Greta Van Fleet: novo disco tem letra inspirada em favela do Rio, diz vocalista Josh Kiszka


‘Nunca vi uma coisa assim’, ele diz ao G1. Após tocar no Brasil em 2019, ele ficou ‘chocado’ com a pobreza e escreveu sobre ‘pessoas buscando salvação’ em ‘The Battle at Garden’s Gate’. Greta Van Fleet
Divulgação
“The Battle at Garden’s Gate”, segundo disco do Greta Van Fleet, é resultado de uma mudança brusca: da pequena e pacata Frankenmuth, no Michigan, nos EUA, para três anos e meio de turnê pelo mundo, deixando fãs alegres e estupefatos com estranho fenômeno de jovens de hoje tocando rock clássico.
O choque cultural em lugares tão diferentes impulsionou as novas canções, conta ao G1 Josh Kiszka, vocalista da banda. A visão de uma favela no Rio de Janeiro foi marcante. “Eu nunca vi uma coisa assim”, ele diz. “Acho que a pobreza chocou a gente.” O álbum sai no dia 16 de abril.
As músicas novas, em especial “Tears of rain”, falam sobre “pessoas buscando salvação”, após ele vir ao Brasil, “perceber a condição menos confortável de outras pessoas e se colocar nesse lugar”. Eles vieram em 2019 para o festival Lollapalooza em SP e também tocaram no Rio.
Essa já é a segunda banda que vem ao Brasil para o Lolla, fica impressionada ao ver uma favela e faz uma música sobre isso. Em 2012, o Cage the Elephant viu as “casinhas precárias” em São Paulo e escreveu “Come a little closer”.
Na conversa, Josh também falou sobre os segredos de sua voz aguda e rasgada, que os amigos chamavam de “voz de desenho animado”, e a semelhança com Robert Plant. Ele explica por que, mesmo fazendo um som tradicional, não tem medo de que o rock vire coisa do passado. Leia abaixo:
G1 – Como a experiência de sair do interior dos EUA e ficar por três anos e meio em turnê pelo mundo influenciou neste álbum?
Josh Kiszka – Foi intenso sair da cidade onde crescemos, com 5 mil pessoas, e ver muita coisa diferente do que estávamos acostumados. A coisa mais bonita e importante é conhecer pessoas e ver costumes e tradições diferentes, mas tanto em comum.
Mas você vê coisas… Acho que a pobreza chocou a gente. A gente não cresceu com essa pobreza, então você processa e pensa: qual é meu papel? Isso se traduz de um jeito natural. Você cresce espiritualmente, se interessa por ideias filosóficas e isso se traduz na arte. Essa foi a experiência.
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G1 – O texto de divulgação da gravadora sobre esse novo disco diz que você ficou impressionado com uma favela que viu em São Paulo.
Josh Kiszka – Não foi em São Paulo, foi no Rio de Janeiro. A gente estava indo embora de um show. Eu nunca vi uma coisa assim. Foi muito diferente para mim. E ai você vê outros lugares e percebe que isso faz parte do mundo, de onde a gente vive.
G1 – E como ver essa pobreza no Brasil se refletiu em específico no disco?
Josh Kiszka – Eu acho que você passa a considerar isso. Você percebe o quanto tem sorte de só nascer assim, perceber a condição menos confortável de outras pessoas e se colocar nesse lugar. É muito literal em algumas faixas. Estamos discutindo certos grupos de pessoas buscando salvação. Especialmente em músicas como “Tears of rain”. Ela fala sobre isso.
G1 – Que curioso. Eu ia te perguntar sobre essa música, mas achei que podia ter inspiração na destruição da Amazônia, pois a letra fala sobre fogo no planeta e as pessoas rezando por chuva. Mas qual é a relação com a pobreza?
Josh Kiszka – Essa é uma interpretação (sobre a floresta) mais literal. É certamente uma parte da música. Mas, por outro lado, ela é também como uma pintura de Salvador Dali, uma imagem que funciona como analogia das pessoas no deserto procurando pela chuva. Tudo é uma terra seca. Não há água, não há fonte de vida. Mas somos otimistas no fim.
