Incêndios, secas e ondas de calor vão se agravar no Mediterrâneo, segundo IPCC


No Oriente Médio e no Norte da África, o risco de morte para idosos devido ao calor pode se multiplicar entre 3 e 30 vezes até 2100, Bombeiros no combate ao fogo em Agios Stefanos, na Grécia, em 6 de agosto de 2021
Costas Baltas/Reuters
Já envolvida em uma catástrofe sem precedentes na Grécia e na Turquia, toda a região do Mar Mediterrâneo verá incêndios, secas e ondas de calor agravadas como resultado do aquecimento global, de acordo com a versão preliminar de um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, ao qual a AFP teve acesso exclusivo.
Embora não seja a região do mundo que sofrerá o maior aumento das temperaturas, de acordo com este relatório, o Mediterrâneo, onde vivem 500 milhões de pessoas, é considerado um ‘ponto quente’ das mudanças climáticas.
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De acordo com um capítulo deste relatório do IPCC sobre as consequências das mudanças climáticas, que será definitivamente aprovado em fevereiro de 2022, o Mediterrâneo está ameaçado por vários fatores relacionados às mudanças climáticas.
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“Os pontos preocupantes indicam riscos relacionados à elevação do nível do mar, perda da biodiversidade terrestre e marinha, riscos relacionados a secas, incêndios e alterações do ciclo da água, produção de alimentos, riscos à saúde em aglomerações urbanas e rurais por ondas de calor, e por mosquitos que transmitem doenças”.
De acordo com o texto provisório, as temperaturas subiriam mais rápido nas próximas décadas ao redor do Mediterrâneo do que em nível global, o que impactaria a agricultura, a pesca e o turismo.
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Isso faria com que dezenas de milhões de pessoas adicionais enfrentassem problemas de escassez de água, risco de inundações costeiras e calor com risco de vida, alertam.
Algumas regiões do Mediterrâneo podem ver suas safras agrícolas dependentes da chuva caírem 64%. A área de florestas queimadas dobraria ou até triplicaria, dependendo dos esforços feitos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e, portanto, as mudanças climáticas.
Esta versão preliminar do relatório também conclui que apenas um aquecimento claramente abaixo de 2ºC (objetivo do Acordo de Paris), “permitiria manter em situação viável as aglomerações costeiras, patrimônio cultural, ecossistemas terrestres e marinhos da” bacia mediterrânea.
O aumento das temperaturas elevam a probabilidade de ondas de calor e secas, levando a um aumento nos incêndios.
O IPCC está atualmente estudando outro relatório sobre previsões climáticas, que será divulgado na segunda-feira (9).
Em perigo
“As ondas de calor são o tipo de fenômeno climático extremo no qual as mudanças climáticas realmente mudam as regras”, explica à AFP Friederike Otto, da Universidade de Oxford.
O calor extremo é a maior ameaça ao Mediterrâneo, pois “é, de longe, o fenômeno extremo (climático) mais mortífero da Europa”, aponta Otto.
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De acordo com o rascunho do IPCC, até 93 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar ondas de calor na costa norte do Mediterrâneo até 2050.
No Oriente Médio e no Norte da África, o risco de morte para idosos devido ao calor pode se multiplicar entre 3 e 30 vezes até 2100, e as mortes podem aumentar para 20 mil por ano no norte do Mediterrâneo até 2050.
Os governos podem agir sobre algumas ameaças, como incêndios ou inundações, mas no calor é diferente, avisa Ilan Kelman, da University College London. “As mudanças climáticas nos levam a níveis em que não podemos sobreviver”.
“A única opção de sobrevivência é o ar-condicionado 24 horas por dia, sete dias por semana, e as pessoas não podem pagar por isso. Haverá queda de energia”.
O número médio de dias com condições favoráveis para incêndios no Mediterrâneo multiplicou desde a década de 1980, de acordo com Matthew Jones, do Centro Tyndall para Pesquisa de Mudanças Climáticas.
Os incêndios também degradam a qualidade do ar. Nas regiões da Turquia e da Grécia – atualmente devastadas pelas chamas -, essa degradação chegou até Chipre, diz Mark Parrington, do serviço europeu Copernicus.
“Estamos colocando cada vez mais pessoas e bens em risco e não os estamos ensinando a reagir a fenômenos ambientais atípicos, como incêndios, inundações e secas”, lamenta Ilan Kelman.
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