‘Libelu – Abaixo a ditadura’ lembra grupo que desafiou regras à esquerda e à direita nos anos 70


Movimento surgido na USP que combateu o regime militar e rompeu com modelos culturais da época é tema de documentário exibido nesta quarta-feira (30) no festival É Tudo Verdade. Cartaz do filme ‘Libelu – Abaixo a ditadura’
Divulgação
Uma balbúrdia bem organizada. Esse pode ser resumo de “Libelu – Abaixo a ditadura”, documentário sobre um grupo de estudantes que enfrentou o regime militar e desafiou modelos de comportamento na oposição na década de 1970, de forma arrojada na política e na cultura.
O filme estreia nesta quarta-feira (30), no festival de documentários É Tudo Verdade, que acontece online neste ano. A exibição é às 21h, com acesso gratuito na plataforma Looke.
O grupo Liberdade e Luta surgiu em 1976, na Universidade de São Paulo (USP), e ganhou o apelido “Libelu” de outros estudantes de esquerda que os viam como inconsequentes. Os grupos mais sisudos estranhavam os cartazes irreverentes, as festas com rock e os discursos atrevidos.
O documentário é construído com entrevistas dos membros hoje em dia no Prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. O diretor estreante Diógenes Muniz investiga as histórias da época e a perspectiva atual dos ex-estudantes que seguiram caminhos diversos.
Prédio da faculdade de arquitetura da USP nos anos 1970. No mesmo local foram gravadas as entrevistas do filme Libelu – Abaixo a ditadura
Divulgação / Libelu – Abaixo a Ditadura
Entre os ex-Libelu que contam suas histórias no filme estão o economista Eduardo Giannetti, o cientista político Demétrio Magnoli, a jornalista Laura Capiglione, o crítico gastronômico Josimar Melo e o jornalista e músico Cadão Volpato.
O jornalista Reinaldo Azevedo, que fez parte do grupo, mas não participou tão ativamente quanto os outros, também aparece. O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que liderou atividades do Libelu em Ribeirão Preto (SP), é o único que fala de casa, em prisão domiciliar.
Balbúrdia com base
As histórias contadas no filme revelam como o grupo que dava as melhores festas e era acusado se ser imprudente tinha, na verdade, disciplina e reflexão avançada.
Josimar Melo conta de como propôs levar o grito “abaixo a ditadura” de volta aos protestos após o período mais duro de repressão após o Ato Institucional nº 5. Os outros grupos de estudantes julgavam que ainda não era a hora. Mas o grito teve apoio na rua.
Cadão Volpato descreve experimentos nas táticas de manifestações. Algumas vezes os opositores se uniam aos gritos de “abaixo a ditadura” por pouco tempo e depois se dispersavam, em vários pequenos protestos que não davam chance de a polícia agir.
Eram atos de coragem, mas também partiam de uma leitura do contexto de que, mesmo com o medo e o trauma da luta armada, o regime não tinha tanta força para realizar o mesmo tipo de repressão de uma década atrás.
O filme mostra como a maior parte dos membros foi saindo da militância aos poucos, e trilhando carreiras em outras áreas, até no campo ideológico oposto. Mesmo por pouco tempo, assim como os protestos-relâmpago descritos por Cadão Volpato, o Libelu foi uma ousadia bem-sucedida.
O documentário é uma produção e distribuição da Boulevard Filmes em coprodução com Canal Brasil, Globo Filmes e Globo News.
Cena de ‘Libelu – Abaixo a ditadura’
Divlugação – Libelu – Abaixo a Ditadura