Laila Garin reinterpreta Elis Regina com segurança e emoção que contagia o público presente



Artista dá voz ao repertório da cantora em show feito no Rio de Janeiro com a plateia de máscaras, em mesas distanciadas. Laila Garin em cena no palco do Teatro Prudential, na cidade do Rio de Janeiro (RJ)
Mauro Ferreira / G1
Resenha de show
Título: Laila Garin canta Elis Regina
Artista: Laila Garin
Local: Teatro Prudential (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 10 de outubro de 2020
Cotação: * * * 1/2
♪ Quando Laila Garin cantou “A esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista / Tem que continuar”, versos finais do samba O bêbado e a equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc, 1979), uma emoção – expressada na voz e no corpo da intérprete – se disseminou pelo ar e contaminou o público acomodado nas 53 mesas alocadas em espaço aberto nas dependências do Teatro Prudential, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Foi no primeiro dos dois números do bis da segunda das três apresentações do show Laila Garin canta Elis Regina. Um dos poucos shows feitos no Rio de Janeiro (RJ) com a presença do público. E essa volta a um normal possível – com mesas mais distanciadas e o uso de máscaras pela equipe do teatro e pela maioria dos espectadores – acabou potencializando a emoção do público e da própria artista na noite de sábado, 10 de outubro.
“A vida é muito mais sem graça sem o público”, sentenciou Laila Garin logo na primeira das muitas falas que, embora tenham prejudicado a fluência do show, se tornaram necessárias para aproximar artista e público, fazendo o tal casamento de que falou Fernando Brant (1946 – 2015) na letra de Canções e momentos (1986), parceria com Milton Nascimento.
Seguindo os protocolos, Laila Garin enfatizou várias vezes em cena que artista e público estavam ali “em segurança”, no espaço ar livre aberto para shows com o uso do palco reversível do Teatro Prudential.
Em cena, foi visível a segurança da artista ao abordar novamente o repertório de Elis Regina Carvalho Costa (17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982), cantora de dimensões inalcançáveis.
Laila interpreta o repertório de Elis desde 2013, ano em que protagonizou musical de teatro que “mudou a vida” da cantora e atriz baiana, como a própria Laila reconheceu em cena, diante da presença na plateia de Dênis Carvalho, diretor do espetáculo.
De fato, foi a partir de Elis – A musical (2013) que a parte mais antenada do Brasil passou a ouvir Laila Garin com atenção. E, desde então, Laila nunca mais abandonou o repertório de Elis, embora jamais tenha se limitado a ele.
Laila Garin canta Elis Regina com a pianista Claudia Elizeu e a violoncelista Thaís Ferreira
Mauro Ferreira / G1
Cabe ressaltar que o show apresentado de 9 a 11 de outubro no Teatro Prudential é diferente do show feito em 2016 por Laila com o trio A Roda. Desta vez, Laila divide o palco com duas instrumentistas, a pianista Claudia Elizeu – responsável pela direção musical e pelos arranjos – e a violoncelista Thaís Ferreira.
A própria ambientação cênica é diferente. É da plateia vazia do Teatro Prudential que Laila surgiu em cena, dando voz à Fascinação (Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy, 1905, em versão em português de Armando Louzada, 1943), canção que Elis, a musical, tomou para si ao revivê-la no show e disco Falso brilhante (1975 / 1977).
Do repertório de Falso brilhante, Laila também pescou – no original, em espanhol – Los hermanos (Atahualpa Yupanqui, 1969), canto pela liberdade propagado na voz da cantora argentina Mercedes Sosa (1935 – 2009), e o medley pomposo com Canção do jornaleiro (Heitor dos Prazeres, 1933) e trecho de O guarani (Carlos Gomes, 1870).
Por também ser atriz, Laila sabe interpretar uma canção. No show, ela leu corretamente os designíos de Cartomante (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977) e Aos nossos filhos (Ivan Lins e Vitor Martins, 1978), por exemplo, em números de emoção contagiosa tanto pela interpretação da artista quanto pela impressionante atualidade das letras que em que o poeta Vitor Martins mandou recados cifrados em tempos totalitários que infelizmente fazem sentido nos dias de hoje.
Por ser uma atriz que recebeu a missão de encarnar Elis em musical de teatro, Laila se permitiu reproduzir com fidelidade as intenções da cantora – como evidenciaram as abordagens de Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965) e do samba cheio de soul Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1970), número em que Claudia Elizeu emulou o toque percussivo do piano de Ivan Lins – sem jamais soar como usurpadora.
Por mais que seja impossível alcançar a dimensão do canto de Elis na canção Atrás da porta (Francis Hime e Chico Buarque, 1972) e em Como nossos pais (Belchior, 1976), cujo arranjo se ressentiu da ausência da guitarra que deu a pegada roqueira no registro original de Elis, Laila Garin é baiana de canto apimentado que interpreta com segurança as músicas da antecessora gaúcha – com direito a uma bossa toda própria na leveza romântica de Só tinha de ser com você (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1964).
Entre a sensualidade do bolero Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e o bucolismo onírico de Casa no campo (Tavito e Zé Rodrix, 1972), Laila temperou Canção do sal (Milton Nascimento, 1965) com toque social, caiu bem no suingue de Upa neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1965), subiu aos céus com agudez nas notas mais altas de Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980) e entrou na roda para comungar com a plateia no giro aliciante de Redescobrir (Gonzaguinha, 1980), fazendo a atriz nutrir as interpretações da cantora e o público se contaminar com a emoção que brotou da voz e da cena.
É por isso que, em segurança, o show de todo artista tem que continuar com a esperança equilibrista, como sentenciou Aldir Blanc (1946 – 2020) na voz de imortal de Elis Regina.
Laila Garin canta 20 músicas do repertório irretocável de Elis Regina
Mauro Ferreira / G1
♪ Eis o roteiro seguido por Laila Garin em 10 de outubro de 2020 na apresentação do show Laila Garin canta Elis Regina no Teatro Prudential, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):
1. Fascinação (Fermo Dante Marchetti e Maurice de Féraudy, 1905, em versão em português de Armando Louzada, 1943)
2. Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco e Aldir Blanc, 1974)
3. Los hermanos (Atahualpa Yupanqui, 1969)
4. Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974)
5. Canção do sal (Milton Nascimento, 1965)
6. Upa neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1965)
7. Só tinha de ser com você (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1964)
8. Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1970)
9. Canção do jornaleiro (Heitor dos Prazeres, 1933) /
10. O guarani (Carlos Gomes, 1870)
11. Querelas do Brasil (Maurício Tapajós e Aldir Blanc, 1978)
12. Cartomante (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977)
13. Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965)
14. Atrás da porta (Francis Hime e Chico Buarque, 1972)
15. Aos nossos filhos (Ivan Lins e Vitor Martins, 1978)
16. Casa no campo (Tavito e Zé Rodrix, 1972)
17. Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980)
18. Como nossos pais (Belchior, 1976)
Bis:
19: O bêbado e a equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc, 1979)
20. Redescobrir (Gonzaguinha, 1980)