Leila Pinheiro reencontra um norte na revoada de sentimentos de álbum solo de voz-e-piano


Cantora paraense acerta ao interpretar, em tom acolhedor, músicas raras de Adriana Calcanhotto, Chico Buarque, Fátima Guedes, Moacyr Luz, Sueli Costa e Zélia Duncan. Capa do álbum ‘Melhor que seja rara’, de Leila Pinheiro
Zé Pedro / Acervo pessoal Leila Pinheiro
Resenha de álbum
Título: Melhor que seja rara
Artista: Leila Pinheiro
Gravadoras: Joia Moderna e Tacacá Music
Cotação: * * * * 1/2
♪ “Guardei meu canto / Num canto de você / Soltei as asas / Voei só pra te ter / Na revoada de sentimentos, vento forte / Já sei meu norte”.
Os versos cantados por Leila Pinheiro na primeira das 12 músicas do primeiro álbum solo de voz-e-piano dos 40 anos de carreira da cantora paraense são a senha para o entendimento do disco que chega ao mercado fonográfico na sexta-feira, 16 de outubro de 2020, dia do 60º aniversário da artista.
Tais versos fazem parte da letra da música que batiza o álbum, Melhor que seja rara (2016), pérola preciosa de Guilherme Rondon com Zélia Duncan até então registrada somente em disco de Rondon.
Leila já vinha dando voz a essa canção em shows de voz-e-piano. No álbum idealizado pelo DJ Zé Pedro, a canção Melhor que seja rara se acomoda com perfeição na atmosfera acolhedora de disco íntimo e pessoal que faz jus a essa expressão já tão clichê, mas precisa.
Com Melhor que seja rara, álbum idealizado em 2016 e concretizado após quatro anos com (algumas) mudanças no repertório mas com a mesma forma e conceito essenciais, Leila Pinheiro reencontra um norte para a discografia solo.
Entre outros gregários projetos fonográficos, a cantora lançou em março disco gravado com Antonio Adolfo – Vamos partir pro mundo, sofisticado songbook da parceria de Adolfo com Tibério Gaspar (1943 – 2017) – e, oito anos antes, se afinou com a guitarra de Nelson Faria em Céu e mar (2012), álbum feito para gravadora inglesa e editado no Brasil em 2013.
Contudo, a discografia solo de Leila veio ficando pálida a partir dos anos 2010. Disco calcado nas origens paraenses da artista, Raiz (2011), e o EP Por onde eu for (2015) sinalizaram que alguma coisa estava fora da ordem (sobretudo no que diz respeito aos arranjos) na obra fonográfica solo da cantora.
Álbum de clima denso, Melhor que seja rara corrige equívocos ao valorizar com maior nitidez a precisão técnica do canto de Leila. Só que, em vez da frieza, há a emoção provocada pela revoada de sentimentos expressados nas 12 composições. Emoção depurada, é fato, sem os arroubos de intérpretes mais teatrais e acaloradas, mas, ainda assim, emoção.
Apresentada há 14 anos na voz de Elba Ramalho, a balada Amplidão (Chico César, 2006) se acomoda bem na ambiência de disco que traz Leila de volta para o aconchego do lar. Dentro dessa atmosfera caseira, caem bem as lembranças de Porque era ela, porque era eu (Chico Buarque, 2005).
Resistindo à tentação de fisgar hits alheios para atrair público preguiçoso, Leila pesca pérolas raras em repertório reunido com a ajuda fundamental do DJ Zé Pedro, mentor desse disco feito para ser ouvido ao pé–do-ouvido como um segredo bem guardado.
Samba-canção lançado em 1957 na voz da cantora paulistana Isaura Garcia (1923 – 1993), Deixa pra lá é o grande achado desse repertório por ter música e letra de Vinicius de Moraes (1913 – 1980) – bela música esquecida até por Miúcha (1937 – 2018) quando a cantora pretendeu reunir todo o cancioneiro solo do poeta no álbum Miúcha canta Vinicius & Vinicius – Música e letra (2003).
E por falar em poeta, Antonio Cicero é o autor dos versos niilistas de Nada, breve poema musicado por Adriana Calcanhotto e apresentado por Leila nesse álbum Melhor que seja rara.
Pianista segura sem ser virtuose, conhecedora dos caminhos harmônicos desbravados pelos grandes compositores da MPB, Leila consegue expressar sentimentos de variados matizes sem perda do rigor estilístico do canto e do toque do instrumento.
Composição (inédita em disco) que transita entre formas do samba-canção e da valsa, Súbita primavera capta o florescimento de alma diante da chegada de paixão sincera. A inspirada melodia é de Moacyr Luz e a letra ostenta a sensibilidade lírica de Fátima Guedes.
Em outra estação, é inverno no coração do eu-lírico da nublada canção Dia tão cinzento (Nuno Ramos, 2009), pote-até-aqui-de-mágoa. Samba-canção apresentado na voz de Caetano Veloso em single editado em agosto, mas já há algum tempo nos guardados de Leila, Talvez (Cezar Mendes e Tom Veloso, 2020) se situa em uma terceira estação, mais serena, ao alinhar ponderações e dúvidas sobre dores de amor no canto aveludado da intérprete.
Já a inédita Saudade expõe tensões na melodia – da própria Leila, compositora eventual – que se afinam com o sentimentos dos versos da centenária escritora Clarice Lispector (1920 – 1977), autora do poema musicado pela artista.
Última música a entrar no disco, Como um ladrão (Carlinhos Vergueiro, 1975) toma de assalto a atenção do ouvinte porque flagra Leila Pinheiro correndo riscos e desprezando o tédio para se entregar às sensações totais da música. Esse é o legado do álbum Melhor que seja rara para a discografia solo da artista.
Quando roda Disco (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2017), samba-canção apresentado há três anos na voz de Dori Caymmi, ouve-se uma cantora no exercício prazeroso do oficio.
No arremate do álbum Melhor que seja rara, o canto de Leila em Outra vez, nunca mais (Sueli Costa e Abel Silva, 2003) faz passar um filme pelos versos metalinguísticos da melancólica canção.
Sentada ao piano, no aconchego da casa, como vista na foto da capa do disco clicada há anos pelo DJ Zé Pedro, Leila Pinheiro reencontra um norte e, num voo solo de voz e suor, dá guinada ao priorizar um canto que parece guardado num canto da alma da gente.