Lana del Rey volta mais suave com folk enxuto e certeiro em ‘Chemtrails over the country club’


No sétimo disco, cantora usa poucos elementos para fazer belas canções melancólicas com influências dos anos 70 ao lado do produtor Jack Antonoff; leia resenha faixa a faixa. Lana Del Rey em foto promocional do disco ‘Chemtrails over the country club’
Divulgação
Quem fez pouco caso de Lana del Rey no começo, lá em 2010, ganha hoje a sétima prova de que a cantora que parecia uma paródia de uma artista “fake” estava falando sério e tem talento de fato. Ela lança nessa sexta-feira (19) o álbum “Chemtrails over the country club”.
Depois do intenso e boca-suja “Norman fucking Rockwell!”, de 2019, álbum do ano no Grammy, Lana volta mais mansa, com um violão na mão e referências dos anos 70 na cabeça. São músicas melancólicas e reflexivas, menos pesadas do que do disco anterior.
Ela faz muito com pouco. Os arranjos são minimalistas, longe do esforço exagerado do início da carreira. Só no gogó e nos dedilhados, ela emociona. Ajuda aí a parceria com o craque Jack Antonoff (Taylor Swift, Lorde, St. Vincent), compositor e produtor bom de texturas e de versos enxutos.
Leia abaixo a resenha faixa a faixa do sétimo disco de Lana del Rey:
“White dress”
A primeira faixa é a mais fascinante. Com piano e sussurros, ela constrói um cenário de nostalgia que é oposto do sentimentalismo etéreo de colegas do pop. As cenas são engraçadas de tão específicas.
“Lá na conferência de negócios musicais dos homens / em Orlando / eu só tinha 19 anos / eu só menciono isso porque foi tão marcante / e eu me senti observada…”, ela canta.
Qualquer fã de idade próxima à dela (35) vai se identificar com a saudade de “ouvir White Stripes / quando eles estavam fervendo / ouvir rock o dia inteiro”. Depois, ela cita Kings of Leon. Aquela coisa: bons tempos, mas ela não se acanha em assumir o bastão hoje.
“Chemtrails Over The Country Club”
A faixa-título dá a cara do disco, ainda com nostalgia e com o violão folk dos anos 60 e 70 que vai aparecer muito mais a seguir.
A letra lembra amigas no clube com a cena que aparece na capa do disco – e rendeu uma polêmica bizarra quando a cantora defendeu a diversidade racial da foto, sem ninguém perguntar.
A faixa tmbém dá o tom sentimental, que não é triste nem eufórico: “Não sou descontrolada nem infeliz, sou apenas selvagem”, ela canta.
Capa do disco ‘Chemtrails over the country club’, divulgada por Lana Del Rey
Reprodução/Instagram
“Tulsa Jesus freak”
Aqui aparece pela primeira vez uma discreta batida eletrônica, bem simples, efeitos vocais e uma coisa que Lana del Rey adora: personagens malucos da América profunda.
“Você devia ficar perto de Jesus / Continua com essa garrafa na mão, meu caro / Encontre o caminho para minha cama de novo / Me cante como um hino bíblico”, ela canta no folk profano.
“Let me love you like a woman”
Essa é o esterótipo da canção Lana del Rey – com arranjo diferente, poderia estar em qualquer disco. Aqui ela ganha um arranjo vocal elaborado, meio hippie.
É ela pedindo para segurar um homem crescido “como um bebê”, amá-lo como uma mulher, sair de Los Angeles, viajar pelos EUA, falar sobre os bons tempos, tomar champagne rosé… Tudo 100% Lana.
“Wild At Heart”
Ela faz uma coisa muito bem nesse disco: uma voz muito aguda e delicada, que ao longo da faixa contrasta com sua tendência mais grave. Tudo de forma sutil, sem forçar a mudança.
Também tem a tentativa de seguir Joni Michell ao criar tipos de cenas bem específicas que descrevem o exterior mas falam de dentro dela: “Então eu fumo cigarros, só para entender a fumaça”.
“Dark But Just A Game”
Um dedilhado sombrio e uma voz que lembra Amy Winehouse, ainda mais numa música com um certo prazer de andar do lado escuro da vida: “Sombrio, mas só um jogo”, como diz o título.
Essa tem muito a cara do Jack Antonoff na segunda parte, com uma bateria mais vigorosa do que o resto do disco.
Lana Del Rey se apresenta no palco Ônix do Lollapalooza Brasil 2018
Fábio Tito/G1
“Not All Who Wander Are Lost”
Aqui tem aquela voz super aguda e bonita de novo. É tão minimalista que até deixa de remeter aos anos 70 e lembra o folk alternativo da década passada. Mas sem perder a cara de Lana.
Tem potencial para virar querida de fãs, com um refrão colante. O título é referência ao poema “The Riddle of Strider”, de J. R. R. Tolkien.
“Yosemite”
Tudo aqui é hippie demais: o título com nome do parque da Califórnia, os versos contemplativos e otimistas, o dedilhado e até uma percussão.
O arranjo lembra uma roda de violões em volta de uma fogueira com amigos cantando – e até faz pensar se isso não seria uma ideia tão ruim assim.
“Breaking up slowly”
Só nessa música a voz de Lana del Rey parece caricatural demais. Ela imita uma cantora country antiga – intenção que fica óbvia no verso “não quero teminar como Tammy Wynette” , citando a artista falecida.
Mas vale a intenção de cruzar estilos na música feita em parceria com a cantora e compositora country Nikki Lane.
“Dance Till We Die”
Outra bela melodia e mais uma letra cheia de nostalgia que ainda prepara o cenário para o fechamento do disco.
“Eu tenho feito covers de Joni e dançado com Joan”, ela abre a música, citando com intimidade as veteranas de sobrenome Michell e Baez. Depois, ainda incorpora um arranjo e vocal roqueiro anos 60 e cita Bob Dylan
“For Free”
Lana termina o disco fazendo o que descreveu na faixa anterior: uma cover de Joni (Mitchell). É “For free”, uma canção amarga de 1970 sobre o mundo falso da fama e do showbusiness.
Para trazer a ideia para o presente e para o cenário inicial do disco de encontro de amigas, ela chama duas cantoras menos conhecidas do indie folk atual: Weyes Blood e Zella Day.
É ousado terminar se colocando em comparação com Michell, gênio das tais canções que evocam muito com pouco. Mas a faixa anterior dá o tom de homenagem e o próprio álbum dá cacife para Lana se incluir entre as melhores aprendizes.