Filme sobre ‘anos de chumbo’ na Itália divide opiniões em Veneza


”Padrenostro’ não é um manifesto político, nem tem uma leitura histórica’, defende o diretor Claudio Noce, que quer passar uma mensagem a favor da ‘reconciliação’. Diretor italiano Claudio Noce chega para exibição do filme “Padrenostro” durante o 77º Festival de Veneza
Tiziana FABI / AFP
O filme autobiográfico “Padrenostro” do italiano Claudio Noce, sobre os violentos anos da década de 1970, que está competindo no Festival de Veneza, dividiu opiniões e lançou um debate sobre o perdão e a reconciliação.
Pelos olhos de uma criança, baseada em Noce, cujo pai era um chefe policial vítima de um tiroteio em frente a sua casa, o filme narra os complexos “anos de chumbo” na Itália nas décadas de 1960 e 1970.
O país foi atormentado por inúmeros assassinatos, sequestros e ataques a trens, prédios públicos e eventos políticos perpetrados por grupos armados de extrema direita e extrema esquerda.
Festival de Veneza 2020; FOTOS
“O filme não consegue comunicar a verdade”, disse Emilio Monreale, crítico do jornal La Repubblica. “Usa a mesma estrutura dos filmes feitos para a televisão… esse imaginário está desgastado”, criticou o jornalista.
Tratar de um tema tão delicado, marcado pela escalada da violência, com sequestros e assassinatos por motivos ideológicos, é tocar em uma ferida profunda que aparentemente não foi fechada.
“‘Padrenostro’ não é um manifesto político, nem tem uma leitura histórica”, defendeu Noce, que quer passar uma mensagem a favor da “reconciliação”.
Segundo o cineasta, contar sua memória do atentado sofrido pelo pai em Roma em 1976, que destruiu sua família e desencadeou uma série de medos, foi “uma jornada longa e dolorosa”. “Esses fatos foram apagados por nossa família por anos”, disse.
Uma geração invisível
Por meio de “Padrenostro”, o realizador quis também dar a palavra àquelas crianças que ouviam escondidas na cama os pais falando sobre o que acontecia e que, atrás de uma porta ou espionando telefonemas, descobriam a realidade.
Para isso, ele reconstruiu seu próprio apartamento, as roupas, os carros e as ruas de uma Itália que crescia economicamente. “É a leitura de toda uma geração sobre esse passado, em busca de superá-lo”, analisou outro crítico, Adriano De Grandis, no jornal Gazzettino di Venezia.
Os sentimentos do pequeno Valerio, interpretado pelo menino Mattia Garaci, são tão invisíveis quanto os de Christian, um garoto de 14 anos que aparece sem explicação em sua vida e o ajuda a superar gradativamente seu trauma.
“Nós de 50 anos somos uma geração que não participou de grandes acontecimentos históricos e ficou encurralada”, resumiu o ator Pierfrancesco Favino, que interpreta o pai e é co-produtor do filme.
“Sentimos a vulnerabilidade dos nossos pais e de alguma forma crescemos com esses medos, com a ideia de que algo nos pudesse acontecer. Com isso a minha infância foi rompida”, confessou Favino, nascido em 1969.
O ex-ministro de extrema-direita Matteo Salvini, que é da mesma geração, esteve na sessão de gala do longa, gesto que gerou polêmica.
“Não é um filme que se pode manipular politicamente. Não defende a polícia nem é contra a guerrilha. O que queríamos era contar como foi nossa infância nesses anos. Essa é a verdadeira mensagem política”, argumentou Favino.