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G1 – No disco novo, sua voz está mais rasgada e mais aguda ao mesmo tempo. Como você alcança esse vocal? Tem algum segredo?
Josh Kiszka – Tem muitos cantores que eu cresci ouvindo, de soul music, principalmente. Mas por alguma razão eu consigo fazer esse vocal. Eu sinto que é natural.
É uma questão de perceber que o estúdio é diferente do show. Eu fico mais confortável ao vivo, mas no estúdio é mais íntimo, cru, e você tem que estar imerso. Se eu consigo criar um ambiente “ao vivo” no estúdio, o mais parecido possível com o palco, geralmente fica melhor.
Josh Kiszka, vocalista do Greta Van Fleet, no Lollapalooza 2019
Fabio Tito/G1
G1 – Você sempre teve essa voz mais aguda que seus amigos? Quando começou a banda, mais novo, teve medo que sua voz mudasse muito?
Josh Kiszka – Sim, lá no começo a gente fazia uma coisa mais blues, e foi onde o vocal chegou. Mas ao longo do tempo eu fui descobrindo como fazer coisas diferentes, me desafiar. Especialmente quando eu vi Aretha Franklin cantando. Isso foi incrível. Como ela chega lá? Tem gospel aí. Então fui tentar.
Acho que sempre tive uma voz estranha, meus amigos falavam: sua voz parece de desenho animado, de um personagem, é engraçada. Eles viram que tinha algo fora do normal. O ar passa pelas minhas cordas vocais e faz esse som rasgado. Não é que eu estou tentando fazer isso, é assim, não tem dor nenhuma.
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G1 – Quando você canta sobre a “era das máquinas” (na nova música “Age of machine”), isso se aplica a música? Porque vocês são dos poucos artistas de sucesso hoje que não usam “máquinas”. Acha que a gente tinha que se liberar dessas máquinas?
Josh Kiszka – Sim, É uma coisa ampla, complexa, mas é certamente uma grande parte da canção. Estamos falando sobre como os homens interagem e confiam na tecnologia que eles criam. Como nossa conversa agora (por Zoom), inteiramente cercados por essa criação humana. E os instrumentos fazem parte disso. E isso está em muita literatura, ficção científica. É um tema tão importante, intrigante e complexo que tem um gênero inteiro sobre ele.
G1 – Você tem medo de que o rock ‘n’ roll como gênero musical vire uma coisa do passado?
Josh Kiszka – Não. Eu acho que o rock é um gênero muito flexível. É único, mas também é uma mistura eclética que toda geração parece pegar com uma nova interpretação. A nossa filosofia é que o rock and roll pode parecer inativo às vezes, mas aí salta e as pessoas captam.
Está no espírito da liberdade, da energia, que desafia as pessoas. Tem que ter uma identidade forte. E espero que a gente esteja ajudando despertar isso para permitir às pessoas recriarem e fazerem seu próprio rock.
G1 – Qual foi a primeira vez na sua vida que te disseram que sua voz parecia a do Robert Plant e qual foi a sua reação?
Josh Kiszka – Eu não tinha ouvido Led Zeppelin até que no Ensino Médio o Jake (irmão e guitarrista da banda) me mostrou e disse que era legal. E levou um tempo até eu curtir. Mas sim, achei o vocal interessante, no fim achei que fazia sentido. Mas eu ouço como um elogio, porque o que o Robert Plant faz é incrível. Mas eu ouço cada vez menos esses comentários.
G1 – Mas a voz já era parecida antes de você ouvir Led Zeppelin? Acha que foi uma coincidência?
Josh Kiszka – Acho que mudou um pouco, certamente. Mas eu sempre ouvi Sammy Davis Jr., Wilson Pickett, Aretha Franklin e vários desses cantores. Quando ouvi Robert Plant, a diferença era um cara branco fazendo essas coisas. Então eu vi que era possível soar como esses cantores de soul. Mas depois de um tempo, o importante é sua identidade, qual é sua voz, e o que você quer fazer com ela, como ser honesto e original.
Greta Van Fleet no Lollapalooza 2019
Fabio Tito/G1