Jovem aprovado em medicina lembra dos desafios para conseguir ir à escola na zona rural do Norte de Minas


Luiz Fernando Alves Ribeiro conta que ‘fingia que não escutava’ ao ser desencorajado por amigos a seguir sonho de ser cardiologista; mãe Maria Cleonice se formou em 2007 e deixou o trabalho na roça para dar aulas. Luiz foi aprovado em 1º lugar em medicina na Unimontes
Arquivo pessoal
“Damos mais valor quando é suado”. Essa certeza impulsionou cada passo dado pelo estudante de escola pública da zona rural, Luiz Fernando Alves Ribeiro, que conseguiu realizar um grande sonho: ser aprovado em medicina na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).
Ele somou 732,89 pontos e conseguiu o primeiro lugar nas vagas reservadas para candidatos negros, de baixa renda e egressos de escola pública pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).
Luiz conseguiu o primeiro lugar com 732,89 pontos
Divulgação
Luiz é filho de produtores rurais e nasceu em São Francisco, no Norte de Minas. Ele sempre gostou de estudar e enfrentava cerca de 6km de estrada de terra todos os dias para chegar até a escola e conseguir concluir o ensino médio. O trajeto começou a ser feito pé, depois ele ganhou uma bicicleta e, por fim, chegou o transporte escolar na comunidade.
O estudante conta que se inspirou na mãe Maria Cleonice, que conseguiu realizar o sonho de se tornar professora depois do nascimento dele e de uma das irmãs. A bicicleta que Luiz usou para frequentar a escola foi a mesma que a mãe pedalou nos primeiros anos para lecionar em uma comunidade rural.
“Ela comprou essa bicicleta com muita dificuldade para ir dar aula. Depois conseguiu adquirir uma moto e passou a bicicleta pra mim”, relembra.
Após concluir o ensino médio, Luiz passou três anos da sua vida se dedicando aos estudos por, pelo menos, 10h por dia até ser aprovado em medicina.
“Temos que buscar nosso sonho, mesmo se for difícil, porque um dia acontece”, comemora o estudante.
Trajetória escolar
Luiz na escola municipal ao lado da primeira professora das séries iniciais
Arquivo pessoal
Aos 6 anos, Luiz foi matriculado na Escola Municipal José Vieira Raposo, na zona rural de São Francisco. O trajeto de 6 km da casa até a instituição sempre foi feito a pé.
“Eu estudava de manhã e demorava para chegar na escola porque ficava cansado, e ia andando devagarzinho com meus primos”, relembra.
Depois de concluir a quarta série, ele continuou os estudos na Escola Estadual José Francisco Guimarães, que fica em uma outra comunidade rural de São Francisco. Foi nessa época, que o estudante ganhou a bicicleta de presente da mãe.
“O trajeto mesmo de bicicleta continuava cansativo porque a estrada era ruim e bem precária, mas nunca pensei em desistir. Saía de casa por volta das 11h no sol quente e retornava às 19h. A partir da sétima série, chegou ônibus escolar na comunidade”.
Luiz durante apresentação de química na Escola Estadual José Francisco Guimarães
Arquivo pessoal
Considerado pelos ex-professores como um aluno exemplar, o filho de produtores rurais tinha outras obrigações, além de estudar. Antes de pegar a bicicleta e seguir rumo ao sonho, Luiz conta que ajudava o pai na ordenha das vacas.
“Eu gostava de ajudá-lo e só não ia para a roça nos dias de prova ou quando tinha algum trabalho da escola para fazer”.
O futuro como médico passou a ser vislumbrado pelo estudante a partir do ensino médio e ele sempre comentava com os colegas sobre o desejo.
“Pesquisei muito sobre o assunto e já sabia que queria me especializar em cardiologia. Quando alguns amigos ouviam isso, diziam que eu deveria ficar na roça ajudando meus pais, mas eu fingia que não estava escutando e só pensava no que eu queria”, diz.
Luiz estudou cerca de 10h por dia durante três anos
Arquivo pessoal
Depois de terminar o ensino médio, em 2016, o estudante deixou a zona rural e foi morar com uma tia em Montes Claros, na maior cidade do Norte de Minas. Durante três anos, ele fez um cursinho particular com ajuda dos pais e passava cerca de dez horas por dia focado nos estudos.
“A primeira vez que fiz o Enem, a nota foi muito ruim. Mas não pensei em desistir e continuei persistindo. Eu fazia simulados, resolvia questões e treinei bastante para a redação. A minha nota foi boa nesse ano e obtive 940 pontos na redação. Agora, vou efetivar minha matrícula e me dedicar bastante aos estudos”.
