Liniker abre alas com álbum solo valorizado por arranjos sinfônicos


Artista transita por samba-enredo e samba-rock no repertório autoral de ‘Índigo borboleta anil’, disco que traz a voz de Milton Nascimento. Uma das capas do álbum ‘Índigo borboleta anil’, de Liniker
Caroline Lima
Resenha de álbum
Título: Índigo borboleta anil
Artista: Liniker
Edição: Edição independente com distribuição da Altafonte
Cotação: * * *
♪ Basta ouvir Vitoriosa – samba-enredo que passa majestosamente como a nona faixa do primeiro álbum solo de Liniker, em condução feita pela Orquestra Jazz Sinfônica, com arranjo regido por Ruriá Duprat – para perceber que a artista abre alas no disco lançado às 19h de quinta-feira, 9 de setembro.
Com uma capa diferente para cada plataforma digital, o álbum Índigo borboleta anil marca o primeiro real voo solo de Liniker de Barros Ferreira Campos, cantora, compositora e atriz paulista de 26 anos, nascida em 3 de julho de 1995 em Araraquara (SP) e revelada em 2015, aos 20 anos, como front woman do grupo Caramellows.
Já dissociada do grupo, do qual se desligou em fevereiro de 2020, Liniker acerta ao embalar com arranjos sinfônicos boa parte da safra autoral de Índigo borboleta anil – cancioneiro que, a rigor, soa irregular ao longo do álbum, com letras que por vezes falam mais forte do que as músicas em si, caso de Psiu (2020), previamente apresentada em outubro do ano passado como primeiro single do álbum.
A Orquestra Jazz Sinfônica figura em nada menos do que cinco das 11 faixas do disco, gravado com produção musical orquestrada por Liniker com Gustavo Ruiz e com Júlio Fejuca. Basta ouvir Lua de fé para atestar a exuberante contribuição da Orquestra Jazz Sinfônica para o álbum solo de Liniker.
Já a Orkestra Rumpilezz, regida pelo maestro Letieres Leite, faz Antes de tudo – canção antiga, melodicamente pouco atraente e composta por Liniker na adolescência – cair em suingue notável com os sopros e percussões da big-band afro-brasileira de Salvador (BA).
Poeticamente, Antes de tudo registra momento em que Liniker decidiu voar na vida. A propósito, Índigo borboleta anil é álbum de afirmação que soa essencialmente autoral, e não somente pelo fato de Liniker assinar todas as 11 músicas, sendo nove sem parceiros.
Liniker canta com Milton Nascimento na música ‘Lalange’
Caroline de Lima / Divulgação
A artista imprimiu sentimentos bem pessoais na maioria das músicas. Algumas soam confessionais, como a canção Mel, nascida no término do processo de criação e gravação do disco, tendo sido inserida ao fim de Índigo borboleta anil como faixa-bônus, captada informalmente no formato de voz e violão, em take que embute diálogos da cantora com os músicos no estúdio.
Em tom mais expansivo, Diz quando custa – parceria de Liniker com Mahmundi, Tássia Reis, Tulipa Ruiz e Victor Hugo – cai bem no suingue do samba-rock, com direito a um sampler pilotado pelo DJ Niack. Tássia Reis canta com Liniker esse samba-rock, cujo coro inclui a voz de Tulipa Ruiz.
Mahmundi, Tássia Reis e Tulipa Ruiz também figuram em Baby 95 como parceiras de Liniker nessa música lançada em junho como segundo single do álbum.
Faixa mais longa do disco, com cinco minutos e 18 segundos, Baby 95 começa no tom do R&B e desagua na cadência do pagode, revivendo a ligação entre os dois gêneros, resultante da variante do samba surgido em São Paulo nos anos 1990.
E por falar no samba, a música Presente também evolui na cadência do gênero, na marcação da percussão de Maurício Badé e com o toque da bateria e do synth de Curumin.
Versão alternativa da capa do álbum ‘Índigo borboleta anil’, de Liniker
Caroline Lima
Álbum de excelente acabamento instrumental, Índigo borboleta anil abre o leque rítmico de Liniker sem afastar a artista do soul e do R&B, gêneros dominantes na discografia da cantora com o grupo Caramellows.
Nesse universo matricial, Liniker manifesta amor e orgulho negro em Lili, perfilando com alma e soul a personagem-título dessa canção escrita em inglês como versos como “Her black skin is gold”. Lili é ponto alto de repertório que também se eleva em Lalange, música iniciada com narrativa falada.
A letra de Lalange versa sobre sonhos e voos perdidos na infância. Milton Nascimento canta Lalange com Liniker e, mesmo com a voz desgastada, paira soberano como entidade da MPB, contribuindo para a elevação da faixa em disco aberto com declaração de amor a um cão, Clau. A música em si é fraca, mas o tema de Clau vai enternecer os que devotam afeto aos animais de estimação.
Entre altos e baixos, Liniker abre alas em Índigo borboleta anil, álbum que sinaliza que voos maiores ainda virão.