Festival de Veneza exibe seu lado mais feminista em 2020


Com oito mulheres contra dez homens na disputa pelo Leão de Ouro, evento não apenas se aproxima da debatida paridade, mas também aposta em um cinema com argumentos femininos. Patrick Kennedy, Susanna Nicchiarelli e Romola Garai chegam à exibição de ‘Miss Marx’ no Festival de Veneza 2020
Alberto Pizzoli/AFP
Em uma edição marcada pelo coronavírus, o feminismo dominou a semana no Festival de Veneza, com filmes que narram as combativas e difíceis vidas das mulheres.
Por anos criticado pela ausência de diretoras na mostra oficial, o festival italiano exibe em 2020 o seu lado mais feminista.
Com oito mulheres contra 10 homens na disputa pelo Leão de Ouro, a Mostra não apenas se aproxima da debatida paridade, mas também aposta em um cinema com olhar feminista e com argumentos muito femininos.
Este é o caso da trágica vida da filha de Karl Marx, narrada no filme “Miss Marx” da italiana Susanna Nicchiarelli, muito elogiado pela crítica.
A filha mais nova do pai do comunismo, Eleanor, foi uma das primeiras mulheres a associar a luta por igualdade das mulheres com a luta de classes do fim do século XIX.
“Todas somos Miss Marx”, escreveu a crítica Teresa Marchesi no site Huffpost, em referência à história atormentada de uma mulher inteligente e brilhante, que acreditava no poder libertador da cultura e da arte, mas que cometeu suicídio aos 43 anos por um relacionamento amoroso tortuoso, desgastada pela infidelidade do companheiro.
O filme sobre a filha mais nova de Marx, nascida em Londres em 1855, é um hino ao feminismo e combina linguagens diferentes, imagens do século XIX com música ultramoderna, misturando, como aconteceu na vida da protagonista, razão e sentimento.
“‘Miss Marx’ é o filme socialista e feminista que o cinema e o mundo atual precisam”, afirma o jornal especializado “Fotogramas”.
“Não, eu não definiria como um filme feminista”, declarou a diretora, antes de destacar, no entanto, que Eleanor foi “a primeira a utilizar o socialismo para seu discurso feminista e a falar de feminismo em termos econômicos”.
Completamente diferente, mas com uma temática também muito feminina, é o filme “Pieces of a Woman”, do diretor húngaro Kornél Mundruczó.
Dirigido por um homem, o longa-metragem narra a história de uma mulher que perde o bebê depois do parto.
A produção, com licenças poéticas algo banais, descreve a perda, a dor e aborda os sentimentos inexplicáveis que uma tragédia provoca até acabar com uma família.
Com roteiro de Kata Wéber, esposa do diretor, o filme descreve as fases do luto: negação, ira, depressão e finalmente aceitação.
Protagonizado pela atriz inglesa Vanessa Kirby, conhecida pela série de TV “The Crown”, a produção começa com uma cena impressionante de parto em casa, que dura quase 40 minutos e foi filmado em apenas uma tomada.
“Minha esposa e eu queríamos compartilhar com o público uma de nossas experiências mais pessoais, com a história de um menino que nasce morto, com a esperança de que a arte possa ser o melhor remédio para a dor”, confessou o cineasta.
História com H maiúsculo
Dois filmes, também na mostra competitiva, abordam dores e tragédias coletivas a partir do ponto de vista de uma mulher.
Este é o caso de “Quo Vadis, Aida?”, produção bósnia da diretora Jasmila Zbanic sobre o massacre de Srebrenica.
A protagonista, Jasna Duricic, interpreta uma mãe que tenta salvar, sem sucesso, a família. A atriz já é considerada uma das favoritas ao prêmio Copa Volpi por sua atuação.
Mais que o feminismo, a transformação de uma mulher com ideais ferrenhos inspira o renomado e premiado diretor, roteirista e produtor russo Andrei Konchalovsky para seu filme “Dorogie tovarischi” (“Queridos camaradas”).
O cineasta de 83 anos, com uma extensa filmografia, é um dos favoritos ao Leão de Ouro com um longa-metragem que narra um massacre que realmente aconteceu na União Soviética em junho de 1962 e que permaneceu em sigilo por décadas.
Konchalovsky, vencedor de dois Leões de Prata (2016 e 2014), volta ao Lido com um filme em preto branco, de duas horas de duração, sobre a História com H maiúsculo e contada através dos olhos de uma mulher, militante convicta do Partido Comunista local, que abandona os ideais depois de presenciar o massacre cometido na cidade soviética de Novocherkassk, durante o qual sua filha desaparece.
Para reprimir as greves e protestos, soldados do exército e agentes da KGB abriram fogo contra os manifestantes: 26 pessoas desarmadas morreram, mais de 200 foram detidas e sete foram condenadas a morte.
“Meu filme é um tributo à geração que viu a derrubada de seus ideais e mitos”, explicou Konchalovsky.