Joyce Moreno escreve com bossa sobre ‘aquelas coisas todas’ em memorialista livro de crônicas


Capa do livro ‘Aquelas coisas todas – Música, encontros, ideias’, de Joyce Moreno
Reprodução
Resenha de livro
Título: Aquelas coisas todas – Música, encontros, ideias
Autoria: Joyce Moreno
Edição: Numa Editora
Cotação: * * * *
♪ Para escrever bem, é preciso ter apurada noção de ritmo. As palavras e as ideias precisam ser alinhadas com bossa para que o texto flua bem como agradável canção que entra suavemente pelos ouvidos.
A cantora, compositora e violonista Joyce Moreno provou que tem essa bossa (também) na escrita quando, em 1997, lançou o saboroso livro de memórias Fotografei você na minha Rolleiflex.
Posto efetivamente nas livrarias neste mês de dezembro, em edição da Numa Editora, o segundo livro da artista carioca, Aquelas coisas todas – Música, encontros, ideias comprova a bossa da autora para escrever crônicas, gênero de texto que exige precisão, charme, timing e concisão – atributos raros de serem identificados juntos em uma escrita.
O título Aquelas coisas todas alude tanto ao leque variado de temas dos textos – que versam sobre aquilo que também podemos chamar de vida – como ao nome de composição do amigo Toninho Horta, Aquelas coisas todas (Sanguessuga), música apresentada em 1979 em disco de Sergio Mendes (alvo inominado de O homem, um dos textos mais espirituosos do livro de 1997).
Com 352 páginas e algumas fotos, o livro Aquelas coisas todas está estruturado em duas partes. A primeira traz a reedição Remix – assim batizada por Joyce Moreno – do livro de 1997.
A segunda – a mais interessante para os fiéis seguidores da artista que já leram o livro anterior – se chama Tudo é uma canção e apresenta 51 crônicas inéditas, seguidas pela letra da música Tudo (2012) e pelos agradecimentos.
Ao discorrer sobre a vida profissional e pessoal em textos geralmente memorialistas, Joyce expõe visão de vida condizente com a música que faz desde meados dos anos 1960.
Tanto na vida como na música, Joyce Moreno declarou independência (dos esquemas pré-estabelecidos), derrubou barreiras machistas e impôs visão feminina – e não por acaso Feminina é o título do samba que, lançado em 1979 pelo Quarteto em Cy, contribuiu para que portas fossem abertas no mercado fonográfico para a compositora ganhar visibilidade como cantora a partir de 1980, ano do álbum também intitulado Feminina e lançado no rastro de gravações de músicas de Joyce por intérpretes do quilate de Elis Regina (1945 – 1982), Maria Bethânia e Ney Matogrosso.
A explosão da canção Clareana (Joyce Moreno e Maurício Maestro) em festival de 1980 e as consequências do estouro da música na vida da artista também são assuntos de crônicas.
Em muitos textos do livro Aquelas coisas todas, Joyce escreve sobre colegas brasileiros e internacionais com afeto, mas sem açúcar. Peculiaridades do caráter de uns e outros ficam evidentes nas entrelinhas sem que a autora jamais atenue a admiração que sente por companheiros de jornada musical.
Há também assuntos mais ácidos. Logo no quinto dos 51 textos inéditos, a artista fala pela primeira vez – sem dar nome aos algozes – do boicote que sofreu (sem ter consciência na época) na indústria fonográfica do Brasil, a partir de 1982, por ter cobrado da gravadora EMI-Odeon os devidos direitos autorais pelo uso das bases da gravação do já citado samba Feminina em álbum da cantora Sonia Mello, Grandes mulheres, grandes sucessos (1980), produzido por Miguel Plopschi.
Contudo, o tom das crônicas de Aquelas coisas todas jamais se torna lamurioso. Ao contrário. Os textos trazem a voz feliz de uma pessoa vitoriosa que, fiel a si mesma e aos chamados da deusa música, driblou pré-conceitos, reverteu expectativas – ou alguém imaginou que a cantora e compositora empurrada para as margens independentes do mercado fonográfico brasileiro em 1982 daria a volta (ao mundo) por cima, se tornando reverenciada no Japão, cultuada nas pistas das Europa e respeitada em nichos jazzísticos dos Estados Unidos? – e pavimentou caminho coerente com a visão de mundo lapidada na vida.
Escritas sem intenções ou rigores biográficos, as crônicas acabam por traçar perfil de Joyce Moreno. A criação da mãe – que supriu o papel do pai ausente, inclusive ao aplicar doses nem sempre bem calculadas de liberalidade e controle na filha que adolesceu nas areias libertárias das praias de Copacabana e Ipanema – certamente ajudou a moldar a personalidade feminista de Joyce, que relata casos de assédio sexual em tempos em que o assunto estava fora das pautas sociais.
Enfim, Aquelas coisas todas é livro em que Joyce Moreno fala amorosamente de música (merece menção honrosa o texto sobre as diferenças entre arranjo e orquestração), encontros (com gênios como Vinicius de Moraes, de quem perdeu a oportunidade de ser parceira, como sugeriu o poeta compositor) e ideias (como a defesa do amor romântico, feita com propriedade por quem se harmonizou na vida e na música com o baterista Tutty Moreno) – como explicita o subtítulo.
E Joyce Moreno fala de tudo com a tal da bossa que uns têm no ato de escrever com ritmo que captura o leitor como uma boa música.