Gal Costa e Zé Ibarra embaralham graves e agudos em registro terno da canção ‘Meu bem, meu mal’


Single será lançado juntamente com a regravação de ‘Juventude transviada’ feita pela cantora com Seu Jorge. Capa do single ‘Meu bem, meu mal’, de Gal Costa com Zé Ibarra
Divulgação / Biscoito Fino
Resenha de single
Título: Meu bem, meu mal
Artistas: Gal Costa e Zé Ibarra
Compositor: Caetano Veloso
Edição: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
♪ Quando a voz de Zé Ibarra é ouvida pela primeira vez, aos dois minutos e 13 segundos da gravação de Meu bem, meu mal, tem-se a impressão de que se trata da voz de Gal Costa. Mas é mesmo a voz camaleônica deste cantor carioca de 24 anos que vem encantando plateias Brasil afora desde que Milton Nascimento o convidou para participar, com direito a solos no roteiro, da turnê do show Clube da Esquina (2019 / 2020).
Foi vendo e ouvindo Zé Ibarra dividir o palco e músicas com Milton que Gal reforçou o time de admiradores desse artista revelado em 2014 como vocalista, compositor e pianista da banda carioca Dônica.
É por isso que Zé Ibarra integra o time de dez solistas masculinos convidados a regravar com Gal músicas emblemáticas do repertório da cantora para álbum comemorativo dos 75 anos da artista baiana.
A propósito, foi na Bahia, terra natal da avó paterna, que Zé Ibarra ouviu pela primeira vez a voz cristalina de Gal. Então criança, o menino do Rio de Janeiro passava férias com o pai, Léo Ramos, que levou na bagagem o álbum Gal canta Caymmi (1976), trilha sonora da viagem.
Cerca de 20 anos depois, Zé Ibarra é gente grande – inclusive em termos artísticos – e divide com Gal a interpretação de Meu bem, meu mal em gravação feita para o álbum produzido sob direção artística de Marcus Preto.
A gravação de Meu bem, meu mal será lançada em single na sexta-feira, 27 de novembro, juntamente com o dueto de Gal com Seu Jorge em Juventude transviada (Luiz Melodia, 1976). Composição de Caetano Veloso, Meu bem, meu mal é uma das músicas mais populares da discografia de Gal Costa.
Foi lançada há 39 anos no álbum blockbuster Fantasia (1981) e se tornou um dos hits do LP alavancado de início pela explosiva marcha-frevo junina Festa do interior (Moraes Moreira e Abel Silva, 1981).
No revival da canção por Gal com Zé Ibarra, em gravação formatada com produção musical dividida entre Felipe Pacheco Ventura e Ibarra, importa bem menos o arranjo e muito mais o jogo de vozes dos cantores, que embaralham agudos e graves.
Ibarra toca o piano que embasa o fonograma. Ventura orquestra violinos e violas em arranjo de cordas aditivado com os violoncelos de Marcus Ribeiro. Sobre as cordas, ouve-se nos dois primeiros minutos somente a voz de Gal, em tom grave, diferente do registro habitual da cantora.
É nesse tom grave, embebido em ternura, que Gal dá voz aos versos dialéticos com que Caetano Veloso construiu letra que, em essência, faz declaração de amor. Zé Ibarra entra na sequência do canto grave de Gal, com a voz posta em tonalidade aguda.
De acordo com a nota da gravadora Biscoito Fino sobre o single Meu bem, meu mal, esse registro agudo de Ibarra foi feito inicialmente apenas para funcionar como voz-guia para Gal, sendo elevado ao posto de voz definitiva da gravação quando optou-se por captar a voz da cantora em tons mais graves.
O jogo de contrastes vocais alcança o ápice no arremate da gravação quando, na repetição do verso final “Meu zen, meu bem, meu mal”, os cantos de Gal e Zé Ibarra se confundem, valorizando registro que se junta aos duetos da artista com Rodrigo Amarante em Avarandado (Caetano Veloso, 1967) e com Zeca Veloso em Nenhuma dor (Caetano Veloso e Torquato Neto, 1967), sinalizando álbum revisionista produzido longe do trilho da banalidade e da preguiça.