruções
Ao fim da reflexão teórica, Lorde dá a instrução prática: qual é a situação ideal para ouvir “Solar power”?
“Ok, quero que as pessoas façam isso: quero que elas vão para a praia, passem um dia ótimo lá, e quando o sol começar a baixar, coloquem o disco e dirijam para casa, tocando no carro. Isso seria perfeito.”
A cantora, que não parece magoada com o meme do bolo, diz que ama os fãs brasileiros e mal pode esperar para vir para cá. A turnê de “Solar power” já tem datas para fevereiro na Nova Zelândia, depois segue até junho na Austrália, América do Norte e Europa – nada de Brasil até agora.