Femi Kuti, filho do rei do afrobeat, fala sobre show no Brasil e do interesse pelo gênero hoje em dia


Músico nigeriano se apresenta nesta quinta (12) em São Paulo e no sábado (14) em São José dos Campos, dentro do festival Nublu. O músico nigeriano Femi Kuti, que se apresenta no Brasil
Cristina Granato
Uma das principais marcas do afrobeat são os ritmos lentos e hipnóticos que duram longos minutos, numa espécie de preâmbulo para o momento em que a música explode em batidas dançantes. É uma comunhão entre banda e público que envolve paciência, concentração e envolvimento. Três itens que vêm se tornando raros na vida atual, mas o gênero segue atraindo a atenção de novas gerações. Femi Kuti, filho de Fela Kuti, o maior nome do afrobeat na história, vem defender esse legado em duas apresentações no Brasil e mostrar as conexões do ritmo com roupagens mais modernas.
O músico faz um show esgotado nesta quinta (12) em São Paulo e outro em São José dos Campos, SP, no sábado (14), dentro do Nublu Festival, promovido pelo Sesc.
“Paciência é uma virtude [risos]”, diz o músico de 57 anos. “No caso do meu afrobeat… eu entendo que o mundo hoje se move muito rápido. Meu pai podia fazer qualquer coisa e todos achavam bom. Se eu fizesse como ele, acho que o público ficaria impaciente. Eu preciso estar na vanguarda. Então, meu afrobeat nesse cont’exto é bem diferente”, afirma.
Femi Kuti passou anos tocando saxofone na banda do pai, a Egypt 80, até se sentir maduro para embarcar na carreira solo. Quando o pai morreu em 1997, por complicações relacionadas à Aids, Femi tomou a frente do legado de Fela, algo esperado para um primogênito segundo a tradição nigeriana.
O filho do rei do afrobeat fez esforços para popularizar o gênero, com turnês ao lado de bandas de rock como Red Hot Chili Peppers e Jane’s Addiction e parcerias com os rappers Mos Def e Common.
Sobre o que planeja para as performances brasileiras, o músico cita qualidades menos materiais: “Eu quero que eles [o público brasileiro] sintam o que eu sinto. Quero espalhar amor, paz, justiça, a preocupação pela mudança climática e coisas como igualdade”, diz Femi, que não por acaso tem uma banda de apoio chamada Positive Force.
“Quero que os brasileiros sintam a energia do shrine [santuário].” Ele se refere ao New Afrika Shrine, um centro cultural em Lagos, cidade mais importante da Nigéria, que homenageia vida e obra de Fela Kuti. Foi inspirado no antigo Shrine que Fela manteve nos anos 1970 como um espaço de manifestação artística e política e, por isso mesmo, foi alvo de violenta perseguição do governo nigeriano à época.
Como o pai, Femi conserva uma alta carga política em suas convicções. Primeiro ele fala algo que a maior parte das pessoas consideraria justo: “Nós temos que continuar pedindo para que as pessoas lutem por justiça. Será provavelmente uma luta para sempre. E é por isso que não podemos perder a esperança. Não podemos pensar que a batalha está perdida ou vencida. Talvez essa seja a essência da vida”.
Depois, o herdeiro do trono do afrobeat engata uma posição que pode surpreender muitos: ele não acredita na democracia como um sistema eficaz. “Não é um sistema honesto nem justo. Não é porque 90% das pessoas são a favor de algo que essa posição é a mais acertada. A tradição africana é sobre estar todos juntos. Se alguém não concorda com o rumo de algo, é importante ouvir essa posição.”
Fela Kuti, com todo o simbolismo de uma luta por justiça e pela luta pelos oprimidos, tem sua imagem criticada nos dias de hoje como um sexista. Ele chegou a se casar com 27 mulheres numa espécie de harém. “Meu pai é meu pai. Só posso falar por mim mesmo. Mas na tradição africana mulheres se tornavam rainhas ou chefes. Líderes. Você via mulheres no poder na África. Mas o cristianismo e o islamismo distorceram a cultura africana. Foram a escravidão e o colonialismo que trouxeram esses modelos em que a mulher é desrespeitada”.