Felipe de Oliveira ilumina mundo de sombra sob a ótica afetuosa do álbum ‘Terra vista da lua’


Cantor mineiro dá voz a compositores conterrâneos em disco que inclui ‘Balada do lado sem luz’, de Gilberto Gil. Capa do álbum ‘Terra vista da lua’, de Felipe de Oliveira
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Resenha de álbum
Título: Terra vista da lua
Artista: Felipe de Oliveira
Edição: Under Discos
Cotação: * * * 1/2
♪ Composição de Gilberto Gil lançada na voz de Maria Bethânia no álbum Pássaro proibido (1976), Balada do lado sem luz ganha a voz de Felipe de Oliveira, iluminando caminhos e recantos escuros trilhados pelo cantor mineiro no segundo álbum, Terra vista da lua.
Disco que versa sob a afirmação afetiva em dimensão política, na ótica do artista, Terra vista da lua mira a produção autoral de compositores mineiros, se conectando, por esse viés, ao primeiro álbum do cantor, Coração disparado (2018). É como se o cantor tirasse da sombra canções que merecem ficar sob a luz desse disco produzido pelo baixista Barral Lima sob a direção artística do próprio Felipe de Oliveira.
Música que abre o álbum, introduzida pelo toque da guitarra de André Milagres, Descasos (Juliano Antunes) é balada com pegada de blues que ecoa o cancioneiro de Belchior (1946 – 2017), dando a pista certeira de repertório que versa sobre afetos em mundo distópico.
Canção pautada inicialmente pela marcação quase fúnebre da bateria de João Paulo Drummond, Irmão (Tom Custodio) segue no mesmo clima fraterno, ganhando coro encorpado com as vozes de Babaya Morais e Gabriel Mestro.
Menos andrógino do que no álbum anterior Coração disparado, mas nem por isso menos afirmativo das bandeiras hasteadas pelo disco de 2018, o canto de Felipe de Oliveira acerta o tom do afago feito por Cara da esquina (Dé de Freitas e Guilherme Borges), canção de melodia fluente.
Felipe de Oliveira lança o segundo álbum, gravado com produção musical do baixista Barral Lima
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Abrindo o que se pode entender como a segunda metade do álbum (ou o lado B de um LP se houvesse edição em vinil), Baby (Nobat) é faixa que ganha pulso roqueiro ao fim sem se configurar exatamente como rock.
Na sequência, Eu queria tanto fazer um samba – música inédita do compositor Dan Nakagawa, paulista (assim como o já citado Tom Custodio) que se acomoda bem no ninho mineiro – evolui em cadência seca, numa batida fria condizente com a energia de disco que recusa a euforia em canções que buscam acender a luz da vida enquanto transitam por mundo de sombra.
Nessa jornada, o canto é a chama que ilumina Encontro nosso (Laura Catarina), faixa que marca a união vocal de Felipe de Oliveira com a cantora Laila Garin, ouvida em registro menos dramático do que o habitual.
Assentada sobre a percussão de João Paulo Drumond, mas com intervenções incisivas da guitarra sobressalente de André Milagres, Terra de ladeiras (Tátio Abreu) fecha álbum que perde um pouco o poder de sedução na segunda metade das oito faixas sem deixar de se impor como bom disco que reitera o talento de Felipe de Oliveira como cantor e como arquiteto de narrativa musical pavimentada com canções alheias que, reunidas, dão um norte ao álbum Terra vista da lua.
Sob tal prisma, o disco Terra vista da lua confirma o canto do artista como promessa de esperança e mais amor no horizonte no mundo de sombra.