Filmes nacionais estreiam em drive-in para cumprir regra, mas lucro vem do streaming


Com financiamento público, longas precisam passar por cinemas por exigência da Ancine, mas baixo número de drive-ins inviabiliza boa receita com bilheteria. Público assiste shows e filmes de dentro dos carros no Drive-in Rio Lagoa, no Rio
Divulgação/Drive-in Rio Lagoa
Depois de um hiato no lançamento de filmes no Brasil, as distribuidoras voltaram, timidamente, a colocar longas inéditos na praça. A maior parte deles passa pelos drive-ins espalhados por alguns estados, mas concentra sua campanha nas plataformas de streaming por aluguel por dois motivos:
O número de drive-ins que podem receber filmes inéditos é muito baixo, o que encolhe também a bilheteria;
As plataformas de streaming com possibilidade de aluguel de filmes têm alcance nacional e podem compensar o valor de ingressos.
A passagem por drive-ins não é mero capricho, explicam profissionais do cinema, mas obrigação. Filmes com financiamento público precisam estrear na chamada primeira janela de exibição, que são os cinemas. Com as salas tradicionais fechadas pela pandemia de Covid-19, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) liberou, em 10 de julho, que os drive-ins cumprissem essa função.
Mas o número de drive-ins que podem receber filmes inéditos é muito menor que o número de unidades funcionando no país. Para valer como primeira janela, eles precisam estar registrados na Ancine, usar tecnologia de alta performance ou projetores de 35mm, ter programação com filmes lançados nos últimos 12 meses e cobrar ingressos.
Na maioria dos casos, só cumprem essas obrigações os drive-ins que são administrados por exibidores de cinema – que são poucos.
Então, vale a pena?
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Com a mudança, muitas distribuidoras que estavam com seus filmes parados puderam finalmente se organizar para lançar pelo menos um durante esse momento que, se é ruim pela falta de cinema, é bom pela falta de concorrência.
Os drive-ins também são importantes para gerar publicidade para o filme, dizem Felipe Lopes, diretor da Vitrine filmes, e Sherlon Adler, diretor comercial e de marketing da rede Cinesystem. Um longa que chega sem força às plataformas de aluguel dificilmente consegue vender bem.
O suspense “Macabro”, primeiro brasileiro a estrear em cinemas do estilo, aproveitou essa divulgação. “Como foi o primeiro, ganhou muito espaço na mídia, várias matérias, gerou curiosidade e foi o quarto filme mais assistido em drive-ins há duas semanas. Ganhou chances de ter vida longa em outras janelas”, diz André Sturm, da Pandora Filmes e do cinema Belas Artes.
Cena do filme ‘Macabro’, de Marcos Prado
Divulgação
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Adler, que cuida dos drive-ins da Cinesystem pelo país, disse que o mercado já começou a absorver a mudança. “Tivemos uma oferta grande de distribuidoras nos oferecendo lançamento. Pegamos quatro e estamos confiantes.”
Segundo o diretor comercial, os lançamentos têm sido apenas de filmes nacionais, pela questão contratual com a Ancine. “Os internacionais ainda estão esperando os cinemas abrirem”, diz.
Entre os brasileiros que entraram em cartaz nas últimas semanas, além de “Macabro”, estão “Os espetaculares”, “Música para morrer de amor” e “Volume morto”. Para setembro, está programada a estreia de “Três verões”.
Comprar e alugar filmes
Se drive-in é a vitrine, é no TOVD (plataformas digitais que oferecem compra e aluguel de filmes) que os negócios acontecem com maior volume, dizem os profissionais ouvidos pelo G1. No Brasil, as mais presentes são Google Play, Now, Vivo Play, SKY Play e Apple TV.
“Esse é o principal mercado, onde a gente consegue ganhar por locação. Não é uma etapa obrigatória, mas uma necessidade comercial”, diz Sturm.
Para escolher qual filme colocar no mercado agora, eles fizeram uma perspectiva de público. “Fizemos uma análise interna do que tinha de filme. Escolhemos o que tinha um perfil mais jovem e achamos que iríamos funcionar melhor no streaming”, diz o diretor da Vitrine, que lançou “Música para morrer de amor” também no streaming.
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Neste mercado, é preciso acertar não só o público, mas também o preço. Se for muito elevado, os brasileiros não compram. “‘Scooby-doo’ foi lançado a R$ 49,90 e foi um fiasco”, conta Adler, da Cinesystem.
Estrear nessas plataformas também é a chance de as exibidoras não enfrentarem o congestionamento de lançamentos que deve haver quando os cinemas reabrirem.
“Haverá um número muito grande de filmes concorrendo. Tem filme que não teria um resultado tão expressivo no cinema, mas consegue ir melhor nessas plataformas. Então essa é a hora de lançar”, explica Sturm.