Índios Huni Kuin produzem próprias máscaras e garantem sustento durante a pandemia: ‘cultura e tradição’


Máscaras são feitas por mulheres indígenas que moram na Aldeia Mibãya, na Terra Indígena da Praia do Carapanã, a três dias de barco do município de Tarauacá, no Acre. Para ajudar na renda, índios Huni Kuin fazem máscaras com desenhos que reforçam a cultura e tradição
Maria do Socorro Hunikuin/Arquivo pessoal
Resgatar a cultura, manter a tradição e gerar renda. Foi pensando nisso que um grupo de mulheres indígenas resolveu fabricar as próprias máscaras para se proteger da Covid-19 e também ajudar na economia local.
São pelo menos 20 índias que moram na Aldeia Mibãya, na Terra Indígena da Praia do Carapanã, que fica a três horas do município de Tarauacá, no Acre, pelo rio de mesmo nome, que produzem as máscaras. A terra indígena é composta por cinco aldeias e tem aproximadamente 5 mil indígenas.
Uma das idealizadoras do projeto, Maria do Socorro Hunikuin, diz que no início a ideia era fabricar as máscaras apenas para proteção da comunidade.
“A gente está fabricando desde que a pandemia começou. Como a máscara que a gente compra é um pouco cara, nem todo mundo tem dinheiro, então, a gente resolveu fazer a nossa própria máscara”, explica.
Máscaras são vendidas a R$50 e demoram de dois a três dias para serem feitas
Maria do Socorro Hunikuin/Rede Amazônica Acre
Com a comunidade protegida, Francisca conta que agora elas fabricam as máscaras para vender e garantir o sustento dos povos.
“Vendemos por encomenda, é uma forma de melhorar nossa renda, mostrar nosso trabalho, dar continuidade à nossa cultura e tradição. Queremos mostrar para as pessoas que a gente é capaz de produzir a nossa própria máscara, então, a gente não espera por ninguém. Assim, todas as mulheres estão trabalhando”, fala.
Francisca explica o processo de fabricação das máscaras é todo artesanal e manual
Maria do Socorro Hunikuin/Arquivo pessoal
Fabricação, renda e divulgação
Francisca explica o processo de fabricação das máscaras é todo artesanal. No total, as índias ficam de dois a três dias tecendo o material até que toda a arte ganhe forma.
“Usamos linha de algodão e os desenhos são feitos por nós mesmas. Demora porque é um trabalho de tecelagem à mão, é muito cuidado, um trabalho minucioso”, afirma.
A indígena diz que o material é comprado na cidade, no município de Tarauacá, e levado para a aldeia. “A gente já compra a linha colorida, linha artificial, mas, quando não tem, na aldeia tem como a gente tingir a linha com urucum e açafrão.”
Máscaras são vendidas a R$50 cada
Maria do Socorro Hunikuin/Arquivo pessoal
Em relação ao preço, a artesã afirma que cada máscara é vendida por R$ 50 e que após serem fabricadas na aldeia eles levam para a cidade e enviam pelo Correio. Sobre o valor cobrado, Francisca diz que, além do processo ser lento e trabalhoso, a matéria prima não é tão barata.
“Tem a linha que a gente usa que é um pouco cara, custa R$18, R$19 e para fazer demora, porque tem todo o processo de tecer, fazer o desenho e costurar. Já enviamos várias para alguns estados, um deles é o Rio de Janeiro, temos uma parceira lá que ajuda a gente a divulgar. A última vez enviamos 32 máscaras”, diz.
Sobre a divulgação dentro e fora do estado, além da parceira que mora no Rio de Janeiro, a indígena administra uma conta no Facebook e outra no Instagram, com o nome de ‘Artesanato Huni Kuin’, onde expõe todos os trabalhos feitos pelas índias.
“Além das máscaras, fabricamos bolsas, vestidos, tiaras, pulseiras e tudo mais que as pessoas encomendarem. Isso ajuda muito na nossa renda para a gente se sustentar. Também é uma maneira de mostrar para as pessoas nosso trabalho”, finaliza
Além das máscaras comunidade já fabricava antes outros produtos como brincos e acessórios para o cabelo
Maria do Socorro Hunikuin/Arquivo pessoal
Covid-19 e medicina tradicional
Sobre a Covid-19, Francisca diz que atualmente não tem nenhum índio doente na aldeia, mas que alguns chegaram a adoecer. Ela conta que não tem como afirmar que a doença que eles pegaram foi a Covid-19, mas garante que o tratamento tradicional da cultura que os curou.
“Alguns chegaram a ficar doentes, agora não tem nenhum, mas os que ficaram já estão bons, tratamos com a nossa medicina tradicional. Eles tomaram chás e nossos remédios naturais. Para evitar o contágio, nem todos os índios vão para a cidade, só alguns.”
O último Boletim Epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), divulgado nessa terça-feira (1), aponta que atualmente no Alto Rio Juruá há 11 casos suspeitos, 677 confirmados, 104 descartados, 102 infectados, 566 curados, e nove óbitos. No Alto Rio Purus, que comporta os estados do Acre, parte do Amazonas e parte Rondônia, não há nenhum caso suspeito, 462 confirmados, 265 descartados, 70 infectados, 386 curados, e cinco óbitos.
Ven da de produtos ajuda a comunidade a se sustentar
Maria do Socorro hunikuin/Arquivo pessoal