‘Fui às aulas mesmo após ter visto colegas mortos na minha universidade. Mas agora preciso fugir. Os assassinos estão no poder’, diz estudante afegã


Em novembro de 2020, Hada Hamidi estava na Universidade de Cabul quando a instituição foi atacada por homens armados. Apesar do trauma, ela quis ‘ser forte e continuar estudando’. Nesta semana, no entanto, os planos mudaram com o avanço do Talibã: a jovem teve de abandonar o curso de engenharia para se esconder em outro país. ‘Preciso fugir. Os assassinos estão no poder’, diz afegã após Talibã tomar o Afeganistão
“Há três anos, entrei na Universidade de Cabul, mesmo com todos os problemas do meu país. Sempre fui contrária à ideia de que meninas devem só se casar; nunca quis isso para mim. Tentei estudar, me tornar independente e provar que mulheres não são fracas. Elas têm direito à educação.”
A declaração acima é de Hada Hamidi, de 21 anos, aluna de engenharia de uma das principais instituições de ensino da capital do Afeganistão. Ela terminaria a graduação em dezembro de 2022.
O que a jovem não esperava é que o grupo extremista Talibã tomaria Cabul em agosto de 2021, voltando ao poder.
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As consequências foram imediatas: Hada teve de abandonar a graduação e se trancar em casa com a irmã, de 1 ano, e os pais. Pelo histórico de interpretação radical que os insurgentes fazem do Islã, mulheres costumam ser proibidas de estudar e trabalhar.
Hada preferiu preservar seu rosto nas fotos
Arquivo pessoal
“Meu coração e minha alma sofrem, porque não vai ter jeito: preciso deixar a terra que amo e emigrar. Tenho esperança de um dia voltar e ser um símbolo da coragem da mulher afegã”, conta Hada.
‘Vi os corpos na minha frente’
Quando ela diz que enfrentou obstáculos para continuar estudando, refere-se, por exemplo, ao fato de ter presenciado um ataque terrorista em 2 de novembro de 2020.
Durante uma feira de livros na Universidade de Cabul, homens armados invadiram o local, efetuaram disparos por 5 horas, fizeram reféns e mataram mais de 20 pessoas. No mesmo dia, o Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado.
“Eu estava lá e vi os corpos dos alunos na minha frente: estudantes que morreram com todas as suas aspirações”, diz. “Depois disso, continuei frequentando as aulas, porque falei a mim mesma: ‘sou forte’. Foi essa frase que me fez prosseguir. Só que agora preciso fugir – os assassinos estão no poder”.
Tentativa de sair do país
O pai de Hada foi o único da família que saiu de casa nos últimos dias. De manhã, aproveitava para comprar os mantimentos básicos. “Ele consegue usar as mesmas roupas dos homens do Talibã, então, o risco é menor [em relação ao que as mulheres da família correriam]”.
Mesmo assim, todos ficam tensos. “Meu pai trabalha na indústria de cinema. Então, nossas vidas estão em perigo, porque os radicais são muito hostis a pessoas ligadas à mídia”, diz a jovem.
Na quarta-feira (18), Hada contou ao G1, em entrevista, que o plano era fugir para a Índia e aguardar lá por um visto que autorizasse a ida da família ao Canadá. “Espero poder estudar inglês com meus livros favoritos, ir para a América legalmente e ser aceita em uma universidade.”
No dia seguinte, a jovem estabeleceu um breve contato de dentro do carro que a levava para o aeroporto. “Ligaram para a nossa casa e disseram que conseguimos o visto canadense. Mas não tenho condições de falar mais nada. Estou passando mal depois do que vi nas ruas agora.”
Hada não entrou em detalhes sobre o que havia presenciado. Até a última atualização desta reportagem, também não confirmou se conseguiu embarcar para outro país.
‘Vocês, brasileiras, são muito sortudas’
“Nunca vou esquecer que nosso povo sofreu tanta dor. Como podemos aceitar assassinos como nossos governantes? O Islã a que eles [membros do Talibã] se referem não é o Islã real. Minha querida religião não é opressiva”, afirma Hada.
“Vocês, brasileiras, são muito sortudas, porque vivem em um país sem guerra, em paz. Valorizem sua comunidade e busquem seu melhor. Ninguém deveria jamais pensar que uma mulher é fraca e dependente do homem.”
Feminismo e inspiração
Hada quer se formar em engenharia, mas sem abandonar sua paixão pela literatura.
“Meu desejo é me tornar também uma boa escritora, que lute pelos direitos das mulheres. Quero falar para elas: ‘vocês não são fracas. Por favor, não deixem a sociedade anular vocês.’”
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