Filme sobre Paulo César Pinheiro abre janela que ilumina o alumbramento infinito do compositor


Documentário sobre o artista pode ser visto gratuitamente na 26ª edição do festival ‘É tudo verdade’. Cartaz inicial do filme ‘Paulo César Pinheiro – Letra e alma’
Reprodução
Resenha de documentário
Título: Paulo César Pinheiro – Letra e alma
Direção: Andrea Prates e Cleisson Vidal
Roteiro: Lea Van Steen e Andrea Prates
Produção: Terra Firme / Curta!
Cotação: * * * *
♪ Filme em cartaz na 26ª edição do festival É tudo verdade em sessões programadas para 11 e 12 de abril de 2021
♪ No inicio, no meio e no fim do depoimento de Paulo César Pinheiro, base e mote do documentário que perfila e enquadra o artista carioca pelas lentes dos cineastas Andrea Prates e Cleissom Vidal, o compositor e poeta enfatiza a crença de que tudo no mundo é infinito. A cada janela aberta, outras janelas são vislumbradas.
Em cartaz na 26ª edição do festival de documentários É tudo verdade, em sessões gratuitas e online programadas para 11 e 12 de abril, o filme Paulo César Pinheiro – Letra e alma abre janela que ilumina o alumbramento infinito deste profícuo compositor que completa 72 anos em 28 de abril sem perda do vigor poético.
“Sou muito fértil”, confirma Pinheiro, compositor de cerca de duas mil músicas, quando o roteiro de Andrea Prates e Lea van Steen já se encaminha para o fim. Com imagens de arquivos que entrecortam e legitimam a prosa fluente do poeta, o documentário dribla o risco de se tornar enfadonho porque a entrevista com o artista justifica a ocupação do eixo central do roteiro.
Ao discorrer sobre a vida e as composições mais emblemáticas (com indisfarçável e justificável orgulho das criações musicais), Pinheiro deixa entrever, pela janela da alma, universo particular povoado por sensibilidade, reiterada ao fim do documentário quando, ao concluir com melancolia que as pessoas atualmente percebem o mundo através das telas do celular e do computador, o poeta sentencia que nada é melhor do que encarar esse mundo com os próprios olhos, sem filtros e telas, pelas janelas da vida real.
Ao mesmo tempo em que o filme cresce por propagar as reflexões existenciais do poeta, o documentário Paulo César Pinheiro – Letra e alma cumpre sem didatismo a função de apresentar em linhas gerais o compositor para quem desconhece que ele nasceu em Ramos (bairro do subúrbio carioca), morou na Mangueira (“Aprendi a fazer samba na Mangueira”) e começou a escrever poesia e letras de música aos 13 anos, tendo dado forma aos 14 anos aos versos de Viagem (1973), obra-prima da parceria de Pinheiro com o violonista João de Aquino, primo de Baden Powell (1937 – 2000), com quem Pinheiro firmou parceria que o lançou à fama nacional em 1968 com a apresentação do samba Lapinha em festival na voz de Elis Regina (1945 – 1982), cantora decisiva na difusão, entre 1970 e 1971, dos sambas provocadores de Baden com Pinheiro.
Paulo César Pinheiro em cena do filme de Andrea Prates e Cleisson Vidal
Divulgação / É tudo verdade
“Estive nos lugares certos, nas horas certas e com as pessoas certas”, reflete o poeta, pouco antes de lembrar que um desses lugares certeiros – para sempre entranhado na memória afetiva do artista – foi o litoral da cidade de Angra dos Reis (RJ), onde se descobriu poeta enquanto mergulhava na vida simples vivida com o avô pescador e a avó meio feiticeira.
A essência dessa vida pobre e existencialmente rica reverbera na ideologia firme do compositor, notoriamente apegado às tradições musicais (“Continuo com o mesmo raciocínio e o mesmo temperamento”, reconhece).
Entre lembranças de embates com a censura para tentar liberar músicas como Sagarana (João de Aquino e Paulo César Pinheiro, 1969) e Pesadelo (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, 1972), esta destinada ao grupo MPB4 mas enviada à censura carioca como se fosse para disco do cantor Agnaldo Timóteo (1936 – 2021) em artimanha vitoriosa, o poeta divaga sobre o poder da criação (“A música é o que une a gente”) e o mistério da vida (“Tudo faz parte de uma mesma grande energia que muitos chamam de Deus”, acredita o poeta ateu, mas dono de expressivo cancioneiro sobre as religiões de matriz afro-brasileira) em fluxo de pensamento que faz todo o sentido quando os diretores exibem na tela gravações das músicas de Pinheiro nas vozes de Clara Nunes (1942 – 1983) e João Nogueira (1941 – 2000), entre outros cantores.
Com Nogueira, Pinheiro compôs a célebre trilogia do alumbramento – Súplica (1979), O poder da criação (1980) e Minha missão (1981) – ouvida neste filme em que o poeta compositor, cantor eventual, dá voz ao samba Nomes de favela (Paulo César Pinheiro, 2003) na intimidade da sala da casa, rodeado pela mulher, Amélia Rabello, e pelos filhos Ana e Julião, dos quais virou parceiro.
Enfim, pelas frestas da janela que o poeta abre no limite da intimidade consentida, Paulo César Pinheiro revela ao espectador a sensibilidade da alma que gera músicas eternizadas na memória da canção popular do Brasil.