Exército Brasileiro planeja lançar game gratuito de tiro para tentar melhorar imagem entre jovens


Jogo no estilo ‘CS:GO’ e ‘Rainbow Six Siege’ será on-line com gráficos realistas e inimigo fictício, mas sem muita violência e confronto em favelas. Previsão de lançamento é para 2021. O Exército Brasileiro planeja lançar um game de tiro em primeira pessoa online, nos moldes de títulos de sucesso como “CS:GO” e “Rainbow Six Siege”, até 2021.
O projeto, chamado “Missão Verde-Oliva”, foi divulgado em portaria do órgão em 10 de junho e tem como objetivos “criar impressões positivas sobre o Exército Brasileiro nas faixas etárias de 16 a 24 anos”, “ampliar a integração do Exército à sociedade” e conscientizar da “importância dos assuntos de defesa do país”.
O jogo para computadores será gratuito e o objetivo é ter 15 mil jogadores on-line e 3 milhões de downloads em até dois anos.
A comissão formada para o projeto tem três meses para avaliar a viabilidade do desenvolvimento do game, que deve ficar sob responsabilidade de um estúdio brasileiro de jogos. A equipe de avaliação usará as instalações do Resultados da pesquisa Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX).
A proposta é que “Missão Verde-Oliva” tenha gráficos realistas – “de alta qualidade”, como diz o documento – com a ação em primeira pessoa, em que o jogador vê a ação do ponto de vista do personagem.
Ele terá um modo história para um jogador para jogar sozinho, e um modo on-line para jogar contra outros jogadores. A história do game se passa em um Brasil do futuro, em 2025, “para evitar desdobramentos ligados ao atual contexto político” e o inimigo será um país invasor fictício.
Imagem de ‘America’s Army: Proving Grounds’, edição mais recente do game de tiro do exército dos Estados Unidos
Divulgação/AA
O jogo ainda deverá respeitar as realidades e as características de armamentos, uniformes e a velocidade do deslocamento de tropas a pé ou em veículos militares do Exército Brasileiro. Haverá a possibilidade de criação de personagens e os armamentos e uniformes que poderão ser usados serão os mesmos utilizados pelos militares brasileiros.
Para tentar evitar as costumeiras reclamações de jogadores que não cooperam durante partidas online, o Exército pretende criar um sistema de tribunal fictício, em que a pessoa será julgada e impedida de jogar por um determinado tempo como penalidade.
Entre as restrições do desenvolvimento, “Missão Verde-Oliva” não poderá mostrar muito sangue “para evitar a ideia de violência exagerada” e não mostrará confrontos em favelas. Além disso, o game permite jogar apenas como militar e nunca contra outros jogadores. O título terá apenas missões cooperativas online.
A portaria aponta risco de qualidade baixa do game e de recepção negativa pela sociedade é baixa, alegando que “o mercado de games no Brasil é consolidado”.
O G1 entrou em contato com o Exército para obter mais informações sobre o projeto e o estudo, mas o órgão informou “que os os questionamentos formulados ainda não estão em condições de ser respondidos”. “Os custos, as possibilidades de parcerias e os cenários de aplicação serão discutidos dentro do prazo concedido.”
Inspiração nos Estados Unidos
A iniciativa de um órgão de defesa lançar um game militar não é inédita. O exército dos Estados Unidos lançou em 2002 “America’s Army”, que recebeu novas versões até 2013. “America’s Army 5” está em desenvolvimento.
Além de ser um jogo on-line, o título também é usado para treinamento militar, além de informar e educar os cidadãos sobre as atividades das Forças Armadas do país.
“Missão Verde-Oliva”, segundo a portaria, é inspirado no game norte-americano, que inclusive é citado como exemplo.
Pesquisa com jovens
A portaria do Exército cita uma pesquisa do Massachusetts Institute of Technology (MIT) de 2008, que apontou que 30% dos jovens entre 16 e 24 anos melhoraram sua percepção dos militares com “America’s Army”.
Uma questão que a pesquisa do Exército deve levantar e que pode inviabilizar o projeto é o alto custo para se desenvolver um game de tiro em primeira pessoa de alta qualidade.
“America’s Army” começou o seu desenvolvimento em 2000 e, até 2009, os contribuintes americanos pagaram quase US$ 33 milhões (pouco mais de de R$ 154 milhões) para que as Forças Armadas do país lançassem as diversas versões e atualizações.
O valor é baixo quando comparado a títulos concorrentes de sucesso, como a franquia “Call of Duty”. Lançada anualmente, o jogo sempre está entre os mais vendidos do ano e sua versão de 2009, “Call of Duty: Modern Warfare 2”, está entre os games mais caros de todos os tempos, com um orçamento, na época, de US$ 250 milhões (mais de R$ 1,2 bilhão).
Estúdios brasileiros estão aptos?
Ao G1, um desenvolvedor de games que não quis se identificar acredita que os estúdios de games brasileiros estão prontos para fazer um trabalho de qualidade, mas que o projeto não será barato. Contudo, ele vê dificuldades no alcance da audiência, de 15 mil jogadores online e 3 milhões de downloads porque “Missão Verde-Oliva” não vai ter apelo superior aos jogos já disponíveis no mercado.
Embora seja um game gratuito, o Exército também está entrando em uma área onde os concorrentes são extremamente fortes. “Call of Duty: Modern Warfare”, lançado no final de 2019, é o maior deles, embora seja pago, e também há jogos muito estabelecidos como “Overwatch”, “CS:GO”, “Rainbow Six Siege”, para cita alguns.
Entre os jogos de tiro em primeira pessoa gratuitos, existe o sucesso recente “Valorant”, da Riot Games, e “Fortnite” que é um jogo de tiro em terceira pessoa, em que o jogador visualiza o personagem, e que é o game mais jogado da atualidade: em outubro de 2018, o título registrou 8,3 milhões de jogadores online ao mesmo tempo.