Ghosn diz que esperava mais ajuda do governo brasileiro ao justificar fuga do Japão para o Líbano


Em sua primeira aparição pública desde que escapou de Tóquio, o ex-executivo agradeceu a cônsul brasileiro no Japão. ‘Ele cuidou de mim’. Carlos Ghosn fala pela 1ª vez à imprensa após fuga do Japão
O ex-presidente da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, que fugiu do Japão para o Líbano, disse nesta quarta-feira (8) que “esperava mais ajuda do governo brasileiro”.
A declaração foi feita durante entrevista coletiva em Beirute, na primeira aparição do ex-executivo desde que ele escapou da prisão domiciliar, em Tóquio, no fim do ano.
Fuga de Ghosn: o que se sabe até agora
Nascido no Brasil, Ghosn também tem cidadania libanesa e francesa. Ele foi preso em novembro de 2018 no Japão, acusado pela Nissan de fraudes financeiras, e aguardava julgamento em Tóquio, sob diversas restrições, inclusive a de deixar o país.
Aos jornalistas, Ghosn, que nega as acusações, e afirma que foi vítima de uma vingança de executivos da Nissan, e que fugiu porque teve seus “princípios dos direitos humanos violados” com sua prisão.
Perguntado sobre como foi o tratamento recebido por ele do governo brasileiro, o ex-executivo disse que esperava por mais ajuda.
“O presidente Bolsonaro fez um anúncio no jornal, onde alguém fez uma pergunta para ele, se ele estava pronto para falar do meu caso com as autoridades japonesas. E, se eu me lembro, ele falou que ele não quis fazer isso para não atropelar, atrapalhar as autoridades japonesas”, afirmou Ghosn.
Claro que eu não gosto desse tipo de declaração, agora, eu respeito esse tipo de declaração”, disse Ghosn. “Mas eu estava esperando um pouco mais de ajuda do governo brasileiro, o que não aconteceu, infelizmente.”
O G1 procurou a Presidência, mas até as 13h37, o Planalto não se pronunciou.
Ghosn, no entanto, destacou a ajuda do cônsul brasileiro no Japão. “Foi muito amigo, muito querido. Ele realmente cuidou de mim, durante um período que foi muito difícil para mim”, afirmou. “O João de Mendonça, com a família dele, ele me tratou com muito carinho”.
Em junho passado, quando Ghosn estava preso e impedido de ver a família, a mulher dele disse que ia pedir ajuda a Bolsonaro, assim como ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao governo francês.
Em entrevista ao Fantástico, exibida naquele mês, Carole Ghosn defendeu o brasileiro e disse: “Queriam se livrar do meu marido e armaram esse processo”.
Mulher de Carlos Ghosn: ‘Queriam se livrar do meu marido e armaram esse processo’
Como Ghosn justifica a fuga
“Essa (fuga) foi a decisão mais difícil da minha vida, mas eu estava enfrentando um sistema em que a taxa de condenação é de 99,4%, e acredito que esse número é muito maior para estrangeiros”, disse Ghosn, nesta quarta. “Fui brutalmente retirado de minha família”.
O ex-presidente da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi voltou a dizer que foi vítima de um complô da Nissan.
Para Ghosn, a redução do desempenho da montadora japonesa, no início de 2017, causou uma perseguição contra ele. E os japoneses da Nissan desejavam mais autonomia. “Alguns de meus amigos japoneses pensaram que a única maneira de se livrar da influência da Renault na Nissan era se livrar de mim”, disse.
Fuga cinematográfica
Ghosn não explicou como escapou da prisão domiciliar em Tóquio.
Algumas hipóteses foram levantadas pela imprensa estrangeira. Entre elas, a de que o brasileiro deixou sua residência escondido dentro de uma caixa de instrumento musical, após um grupo se apresentar na casa.
Questionado sobre essa versão, o ex-executivo apenas sorriu. A mulher dele havia dito que se tratava de “ficção pura”.
Ele teria saído do Japão em um jato particular, rumo a Istambul, capital da Turquia, e, de lá, foi para o Líbano. Uma ordem de prisão contra Ghosn foi expedida no último dia 30, pela Interpol, mas ainda não foi cumprida.
O Japão estuda negociar a entrega do brasileiro pelo governo libanês, mas os dois países não possuem acordo de extradição.
Detalhes sobre a fuga de Carlos Ghosn do Japão
Aparecido Gonçalves/Rafael Miotto/G1