Legado de Astor Piazzolla, que faria hoje 100 anos, inclui gravações com Ney Matogrosso na Itália em 1974


Astor Piazzolla (de camisa branca) fala com Ney Matogrosso em estúdio de Milão
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♪ MEMÓRIA – O mundo da música celebra hoje o centenário de nascimento de Astor Piazzolla (11 de março de 1921 – 4 de julho de 1992). O que nem todo mundo sabe, sobretudo fora do Brasil, é que o legado do compositor e bandoneonista argentino inclui duas gravações feitas com Ney Matogrosso, na Itália, em 1974.
Lançadas originalmente pela gravadora Continental em single duplo, posteriormente incorporado ao primeiro álbum solo do cantor, Água do céu-pássaro (1975), as gravações das músicas As ilhas e 1964 (II) foram frutos da vontade de Piazzolla de trabalhar com o artista que conhecera como vocalista do trio Secos & Molhados.
Em novembro de 1974, quando foi assistir a um show de Piazzolla na cidade do Rio de Janeiro (RJ), Ney tinha deixado o grupo recentemente, no auge do sucesso, e ainda nem arquitetava um disco solo, mas, ao se apresentar a Piazzolla no camarim do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, disse ao artista que pretendia gravar música do compositor argentino que, àquela altura, já havia revolucionado o tango, ganhando a adoração e – também a ira – do público portenho.
Como já admirava o cantor, Piazzolla propôs a Ney que fosse à Itália encontrá-lo no Mondial Sound, estúdio situado na cidade de Milão. Foi assim que, nos dias 22 e 23 de novembro daquele mês de novembro de 1974, Ney pôs voz nas duas músicas compostas e arranjadas por Piazzolla, com direito ao toque do bandoneón do músico.
As ilhas ganhou letra em português de Geraldo Carneiro, compositor e poeta mineiro então em início da carreira e já residente no Rio de Janeiro. As ilhas era tema originalmente instrumental e tinha sido composto recentemente por Piazzolla para a trilha sonora do então ainda inédito filme Llueve sobre Santiago (1975), produção franco-búlgara de enredo político que, dirigida pelo cineasta chileno Helvio Solto (1930 – 2001), estrearia somente no fim do ano seguinte.
A outra música, 1964 (II), era uma parceria de Piazzolla com o escritor e poeta argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986), autor dos versos escritos em castelhano e cantados por Ney no idioma original.
Além do bandoneón de Piazzola, as duas gravações tem os toques dos músicos Andréa Sacchi (violão), Baioco Giorgio (flauta), Filippo Daccó (guitarra elétrica), Luigi Giudici (órgão, piano e sintetizador), Pino Prestipino (banjo) e Tullio de Piscopo (bateria e percussão).
Reouvidas nesta quinta-feira, 11 de março de 2021, data do centenário de Astor Piazzolla, as dramáticas gravações de As ilhas e 1964 (II) flagram dois artistas irmanados e hoje celebrados pela habilidade de desafiar os padrões musicais vigentes dos respectivos países.