Fred Martins se espraia com requinte pelas águas intercontinentais do álbum ‘Ultramarino’


Artista transita por samba, fado e blues em repertório autoral que conecta sons do Brasil, de Portugal e da Espanha. Capa do álbum ‘Ultramarino’, de Fred Martins
Alfredo Marques
Resenha de álbum
Título: Ultramarino
Artista: Fred Martins
Edição: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
♪ “Das cinzas do não, sementes do sim”, vislumbra Fred Martins no verso final de Semente, parceria do artista com Marcelo Diniz que se impõe como uma das mais inspiradas canções dentre as 13 composições alinhadas pelo cantor no repertório inteiramente autoral de Ultramarino, álbum lançado no Brasil em 7 de maio pela gravadora Biscoito Fino.
Semente é canção que germina em clima de fado, em sintonia com o fato de o cantor, compositor e violonista fluminense, nascido em Niterói (RJ) em 1970, está morando há quatro anos em Portugal, onde o disco também já se encontra disponível.
Oitavo título de discografia iniciada há 20 anos por Martins com o álbum Janelas (2001), Ultramarino é álbum gravado em 2019 e finalizado em 2020 com a intenção de conectar sons do Brasil, da Espanha – país onde Martins morou por sete anos desde que se radicou na Europa em 2010 – e de Portugal a partir da bossa carioca.
O último álbum de estúdio de Martins, Para além do muro do meu quintal (2015), já tinha sido gravado em Lisboa com a síntese de influências que pautam a obra autoral desse bom compositor revelado ao Brasil há 23 anos na voz de Ney Matogrosso através da gravação de Novamente (Fred Martins e Alexandre Lemos, 1998) feita para o álbum Olhos de farol (1998).
Nessa gravação seminal de Ney, já havia a sonoridade árabe que ressurge no álbum Ultramarino na abordagem de Aderaldo (Fred Martins e Marcelo Diniz), música cantada por Martins com evocação da prosódia dos repentistas do nordeste do Brasil, região banhada pela influência musical moura. A faixa é dedicada ao Cego Aderaldo, cantador nordestino.
Fred Martins dá voz a parcerias com Alexandre Lemos, Ana Terra e Marcelo Diniz no álbum ‘Ultramarino’
Alfredo Marques / Divulgação
No arco de referências em torno do qual gravita o álbum Ultramarino, o minimalismo da bossa nova ecoa no toque do violão posto pelo artista na canção romântica Refém (Fred Martins e Marcelo Diniz). A bossa é leve, mas sopra com um pouco mais de calor nas águas limpas de Ultramarino, como exemplifica a regravação de Zona sul (Fred Martins e Marcelo Diniz, 2017), uma das quatro músicas já pré-existentes alocadas entre as nove composições inéditas de Ultramarino, álbum arranjado pelo próprio Fred Martins.
As outras três regravações são a do samba A filha da porta-bandeira (Fred Martins e Alexandre Lemos, 2017), a de Poema velho (Fred Martins e Manoel Gomes, 2017) – reapresentado somente com a voz e o violão do autor – e a de Doce amargo (Fred Martins e Marcelo Diniz, 2008), canção lançada em disco por Thaís Motta, abordada por Martins no álbum Guanabara (2009) e rebobinada pelo artista em Ultramarino com o toque do violoncelo de Jaques Morelenbaum.
“Há um mar que arde dentro dela / O sol”, poetiza o cantor em Aragem, música composta com o recorrente parceiro Marcelo Diniz e gravada com arranjo construído com base na rítmica africana. O vocal de Mili Vizcaíno na faixa remete ao canto da Península Ibérica.
Fred Martins regrava ‘Poema velho’ neste disco de repertório inteiramente autoral
Alfredo Marques / Divulgação
Previamente apresentado em single editado em 5 de março, o já mencionado samba cool A filha da porta-pandeira já mostrara que o cantor e violonista sabe cair no suingue com bossa.
Entre músicas que versam sobre o mar, caso de Manhã (Fred Martins e Marcelo Diniz), faixa de voz & violão, a travessia rítmica intercontinental de Ultramarino abarca Fado crioulo (Fred Martins e Alexandre Lemos) – reflexo da vivência lusitana do artista – e o vaporoso Blues da madrugada, parceria do compositor com a letrista Ana Terra.
Já Colibri (Fred Martins e Marcelo Diniz) sobrevoa com leveza e frescor a paisagem marítima desse álbum gravado com músicos majoritariamente estrangeiros como Chris Wells (percussão), Glenn Patscha (teclados), Jed Barahal (violoncelo), Rolando Semedo (baixo) e Luís Coelho, cuja guitarra portuguesa é ouvida em Estranha flor (Fred Martins e Alexandre Lemos), canção que desabrocha com delicadeza no jardim cultivado por Fred Martins em Ultramarino com requinte perceptível nas melodias e harmonias do repertório autoral.
Álbum coeso e valorizado pela exemplar produção musical, engenharia de som e mixagem de Hector Castillo, Ultramarino se espraia com coerência por mares desde sempre navegados por Fred Martins.