Filme sobre Garoto foca ‘o Brasil mais bonito que poder haver’ ao dar o devido valor ao moderno violonista dos anos 1940 e 1950


Produzido com esmero, o documentário ‘Garoto – Vivo sonhando’ está em cartaz até 20 de setembro na programação online de festival do gênero. Resenha de documentário musical
Título: Garoto – Vivo sonhando
Direção: Rafael Veríssimo
Direção musical: Henrique Gomide
Idealização: Henrique Gomide, Lucas Nobile e Rafael Veríssimo
Produção: TC Filmes e Lente Viva Filmes
Cotação: * * * * *
♪ Filme em exibição online no 12º In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical até 20 de setembro.
♪ Quando discorre com entusiástica admiração sobre Garoto após tocar Nosso choro (1950), um dos temas mais arrojados da obra do compositor e violonista paulistano, o músico gaúcho Yamandu Costa – expoente do violão brasileiro a partir dos anos 2000 – defende que o artista simboliza “o Brasil mais bonito que poder haver”.
É esse Brasil modernista, possível, que o cineasta Rafael Veríssimo repõe em foco, com esmero, no documentário Garoto – Vivo sonhando, em cartaz até 20 de setembro na programação online da 12ª edição do In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical.
Sustentado pela sólida pesquisa feita por Veríssimo com Lucas Nobile e Jorge Mello, biógrafo de Garoto, o filme dá o devido valor a Aníbal Augusto Sardinha (28 de junho 1915 – 3 de maio 1955) ao contar a história do violonista.
O apuro da estética visual – perceptível no contraste das cores vivas dos takes do presente com o tom amarelado das (muitas) imagens dos passado – exemplifica o excelente acabamento do documentário. Contudo, é pela riqueza do conteúdo apresentado ao longo de 102 minutos que Garoto – Vivo sonhando se impõe como obra-prima do gênero.
Se o espectador nunca ouviu falar do violonista, ele saberá ao fim do filme porque Garoto é considerado tão importante para músicos do porte de Baden Powell (1937 – 2000), cujo depoimento introduz o documentário antes dos créditos iniciais.
A propósito, o tom superlativo dos depoimentos de violonistas do mais alto quilate corrobora, no presente, a história contada a partir de documentos do passado e das reproduções de áudios de testemunhas fundamentais da história, como as duas esposas do músico.
A leitura de trechos de diário de Garoto, ouvidos na voz do ator Antonio Miano, dá veracidade à reconstituição dos passos profissionais do violonista e compositor, autor do requintado samba-canção Duas contas (1951), composto sem rimas, como ressalta o violonista Fafá Lemos (1921 – 2004).
Passado e presente se alternam no filme para corroborar a tese de que, sim, Garoto foi genial mágico do violão que influenciou violonistas da bossa nova (mas não somente dela…) como Roberto Menescal e Carlos Lyra, fato comprovado por ambos no filme.
“Duas contas foi um hino da bossa nova”, testemunha Lyra. “Garoto moralizou o violão”, sintetiza Zé Menezes (1921 – 2014), indo mais além, em entrevista concedida para o filme. Dado a Lucas Nobile, responsável pelas entrevistas, o depoimento de Zé Menezes é fundamental porque o violonista foi testemunha ocular da história de Garoto por ter trabalhado com o músico na Rádio Nacional a partir de 1947.
Por ter sido prodígio do violão desde pequeno, o que gerou de forma casual o nome artístico Garoto quando o radialista César Ladeira (1910 – 1969) caracterizou Aníbal como “o garoto que toca violão” ao esquecer o nome do artista que apresentava no programa de rádio, Aníbal Augusto Sardinha conseguiu deixar legado tão influente mesmo tendo morrido a quase dois meses de fazer 40 anos.
Tanto que, em 1939, com 24 anos, Garoto já convidado a se juntar a Carmen Miranda (1909 – 1955) e ao Bando da Lua nos Estados Unidos, de onde voltou por não se sentir devidamente valorizado por Aloysio de Oliveira (1914 – 1995).
Garoto em imagem vista no documentário de Rafael Veríssimo sobre o violonista
Reprodução
Em essência, Garoto inovou ao apontar no violão tenor – violão com afinação de banjo – inusitados caminhos harmônicos que ajudaram músicos de gerações posteriores ao desbravar outras trilhas e trilhos para o violão brasileiro. “Garoto começou isso tudo, né? Se não fosse ele, a gente não estava aqui”, resume Raphael Rabello (1962 – 1995) em depoimento dos anos 1990.
Mesmo sendo o fundador da moderna escola do violão brasileiro, o instrumentista ficou esquecido por anos e, como conta Jorge Mello, biógrafo de Garoto, o legado do músico somente começou a ser reavaliado nos anos 1980 com a descoberta de gravações caseiras em poder de Ronoel Simões.
Essas gravações nortearam o violonista Paulo Belinatti (um dos entrevistados do filme) na gravação do álbum Garoto (1986), idealizado em tributo ao músico que abriu tantos caminhos e que conseguiu realizar o sonho de tocar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – sonho admitido pelo próprio Garoto em trecho do diário lido no filme.
Como Rafael Veríssimo documenta, esses diários também guardavam mágoas de Garoto por ser obrigado a tocar em bailes para fechar as contas no fim do mês. Contas que ficaram mais leves quando, em 1954, o compositor alcançou o sucesso popular com o dobrado São Paulo Quatrocentão, feito em parceria com Chiquinho do Acordeom (1928 – 1993).
Menor no contraponto com a grandeza da obra e do legado de Garoto, o dobrado alcançou retumbante êxito um ano da morte do violonista, vítima de infarto fulminante.
Talvez por embutir no coração “um pote até aqui de mágoa” por jamais ter recebido as flores em vida (“A única alegria que um músico tem é (o reconhecimento de) outro”, lamenta Dori Caymmi), Garoto se foi, deixando história perpetuada nesse fundamental documentário de Rafael Veríssimo que põe em cena “o Brasil mais bonito que poder haver”.