Ivon Curi tem personalidade musical reavivada em disco que tende para o sentimentalismo


Em evidência como cantor nos anos 1950, artista ganha tributo fonográfico que destaca gravações de Ayrton Montarroyos e Filipe Catto. Capa do álbum ‘Um personagem chamado Ivon Curi’
Divulgação
Resenha de álbum
Título: Um personagem chamado Ivon Curi
Artista: Vários
Gravadora: Discobertas (edição em CD) / Kuarup (edição digital)
Cotação: * * *
♪ Intérprete de veia teatral que nunca se enquadrou em um escaninho específico da música brasileira, o mineiro Ivon José Curi (5 de junho de 1928 – 24 de junho de 1995) encarnou tanto o chansonnier abrasileirado de sucessos franceses quanto o cronista malicioso de temas nordestinos e o cantor lacrimoso de músicas sentimentais.
Produzido por Thiago Marques Luiz sob direção musical do pianista Elias Jó, o álbum ao vivo Um personagem chamado Ivon Curi tenta expor as várias facetas deste artista que também atuou no cinema – nas chanchadas – e na TV como ator identificado com o humor popular.
No disco, gravado em show realizado no Teatro Itália (SP) em 29 de agosto de 2019, um heterogêneo elenco de atuação irregular registra, em 14 números, 17 músicas propagadas na voz de Curi, intérprete cujo auge artístico, como cantor, foi vivido ao longo da década de 1950.
Cantores de vozes sobressalentes na geração projetada nos anos 2010, Filipe Catto e Ayrton Montarroyos se destacam no disco.
Cabe a Catto a primazia de abrir o tributo com registro d’O xote das meninas (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1953), sucesso do Rei do Baião que Curi ajudou a popularizar em 1953. Atento ao chamado da sanfona de Thadeu Romano, Catto se apresenta com límpida emissão vocal sem explorar a malícia do xote.
Já Ayrton Montarroyos dá voz excepcionalmente bem colocada a Escuta (1955), samba-canção da lavra do próprio Ivon Curi, compositor de cerca de 60 músicas. Escuta ficou na história na voz de Angela Maria (1929 – 2018), intérprete mais famosa desse samba-canção lançado meses antes por Isaura Garcia (1923 – 1953) e ora polido sobriamente por Ayrton sem drama e sem excessos na melhor gravação do álbum.
Falta à maior parte do elenco do tributo o rigor estilístico de Ayrton para podar excessos e sentimentalismos.
Do cancioneiro autoral de Curi, a valsa João Bobo (1953) ressurge na voz segura de Consuelo de Paula. Já Maria Alcina faz Farinhada (Zé Dantas, 1955) à vontade no arretado tom nordestino desse baião lançado por Curi no rastro do sucesso d’O xote das meninas. Com a costumeira bossa, Claudette Soares dilui qualquer eventual ressentimento entranhado em Falam tanto de mim (Ivon Curi, 1955).
Com lágrima na voz, Alaíde Costa se ajusta ao tom tristonho de Vontade de chorar (Ivon Curi, 1959), música lançada pela própria cantora há 61 anos e revivida somente com o toque do piano de Elias Jó. Cantor identificado com os melodramas da era do rádio, Márcio Gomes também soa adequado ao tom antiquado de Obrigado (Ivon Curi, 1951).
Com a bagagem de ter cantado em Paris, Eliana Pittman encara La vie en rose (Louis Gugliemi e Edith Piaf, 1945), com o toque do acordeom de Thadeu Romano e com arroubos, para evocar a personalidade de Curi como chansonnier, também reavivada no encontro de Luciene Franco com Caçulinha (no virtuoso acordeom) para registrar a beleza de Sob o céu de Paris (Hubert Giraud e Jean Drejac em versão em português de Osvaldo Quirino, 1954).
Edy Star balança na dança sensual de Montanha russa (Alcyr Pires Vermelho, Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti, 1954) sem fazer graça. Já a dupla Célia e Celma procura evocar a pureza infantil do Baião das velhas cantigas (Jair Amorim, 1953).
Tendendo mais para o sentimentalismo retrô do que para a malícia nordestina, o disco retrata o personagem musical Ivon Curi com traços pálidos e com repertório de qualidade oscilante, sobretudo quando tira do baú títulos do cancioneiro autoral desse artista que seduzia o público mais como intérprete do que como compositor.