Gosta de Red Hot Chili Peppers e Legião Urbana? Agradeça Andy Gill, do Gang of Four, por isso


Guitarrista da influente banda punk Gang of Four morreu no sábado (1°) aos 64 anos. O cantor Jon King (à esq.) e o guitarrista Andy Gill em show da banda Gang of Four em Nova York em 2011
Jason DeCrow/AP
É comum em qualquer movimento cultural a figura, o personagem que exerce influência na cena e depois passa para história virtualmente desconhecido do grande público. O guitarrista Andy Gill, da banda Gang of Four, morreu aos 64 anos no último sábado (1°) e recebeu justas homenagens por sua contribuição ao punk e principalmente por moldar o que veio na sequência. Mas milhões de fãs de Red Hot Chili Peppers, Legião Urbana, Franz Ferdinand e tantas outras bandas que carregam o DNA musical do Gang of Four talvez falem: “Andy quem? Gang o quê?”.
Gill era um guitar hero totalmente fora dos padrões que costumam aclamar um guitar hero. Sua Fender Stratocaster não estava preocupada em cuspir várias notas por segundo como demonstração de habilidade.
Eram riffs e intervenções cortantes que saíam de sua guitarra, timbres que não procuravam beleza ou suavidade e sim intranquilidade para o ouvinte. Ao mesmo tempo havia uma atração hipnótica no som tirado por Gill – e quem entendeu a ideia do Gang of Four se tornou um admirador da banda inglesa.
O quarteto de Leeds desconstruiu o funk de James Brown e colocou a energia, a tensão e a ansiedade característicos do punk britânico no final da década de 1970. Se o Sex Pistols simplesmente cravou “no future” (sem futuro) para o mundo de então, o Gang of Four tratou de explicar em detalhes o que estava em jogo.
Os empregos que sugavam a alma, o vazio do entretenimento mais superficial, o consumismo, amor e sexo durante uma época de mudanças comportamentais eram temas do álbum de estreia do grupo, “Entertainment!” (1979). Mesmo com essa pegada mais intelectual e mais elaborada, eles conseguiram o respeito de seus pares do punk mais tosco.
O desconforto deliberado para cima do ouvinte convivia com um groove, um balanço dançante que foi capital para a formação musical de Flea, Anthony Kieds e dos Chili Peppers. O baixista fez um post emocionado como tributo a Andy Gill em seu Instagram em que descreve o impacto do guitarrista em sua vida:
“Esse é um disco [“Entertainment!”] que mudou a minha vida para sempre e foi uma influência gigantesca no meu desenvolvimento como músico e me mostrou o que uma banda de rock podia fazer. Não há nada como isso”. O post completo está abaixo:
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Foi algo tão marcante para os californianos que Gill foi escolhido como produtor do primeiro disco deles. Apesar de algumas excelentes faixas (“True men don’t kill coyotes”, “Get up and jump”), a relação entre as duas partes no estúdio azedou feio.
Em sua autobiografia “Scar tissue”, Kieds narra a decepção de ver uma de suas músicas (“Police helicopter”) ser classificada como “uma merda” por Andy Gill. A postagem feita por Flea nas redes sociais, no entanto, mostra que foi possível uma reconciliação nos últimos tempos e que a inspiração dos primeiros tempos de Red Hot mereceu ser lembrada e reconhecida.
A Legião Urbana foi outra banda conhecida dos brasileiros que bebeu bem na fonte do Gang of Four. Nunca foi segredo que o pós-punk, de forma geral, foi o arroz com feijão que alimentou os primeiros discos dos brasilienses até a chegada ao estrelato e a conquista de uma identidade própria.
Em 2012, já sem Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá receberam Andy Gill no palco da turnê que reviveu sucessos da banda oitentista ao lado do ator Wagner Moura. O guitarrista inglês tocou “Ainda é cedo”, além da sua “Damaged goods”. Foi um gigantesco atestado de influência. “Quando descobri a Legião Urbana, senti sintonia”, afirmou Gill à época.
Vale a pena se aventurar ou redescobrir a discografia do quarteto inglês por ocasião da morte de Gill. Como o próprio Flea diz de uma forma meio solta em seu post de homenagem ao músico: “Pense. Dance.” É um resumo quase perfeito para o espírito do Gang of Four.