Além da gratidão pelo incentivo recebido da mãe, Luiz também é grato por todos os ensinamentos dos professores do cursinho e das duas escolas públicas por onde passou. Ao ser questionado sobre um professor que marcou sua vida, ele não teve dúvidas ao responder:
“A área que mais gosto é biologia e a professora Meire, da Escola Estadual José Francisco Guimarães, me incentivou bastante. Aprendi muito com ela e, com certeza, esse aprendizado foi importante para minha aprovação. Pretendo retornar na escola para agradecer a todos”.
O G1 entrou em contato com a professora Meire de Fátima Gomes Pereira e ela ficou ‘sem palavras’ ao saber que foi lembrada pelo ex-aluno dessa forma tão especial.
“Estou simplesmente radiante, muito feliz e sem palavras mesmo. Esse sempre foi o sonho dele e saber que incentivei, é muito gratificante”, emociona-se.
“Estudo é o que ninguém tira da gente”
Maria Cleonice sempre incentivou o filho nos estudos
Arquivo pessoal
O exemplo e a força de vontade para estudar desde sempre vieram da mãe. A produtora rural realizou o sonho de concluir um curso superior em 2007 e deixou o trabalho na roça para se tornar professora.
Maria Cleonice Alves Queiroz nasceu na zona rural de São Francisco e teve uma infância bem difícil. O pai faleceu cedo, e ela e os oito irmãos trabalhavam na roça com a mãe plantando milho, arroz e feijão.
“Foram essas dificuldades que me fizeram querer e batalhar por um futuro melhor”.
Depois de concluir a quarta série, ela ficou anos sem estudar porque não tinha condições de frequentar uma escola na área urbana, único local onde tinha ensino fundamental. Aos 17 anos, Maria Cleonice conseguiu um trabalho como empregada doméstica em São Francisco e continuou os estudos.
“Eu trabalhava o dia inteiro e a patroa me liberava para estudar a noite. Foi assim que consegui formar no terceiro ano científico. Foi muito difícil, mas não desisti porque o estudo é a coisa mais importante na vida da gente. Sempre falo para os meus filhos que estudo é o que ninguém tira da gente”.
Maria Cleonice conseguiu concluir o curso superior e realizou o sonho de ser professora
Arquivo pessoal
A produtora rural concluiu o ensino médio e retornou para a roça, porém, o sonho de criança permanecia vivo e ela conseguiu ingressar em uma faculdade à distância e se formar no Normal Superior.
“Esse sempre foi meu sonho, desde criança gostava de brincar de dar aula. Quando entrei na faculdade, já tinha meus dois filhos e estava grávida do terceiro. Assim que me formei, prestei concurso público e fui aprovada. Hoje sou professora na rede municipal”, comemora.
Para ajudar nas despesas do filho com cursinho pré-vestibular, Cleonice conta que se dedicou ainda mais aos estudos e conseguiu ser efetivada em um segundo cargo pelo município.
“O salário básico de professor é R$ 1.300 e eu busquei esse cargo para ajudá-lo. Hoje dou aula no período da manhã na zona rural e durante a tarde, na cidade. É difícil, mas tudo vale a pena pelos filhos”.
“Meu filho sempre gostou de estudar e foi persistente. Quando recebi a notícia da aprovação, fiquei paralisada e tem hora que eu penso que estou sonhando. Nunca devemos desistir dos nossos sonhos porque com esforço conseguimos tudo”, disse a mãe.
Incentivo na escola
Estudante concluiu o ensino médio na Escola Estadual José Francisco Guimarães
Arquivo pessoal
A Escola Estadual José Francisco Guimarães, onde o Luiz concluiu o ensino médio, fica na Comunidade do Retiro e recebe alunos de 19 comunidades rurais, com educação básica, integral e educação especial.
A diretora Jeane Ferreira de Souza diz que a instituição procura fazer um trabalho motivacional e, além do Luiz, outros ex-alunos já conseguiram aprovação em faculdades públicas.
“Eu sempre falo com nossos alunos que eles têm o mesmo potencial de um estudante de escola particular. Basta sonhar, querer e lutar. Sonhar é primordial. Muitos trabalham ajudando os pais na roça e eles precisam ter uma expectativa melhor de vida, por isso, buscamos ampliar os horizontes deles para que enxerguem que são capazes”.
A professora de biologia Meire de Fátima, que marcou a trajetória escolar do Luiz, leciona na instituição há 12 anos e conta que sempre busca trabalhar a autoestima dos alunos.
“As vezes alguns se sentem discriminados por ser da zona rural, mas tentamos mostrar que eles podem chegar onde quiserem e, graças a Deus, temos retorno de muitos sonhos concretizados”, comemora a professora.
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