Fafá de Belém explica o Brasil sintetizado em ‘Tamba-tajá’, álbum lançado há 45 anos


Cantora é a convidada do sexto e último episódio da série ‘Muito prazer, meu primeiro disco’. Fafá de Belém em entrevista da série ‘Muito prazer, meu primeiro disco’
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♪ MEMÓRIA – “É Brasil”, resume Fafá de Belém, ao caracterizar o disco Tamba-Tajá (1976), em determinado momento da entrevista em que detalha a gênese do primeiro álbum da discografia da artista, lançado há 45 anos.
Pela habitual eloquência (“Eu adoro falar”, admite) e pela prodigiosa memória, a cantora paraense valoriza o sexto e último episódio da série Muito prazer, meu primeiro disco, idealizada pelo jornalista Lucas Nobile e produzida com curadoria de Nobile e de Zuza Homem de Mello (1933 – 2020) até a morte deste jornalista e escritor paulistano em 4 de outubro do ano passado.
Após entrevistas concedidas por Chico Buarque, Gilberto Gil, João Bosco, Leci Brandão e Alcione sobre os respectivos primeiros álbuns destes artistas, coube a Maria de Fátima Palha de Figueiredo encerrar a série com depoimento vivaz – com direito às notórias gargalhadas da cantora – em que explica aos jornalistas Adriana Couto e Lucas Nobile o processo de criação e gravação do álbum Tamba-tajá.
A entrevista de Fafá na série Muito prazer, meu primeiro disco ficará disponível a partir das 20h de sábado, 8 de maio, na plataforma Sesc Digital e no canal do Sesc Pinheiros no YouTube.
Lançado em 1976 via Polydor, selo dedicado pela gravadora Phonogram aos artistas mais populares, o álbum Tamba-tajá veio ao mundo um ano após Fafá ter alcançado projeção nacional com a gravação do samba de roda Filho da Bahia (Walter Queiroz, 1975) para a trilha sonora da novela Gabriela, exibida pela TV Globo.
O estouro de Fafá com Filho da Bahia motivara Jairo Pires a oferecer um contrato para a cantora integrar o elenco da Polydor, gravadora onde a artista debutara ainda em 1975 com a edição de single duplo com as músicas Emoriô e Naturalmente, parcerias de João Donato com Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente.
Na época, Fafá já incorporara ao nome artístico o nome da cidade paraense, Belém (PA), em que nascera em 9 de agosto de 1956.
Na concepção de Tamba-tajá, álbum em que Fafá fez as honras da casa ao gravar Pode entrar (Walter Queiroz, 1976), a origem nortista da cantora foi usada como cartão-de-visitas para consolidar a artista no mercado fonográfico brasileiro – a começar pela imagem amazônica vendida pela capa, cujo foto, a rigor, tinha sido tirada por João Castrid na Floresta da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), como revela a artista na fluente entrevista da série Muito prazer, meu primeiro disco.
Lucas Nobile mostra a capa do álbum ‘Tamba-tajá’, de Fafá de Belém, no episódio da série ‘Muito prazer, meu primeiro disco’
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De fato, o curso das águas do norte atravessa o álbum Tamba-tajá em faixas como Esse rio é minha rua e Indauê Tupã, duas músicas de Paulo André e Ruy Barata, compositores que seriam recorrentes na discografia de Fafá nos anos 1970, década em que, devido ao etnocentrismo orquestrado por Rio de Janeiro e São Paulo, a artista era caracterizada como cantora “regional”.
Por mais que demarcasse território amazônico ao dar voz à música que batizou o disco, Tamba-tajá (1949), emblema do compositor, pianista e maestro paraense Waldemar Henrique (1905 – 1975), nome referencial no universo musical do norte do Brasil, Fafá criou e gravou – guiada pelo produtor Roberto Santana, com quem vivia entre tapas e beijos – álbum de sotaque brasileiro.
