Iraniano ‘There is no evil’ é eleito melhor filme no Festival de Berlim


Urso de Ouro foi para o longa do diretor Mohammad Rasoulof, crítico do regime em Teerã e proibido de deixar o país. Brasil foi premiado em mostras paralelas. A atriz iraniana Baran Rasoulof posa com o Urso de Ouro de melhor filme do Festival de Berlim 2020 ao lado do presidente do júri, o ator britânico Jeremy Irons
Tobias Schwarz/AFP
O filme iraniano “There is no evil”, de Mohammad Rasoulof, foi o vencedor do Urso de Ouro na 70ª edição do Festival de Berlim neste sábado (29). O longa concorria com outras 17 produções, incluindo o brasileiro “Todos os mortos”, de Caetano Gotardo e Marcos Dutra.
“There is no evil” é um filme sobre liberdade individual num país governado por um regime autoritário e que exerce a pena de morte. Ao fazer esse longa, Rasoulof driblou uma proibição vitalícia de filmar imposta contra ele.
Crítico ferrenho do regime islâmico em Teerã, o diretor não compareceu ao festival na capital alemã. Ele é também proibido de deixar o Irã e foi condenado a um ano de prisão em 2017.
Em “There is no evil”, Rasoulof usa quatro histórias tragicamente conectadas para expor seu caso contra a pena de morte no país, e mostra como a vida sob regimes opressivos se resume a uma escolha entre resistir e sobreviver.
O filme foi escolhido pelo júri internacional do Festival de Berlim, presidido pelo ator britânico Jeremy Irons e formado por seis jurados, entre eles o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, de filmes aclamados pela crítica como “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019).
Também fizeram parte do júri a diretora palestina Annemarie Jacir, a atriz argentina Bérénice Bejo, a produtora alemã Bettina Brokemper, o cineasta americano Kenneth Lonergan e o ator italiano Luca Marinelli.
Principais premiados do Festival de Berlim
Urso de Ouro de melhor filme: Sheytan vojud nadarad (There is no evil), de Mohammad Rasoulof.
Urso de Prata/Prêmio Especial do Júri: Never rarely sometimes always, de Eliza Hittman.
Urso de Prata/70ª Berlinale para “filme que abre novas perspectivas”: Effacer l’historique (Delete history), de Benoît Delépine e Gustave Kervern.
Urso de Prata de melhor diretor: Sang-soo Hong, por Domangchin yeoja (The woman who ran).
Urso de Prata de melhor atriz: Paula Beer, em Undine, de Christian Petzold.
Urso de Prata de melhor ator: Elio Germano, em Volevo nascondermi (Hidden away), de Giorgio Diritti.
Urso de Prata de melhor roteiro: Favolacce (Bad tales) dos irmãos D’Innocenzo.
Urso de Prata de “desempenho artístico excepcional”: Jürgen Jürges, pela fotografia de DAU. Natasha, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel.
O Brasil na Berlinale
O Brasil teve presença recorde no Festival de Berlim deste ano, com 19 filmes selecionados e alguns prêmios. Na sexta-feira, o longa Meu nome é Bagdá ganhou o prêmio do júri de melhor filme na mostra Generation, dedicada ao público infanto-juvenil.
Dirigido por Caru Alves de Souza, a obra retrata o cotidiano da jovem skatista Bagdá, interpretada por Grace Orsato, na cidade de São Paulo. O júri afirmou que foi unânime na escolha do vencedor.
Ao argumentar a decisão, o júri disse ser impossível “não ser conquistado pela protagonista e sua comunidade e, da mesma maneira, era impossível esquecer o auge glorioso e poderoso deste filme”. “É uma prova de que a vida pode não nos proporcionar milagres, mas podemos superar todos os obstáculos se seguirmos nossa paixão”, acrescentou.
Segundo Caru Alves de Souza, Meu nome é Bagdá “é um filme sobre solidariedade entre mulheres e sobre as dificuldades que elas enfrentam no dia a dia”.
Neste sábado, o país também levou um prêmio, mas com uma coprodução, Chico ventana también quisiera tener un submarino, do uruguaio Alex Piperno, premiada pelo júri independente.
O primeiro longa-metragem de Piperno é uma história com um toque de realismo mágico, que conecta mundos e pessoas transgredindo as leis do tempo e do espaço. O filme estreou na seção Fórum da Berlinale e levou o prêmio do júri dos leitores do jornal Tagesspiegel.
Coproduzido entre Uruguai, Argentina, Brasil, Holanda e Filipinas, a obra conta a história de um membro da tripulação de um cruzeiro turístico na Patagônia, que descobre um portal mágico ligando o navio ao apartamento de uma mulher em Montevidéu, capital uruguaia.
Ao mesmo tempo, um grupo de homens descobre uma cabana de concreto perto de sua pequena vila nas Filipinas, o que começa a preocupar alguns dos moradores. O filme entrelaça essas duas histórias num labirinto cinematográfico e contemplativo, com um final que revela o quebra-cabeça.
“Em imagens nítidas e bonitas, o filme de Alex Piperno funde realidade e ficção de uma maneira divertida. Nas diversas paredes e fronteiras do nosso mundo, ele encontra portas e passagens meio sonhadoras, meio reflexivas e aparentemente impossíveis”, disse o júri ao justificar a escolha.
“O filme combina queixa e estética de uma forma excelente, e clama por abertura: a cooperação global só será bem-sucedida se nós atravessarmos portas”, completou.
Outros filmes selecionados
Além de Todos os mortos concorrendo ao Urso de Ouro, o país veio forte, com cinco filmes, na mostra Panorama – a segunda mais importante e a única a ter uma premiação definida pelo público. Uma das obras foi Nardjes A., do premiado cineasta Karim Aïnouz, um documentário sobre uma jovem ativista que luta pela democracia na Argélia.
Já O reflexo do lago, de Fernando Segtowick, mostra a vida dos que moram, sem energia elétrica, nos arredores de uma das maiores hidrelétricas da Amazônia, sob um olhar ambientalista.
Ainda na Panorama, o diretor Matias Mariani trouxe em Cidade pássaro a história de um músico que deixa a Nigéria para procurar o irmão desaparecido em São Paulo.
Completaram a seleção Vento seco, de Daniel Nolasco, e a coprodução Un crimen común, dirigida pelo argentino Francisco Márquez.
Na mostra competitiva Encounters, que visa fomentar trabalhos “esteticamente ousados” e que possam trazer novas abordagens para o cinema, o Brasil concorreu com Los conductos, do diretor Camilo Restrepo, feito em coprodução com França e Colômbia.
Na seção Generation, além de Meu nome é Bagdá, o Brasil apresentou outros três filmes. Entre eles, Alice Júnior, de Gil Baroni: uma ficção divertida sobre uma youtuber trans, que já passou por festivais no Brasil.
O Festival de Berlim é um dos festivais de cinema internacionais mais importantes do mundo ao lado de Cannes e Veneza. Em 2020, foram exibidos na capital alemã 340 filmes produzidos por 71 países.