Letícia Novaes depura a estética de ‘Climão’ no álbum ‘Letrux aos prantos’


Abismo entre músicas e letras diminui no segundo álbum solo da artista carioca. Capa do álbum ‘Aos prantos’, de Letrux
Ana Alexandrino com arte de Pedro Colombo
Resenha de álbum
Título: Letrux aos prantos
Artista: Letrux (Letícia Novaes)
Gravadora: Edição independente da artista
Cotação: * * * 1/2
♪ Com a edição do primeiro álbum solo, Letrux em noite de climão, a cantora e compositora carioca Letícia Novaes contrariou previsões equivocadas – como a deste colunista e crítico musical – e rompeu a bolha amiga em que gravitou o já extinto duo Letuce (formado pela artista com o guitarrista Lucas Vasconcellos) ao assumir a irreverente persona de Letrux.
Ao se jogar na pista com doses fartas de sexo e paranoias, escorada no som electro-pop sintetizado pelos produtores musicais Arthur Braganti e Natália Carrera, Letícia ferveu e arrastou pequenas multidões em turnê que contabilizou dois anos e meio de shows sempre lotados.
Após o (necessário) registro audiovisual do show, Letrux em noite de climão ao vivo (2019), a artista apresenta o segundo álbum solo, Letrux aos prantos, com a missão de se manter na pista com o mesmo sucesso alimentado em redes sociais.
Lançado em CD e em edição digital, disponível desde sexta-feira, 13 de março, o álbum Letrux aos prantos depura a estética de Em noite de climão com produção mais encorpada e rica, inclusive no sentido monetário.
Os arquitetos do electro-pop do álbum anterior, Arthur Braganti e Natália Carrera, são os mesmos que deram forma às 13 inéditas músicas autorais alinhadas pela artista em Letrux aos prantos com os toques dos músicos Lourenço Vasconcellos (bateria), Martha V (teclados) e Thiago Rebello (baixo), além de Arthur (teclados) e Natália (guitarras).
Se Letrux em noite de climão foi o som da festa organizada para enfrentar ressaca amorosa, Letrux aos prantos é o disco da ressaca da festa, tendo caráter mais introspectivo e emotivo, e bem menos irreverente, sem perder o clima de pista evidenciado em faixas como Vai brotar (Letícia Novaes e Arthur Braganti), Contando até que – afogueada parceria de Letícia com Duda Brack e Keli Freitas que ecoa o sexo à flor de pele de Climão – e Fora da foda (Letícia Novaes, Arthur Braganti, Lourenço Vasconcellos e Thiago Rebello), música sobre sede sexual gravada com Luísa Lovefoxxx, vocalista do grupo Cansei de Ser Sexy.
Palco da orgia festiva anterior, a cama vira o cenário de lágrimas. “Me resta deitar e sofrer”, resigna-se a artista no verso que arremata o blues Sente o drama, composto por Letícia com Thiago Vivas e gravado em dueto com Liniker.
Letícia Novaes apresenta 13 inéditas músicas autorais em conceitual álbum solo sobre lágrimas e suores
Ana Alexandrino / Divulgação
Por mais que supere o antecessor pela produção mais farta, o álbum Letrux aos prantos reverbera a impressão – já recorrente em Climão – de que a narrativa da artista por vezes soa bem mais interessante do que a música em si, com letras mais atraentes do que as melodias. Só que esse abismo entre letra e música diminui consideravelmente no álbum atual justamente pela produção musical que valoriza a safra 2020 da compositora (a rigor, criada desde 2018 e gravada em 2019).
Em que pese o início sombrio com Déjà-vu frenesi, música composta por Letícia na Grécia, dentro d’água, Letrux aos prantos destila delírios românticos como o da nebulosa balada Dorme com essa (Letícia Novaes e Arthur Braganti), mas por vezes desanuvia e faz saltar até veia pop em Salve Poseidon (Letícia Novaes e Arthur Braganti) – aliciante música bilíngue de versos em inglês com ecos de disco music – e em Abalos sísmicos (Letícia Novaes, Martha V e Natália Carrera).
Nem todo choro é de tristeza, como vem enfatizando a autora da narrativa ao apresentar o disco na mídia e nas redes. Mas Cuidado, paixão (Letícia Novaes) também sobressai no álbum ao bater na tecla da sofrência em clima de balada que evolui para samba.
Já El dia que no me quieras (Letícia Novaes e Arthur Braganti) – referência óbvia ao tango tornado bolero El dia que me quieras (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, 1934) – é canção em espanhol que sobra no disco pelo tom enfadonho.
Letícia Novaes em pintura de Maria Flexa exposta na capa do álbum ‘Letrux aos prantos’
Pintura de Maria Flexa
Embora seja música fundamental para a criação do conceito do disco, a canção Eu estou aos prantos – composta pela artista no avião, em momento de aflição pelo medo de voar, e gravada em clima synth pop – também contribui para que, no todo, o álbum às vezes soe cansativo, excessivo. Sensação diluída por Esse filme que passou foi bom, parceria de Letícia com Lucas Vasconcellos, ex-companheiro de Letuce e de vida.
No arremate, a faixa-vinheta Cry something awkward (Letícia Novaes) esboça tom clássico de canção norte-americana para sublinhar loucuras de disco que faz inventário de lágrimas, suores e gozos, se alinhando energeticamente com fase doida.
Que ano é esse? O que é que vem depois? Ninguém sabe. Mas há futuro para Letrux. Mergulhada no caos existencial, respeitando as próprias lágrimas, Letícia Novaes se garante por mais um tempo na pista com o álbum Letrux aos prantos.