Ex-assistente de Ghosn se declara inocente na abertura de julgamento em Tóquio


Greg Kelly e a Nissan foram acusados de omitir uma remuneração de US$ 73 milhões para Ghosn; brasileiro está foragido no Líbano, após fuga de Tóquio. Greg Kelly, ex-colaborador de Carlos Ghosn na Nissan, foi a tribunal de Tóquio nesta terça (15)
Kiyoshi Ota/Pool via REUTERS
Greg Kelly, ex-colaborador de Carlos Ghosn na Nissan, acusado como ele de fraude financeira, declarou-se inocente nesta terça-feira (15) durante a abertura de seu julgamento em Tóquio, ao qual comparece sem o ex-chefe, que fugiu para o Líbano.
“Acredito que os elementos provarão que não violei as regras da Bolsa japonesa”, declarou Kelly no início do julgamento, que coincidiu com seu aniversário de 64 anos.
Ele chegou ao tribunal acompanhado de três advogados e de máscara de proteção contra a Covid-19, como todos os demais presentes na audiência.
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O julgamento deve ter duração de dez meses e acontece quase dois anos depois de sua detenção no Japão, que ocorreu no mesmo dia da prisão de Ghosn.
O ex-CEO da Renault e Nissan escapou da Justiça nipônica, o que significa que Kelly é o principal nome do processo, ao lado do grupo japonês, investigado como pessoa jurídica.
Um representante da Nissan confirmou nesta terça-feira que a empresa vai se declarar culpada. Greg Kelly e a Nissan foram acusados de omitir, de forma ilegal e intencional, nos relatórios anuais enviados à Bolsa pela montadora de 2010 a 2018 uma remuneração total de 9,2 bilhões de ienes (73 milhões de euros, 87 milhões de dólares) que Ghosn deveria receber mais tarde.
Detalhes sobre a fuga de Carlos Ghosn do Japão
Aparecido Gonçalves/Rafael Miotto/G1
Até 10 anos de prisão
“Nego as acusações. Não participei de uma conspiração criminosa”, afirmou Kelly no tribunal.
O ex-diretor jurídico da Nissan admitiu que trabalhou com outras pessoas, tanto interna como externamente, sobre uma forma “legal” de dar uma remuneração maior a Ghosn a partir de 2010, para dissuadi-lo de procurar outra empresa na qual receberia um salário maior.
Na ocasião, a Nissan tinha o interesse de manter o “executivo extraordinário que salvou o grupo da falência e que protegia ferozmente sua independência em relação a Renault”, insistiu.
No início de 2020, em sua primeira aparição pública em Beirute após a fuga do Japão, Ghosn reafirmou que foi vítima de um “golpe orquestrado” por alguns diretores da Nissan que desejavam derrubá-lo para evitar que transformasse a aliança Renault-Nissan em algo “irreversível”, embora isto não significasse a fusão das empresas.
A esposa de Greg Kelly, Donna, afirmou nesta terça-feira que a ausência de Ghosn no julgamento é “decepcionante” porque ele poderia ter prestado depoimento a favor de seu marido.
“Ghosn terá que assumir as consequências da escolha que fez ao fugir para o Líbano”, declarou à imprensa.
Kelly foi liberado após o pagamento de fiança no Natal de 2018, depois de passar mais de um mês em prisão provisória, mas com a proibição de abandonar o Japão, à espera do julgamento.
Ele pode ser condenado a até 10 anos de prisão.
Os advogados de defesa manifestaram à AFP a esperança de uma absolvição, apesar da taxa de condenação extremamente elevada (mais de 99%) nos casos penais no Japão.
A Nissan e a Promotoria afirmam que têm provas suficientes de que Ghosn tinha os pagamentos futuros assegurados e que, portanto, deveriam ter sido declarados nos relatórios da montadora, como estabelece a norma da Bolsa japonesa.
Os investigadores reuniram uma quantidade gigantesca de documentos no caso, mas a defesa de Kelly denunciou que teve acesso apenas a uma parte.
Testemunhas com medo
Outra desvantagem de peso: “As testemunhas estrangeiras, muito úteis para Kelly, não confiam no sistema judicial japonês, pois temem cair em uma armadilha e uma detenção ao desembarcar no Japão – como aconteceu com Kelly no fim de 2018”, lamentou recentemente um de seus advogados, James Wareham.
“Eles têm medo. Não virão ao Japão para testemunhar”, acrescentou.
A Promotoria e o tribunal rejeitaram o pedido de Kelly para que as testemunhas fossem ouvidas por videoconferência.
No fim de 2019, a Nissan aceitou pagar uma multa de 2,4 bilhões de ienes (quase 20 milhões de euros, 22 milhões de dólares) à Agência Japonesa de Serviços Financeiros (FSA) por ter omitido os pagamentos de Ghosn.
A empresa também aceitou pagar 15 milhões de dólares nos Estados Unidos em um acordo amistoso com as autoridades americanas sobre o mesmo caso.
Ghosn, que como Kelly defende sua inocência, aceitou pagar um milhão de dólares às autoridades americanas para evitar um processo nos Estados Unidos. Kelly pagou uma multa de 100.000 dólares.
Em um comunicado publicado em seu site, a Nissan afirma que fez uma “investigação interna sólida e exaustiva” que demonstrou que Ghosn e Kelly cometeram “intencionalmente atos inapropriados graves”.
O grupo também expressa “profundo pesar” pelo caso, que afetou sua reputação.
Entrevista de Ghosn ao Robert D´Avila:
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