Realçar o Brasil sintetizado nas 13 faixas do álbum Tamba-tajá é a maior contribuição de Fafá à memória discográfica nacional quando discorre com leveza sobre o LP na conversa conduzida por Adriana Couto e Lucas Nobile.
O álbum Tamba-tajá parte de Belém, passa pelo nordeste brejeiro de Luiz Gonzaga (1912 – 1989) – de quem Fafá regrava Xamego (1944), parceria do Rei do baião com Miguel Lima – e chega ao sul através dos registros de duas épicas canções dos pampas gaúchos, Guadêncio sete luas (Luiz Coronel e Marco Aurélio Vasconcelos, 1975) e Vento negro (Fogaça, 1975), composições apresentadas no ano anterior pelo grupo gaúcho Almôndegas, de cujo repertório a cantora e Roberto Santana também pescaram Haragana (Quico Castro Neves, 1975).
Ao longo dessa travessia nacional, o disco Tamba-tajá mergulha nas águas afro-brasileiras que banham a Bahia de todos os santos e orixás – com o registro do então recente samba Siriê (Edil Pacheco e Paulo Diniz, 1975) – e passa pelo sertão mineiro de Fazenda (Nelson Angelo, 1976) sem deixar de adentrar o universo sem fronteiras e sem sotaques das canções de (des)amor demais.
Fafá de Belém valoriza, pela eloquência e memória prodigiosa, o último episódio da série ‘Muito prazer, meu primeiro disco’
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Fafá conta na entrevista que driblou a resistência inicial do produtor Roberto Santana e fez valer a decisão de regravar o samba-canção Fracasso (Mário Lago, 1946) – lançado há então 30 anos na voz do cantor Francisco Alves (1898 – 1952) – como homenagem à mãe, Eneida, que vivia cantarolando a música pela casa.
Fracasso fechou o lado B da edição original em LP do álbum Tambá-tajá na mesma frequência sentimental da resignada Canção da volta (Antonio Maria e Ismael Netto, 1954), alocada ao fim do lado A do LP, formato principal do álbum também editado em cassete e dedicado por Fafá a Milton Nascimento e a Roberto Carlos.
Mais do que um tributo à mãe, a firme resolução de regravar Fracasso já era sinal da veia despudoradamente romântica que iria saltar com força na discografia de Fafá a partir dos anos 1980.
Antes de diluir essa imagem “regional” para priorizar um repertório romântico de tom universal, movimento iniciado com o álbum Essencial (1982), Fafá foi de 1976 a 1980 a porta-voz mais popular dos sons da cultura amazônica, dos índios e dos caboclos marajoaras na indústria brasileira do disco.
Com tal autoridade, Fafá pediu para que a música Indauê Tupã – cujo nome indígena significa “Com licença, meu Deus, e proteção”, como a cantora faz questão de ressaltar ao fim da entrevista – fosse gravada com tocadores de carimbó trazidos de Belém (PA). “Eram outros tempos”, reconhece a artista, com certa nostalgia, em alusão ao modus operandi da indústria fonográfica na época.
Entre elogios ao produtor do álbum (“Roberto Santana foi o cara que me deu um norte na vida”) e ao próprio disco (“Tamba-tajá é um disco vivo” e “É um disco pelo qual tenho paixão e que penso em regravá-lo”), Fafá celebra as presenças na gravação, feita em estúdio, de músicos do naipe do flautista Altamiro Carrilho (1924 – 2012) e do sanfoneiro Dominguinhos (1941 – 2013).
“Dominguinhos era de delicadeza tão grande quanto o músico que ele foi”, lembra a cantora, que apresentou música inédita de Caetano Veloso, Cá já, feita para ela, no repertório de Tamba-tajá, disco em que Fafá de Belém apresentou um Brasil visto a partir do norte, mas não restrito à região amazônica. Disco que, 45 anos após o lançamento, ainda serve de norte para apresentar essa grande cantora do Brasil.
Muito prazer, se você não sabe ainda, ela é Fafá, a que gosta da vida e do suingue brasileiro do tamanho certo para o largo sorriso.