Filipe Catto canta a metamorfose dos amores marginais em libertário espetáculo de vídeo-arte


Alma Negrot e Maria Alcina fazem boas intervenções em cena pontuada por beleza plástica que valoriza números musicais com sucessos de Carmen Miranda, Lou Reed, Pabllo Vittar, Novos Baianos e Secos & Molhados. Resenha de espetáculo pré-gravado em vídeo
Título: Metamorfoses (da série Instantâneas – A música em foto)
Artista: Filipe Catto com intervenções de Alma Negrot, Ciro Barcelos e Maria Alcina
Local: Transmissão no canal do Instituto Moreira Salles (IMS) no YouTube
Data: 3 de julho de 2021, às 21h
Cotação: * * * *
♪ Intérprete de pulso teatral que entrou em cena em 2009, Filipe Catto vem se metamorfoseando nos últimos anos. A adoção do gênero feminino pela artista se completa às 21h deste sábado, 3 de julho de 2021, com a transmissão do espetáculo Metamorfoses, título inaugural da série Instantâneas – A música em foto, produzida pelo Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo com a intenção de promover a interação entre música e fotografia.
A série tem curadoria de Juliano Gentile, que assina com Catto a direção artística e o roteiro do espetáculo gravado com intervenções de Alma Negrot, Ciro Barcelos e Maria Alcina.
A inspiração do espetáculo é a exposição As Metamorfoses – Travestis e transformistas na São Paulo dos anos 70, inaugurada em 9 de fevereiro pelo IMS paulista, onde fica em cartaz até 26 de setembro com imagens libertárias registradas em tempos ditatoriais pela fotógrafa Madalena Schwartz (1921 – 1993).
É nas dependências do IMS paulista que, entre vários cenários, Catto dá voz a músicas que pregam a liberdade de transitar por outros lados da vida, inclusive pelas margens. Não é por acaso que o roteiro abre com Barra pesada (1985), versão em português – escrita por Claudia Wonder (1955 – 2010), ícone da cena LGBTQIA+ brasileira – de Walk on the wild side (Lou Reed, 1972), hino da marginália londrina nos anos 1970. O fecho, igualmente emblemático, é com Dê um rolê (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1971), hino da contracultura nacional na mesma época.
Entre um número e outro, Catto – intérprete cujo canto atingiu ponto de maturação, sem os eventuais excessos do início da discografia – atualiza a cena ao dar voz a Amor marginal (Johnny Hooker, 2012) e a Seu crime (Arthur Marques, Diplo, Gorky, King Henry, Maffalda, Pablo Bispo, Philip Meckseper e Zebu, 2018) músicas recentes, propagadas em gravações de Johnny Hooker e Pabllo Vittar, vozes de cena que já ousa dizer o nome com orgulho.
Harmonizando músicas de David Bowie (1947 – 2016) e da dupla No Porn no roteiro conceitual, Metamorfoses é espetáculo concebido fora da forma convencional dos shows. O que se vê são sequências de vídeos-arte filmados em preto e branco com impactante beleza plástica que valoriza os números musicais.
Alma Negrot roça o sublime ao interpretar ‘Androginismo’ no espetáculo ‘Metamorfoses’
Iago Mati / Divulgação IMS SP
Apresentada em imagens excepcionalmente azuis, a abordagem climática de Androginismo (Kledir Ramil, 1978) por Alma Negrot – performer residente da festa paulistana de música eletrônica Mamba Negra – beira o sublime, contrastando com a informalidade com que o elenco revive Esse cara (Caetano Veloso, 1972) na sala de maquiagem em dois takes, sendo que, no segundo, a canção homoerótica cai no suingue do samba.
Intérprete também performática, a cantora Maria Alcina sola o medley que jorra Sangue latino (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1973) e Amor (João Ricardo e João Apolinário, 1974), dois sucessos do grupo Secos & Molhados, facho de luz na escuridão do Brasil dos anos 1970. Amor ganha ruído roqueiro que salta do toque da guitarra de João Inácio da Silva, diretor musical do espetáculo.
Os convidados brilham sem anular o protagonismo de Catto, que oferece interpretação seca do bolero Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco e Aldir Blanc, 1974) e exalta o poliamor na libertária Canção de engate (1984), joia do repertório do cantor e compositor António Variações (1944 – 1984) – ícone da cena LGBTQIA+ portuguesa dos anos 1980 – já lapidada por Catto em gravação para álbum lançado em novembro de 2017.
E tudo (quase) acaba em samba, marcha e rumba no pot-pourri que, antes do solo final de Catto em Dê um rolê, carnavaliza a cena com Chica chica boom chic (Harry Warren e Mack Gordon, 1941), Alô, alô (André Filho, 1934), Como vaes você? (Ary Barroso, 1936) e Me dá, me dá (Cícero Nunes e Portello Juno, 1937), sucessos na voz pioneiramente tropicalista de Carmen Miranda (1909 – 1955), brazilian bombshell que disseminou mundo afora imagem colorida e folclórica do Brasil, país onde a violência explode nos becos escuros, vitimando a população LGBTQIA+, ao mesmo tempo em que brilham as cores vivas do arco-íris.
Por isso mesmo, não se assuste, pessoa: ao se posicionar a favor da vida e da liberdade, o espetáculo Metamorfoses é amor da cabeça aos pés.
Filipe Catto assina o roteiro e a direção do espetáculo com Juliano Gentile
Iago Mati / Divulgação IMS SP
♪ Eis as 18 músicas do roteiro seguido por Filipe Catto com intervenções de Alma Negrot, Ciro Barcelos e Maria Alcina no espetáculo de vídeo-arte Metamorfoses :
1. Barra pesada (Walk on the wild side, Lou Reed, 1972, em versão em português de Claudia Wonder, 1985)
2. Seu crime (Arthur Marques, Diplo, Gorky, King Henry, Maffalda, Pablo Bispo, Philip Meckseper e Zebu, 2018)
3. Do fundo do coração (Taciana Barros e Júlio Barroso, 1985) /
4. Xingu (Liana Padilha e Luca Lauri, 2006)
5. Androginismo (Kleiton Kledir, 1978)
6. Invocação (DJ Jojô Lonestar)
7. Esse cara (Caetano Veloso, 1972)
8. Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco e Aldir Blanc, 1974)
9. Sangue latino (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1973) /
10. Amor (João Ricardo e João Apolinário, 1974)
11. Canção de engate (António Variações, 1984)
12. Amor marginal (Johnny Hooker, 2012)
13. Rebel rebel (David Bowie, 1974)
14. Esse cara (Caetano Veloso, 1972) – sequência do número 7
15. Chica chica boom chic (Harry Warren e Mack Gordon, 1941) /
16. Alô, alô (André Filho, 1934) /
17. Como vaes você? (Ary Barroso, 1936) /
18. Me dá, me dá (Cícero Nunes e Portello Juno, 1937)
19. Dê um rolê (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1971)