Estudantes desistem do Enem por problemas financeiros, falta de internet e medo da Covid-19


G1 conversou com três estudantes de escolas públicas de Santos, no litoral de São Paulo, que relataram dificuldades enfrentadas durante a pandemia, que os fizeram desistir da prova. Gabrielly, Santiago e Camila desistiram da prova após consequências da pandemia
G1 Santos
A pandemia de Covid-19 fez com que estudantes desistissem de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que possibilita a entrada em universidades do país. Dificuldades como falta de acesso à internet para estudos durante o ensino remoto e o medo do contágio fizeram jovens adiarem o sonho da faculdade. O G1 conversou com três estudantes de escolas públicas de Santos, no litoral paulista, que relataram suas experiências e seus motivos para a desistência.
Gabrielly Barbosa Silva, de 18 anos, passou por dificuldades financeiras em boa parte da pandemia. Ela relata que a mãe perdeu o emprego, e as duas passaram a viver apenas com o auxílio emergencial. Preocupada com a situação em casa, e sem a tecnologia necessária para os estudos, a jovem desistiu da prova após se planejar ao longo do ano.
“Enfrentei diversos problemas, como não ter um bom dispositivo para assistir as aulas. Eu usava só redes móveis, então, muitas vezes, acabava a internet, e quando acabava, eu não conseguia assistir mais as aulas”, relembra.
Gabrielly relata que passou por dificuldades por não ter acesso à internet
Arquivo Pessoal
A mãe de Gabrielly chegou a fazer um acordo com a vizinha, dividindo a internet e pagando metade do valor mensal, mas apenas perto do fim do ano, quando não havia mais tempo para se preparar. A jovem, que conseguiu isenção da taxa e chegou a se inscrever em um cursinho pré-vestibular popular, desistiu, por sentir que não estava preparada, e por temer pela própria segurança em meio à pandemia.
“Eu não me senti segura o suficiente para realizar a prova. Em muitas escolas particulares, tanto os alunos quanto os professores estavam preparados para isso, tinham um dispositivo potente em casa, um Wi-Fi para poder participar das reuniões e pesquisar no Google. No ensino público, a desigualdade é grande, por diversos motivos”, diz Gabrielly.
A jovem, que pretendia cursar antropologia, passou a investir mais na busca por um emprego, para ajudar nas despesas de casa. Ao ver a dificuldade da mãe, que foi demitida no início da pandemia e conseguiu emprego apenas depois de um tempo, Gabrielly conta que vai focar no mercado de trabalho.
Medo do contágio
Jovem de 18 anos adiou a realização da prova por medo do contágio
Arquivo Pessoal
Para Santiago dos Santos Mamedio, de 18 anos, o medo do contágio foi o fator que causou maior preocupação. O jovem tem acesso à internet em casa, mas ainda assim sentiu os impactos do ensino à distância. A pandemia e a possibilidade de aglomerações na sala determinaram a desistência do rapaz.
“[A pandemia] não só pesou como foi o principal. Minha mãe é do grupo de risco, tenho que ter todo o cuidado do mundo para não acontecer o pior”, relata o jovem.
Mamedio relata que a falta de confiança sobre a saúde foi determinante para que não completasse o cadastro para a prova. “Estar em uma sala e não ter a certeza que você vai sair sem o vírus é algo preocupante”, diz.
O jovem conta que planejava cursar administração, e atualmente está à procura de um emprego. Apesar da mudança de planos, ele deixa claro que vai continuar estudando para se manter atualizado.
Acesso à internet
Camila começou a trabalhar e passou a ter dificuldades com os estudos
Arquivo Pessoal
Camila Henrique Lopes tem 19 anos e também desistiu do Enem após um ano com dificuldades para acessar a internet e assistir aulas. Com apenas o celular para realizar as atividades, a jovem ficou boa parte do ano sem acesso à web. Após conquistar um emprego, ela conseguiu contratar o serviço, mas passou a lidar com a falta de tempo.
“Um dos principais motivos que me fizeram desistir da prova foi o fato de não me sentir preparada, de maneira alguma”, desabafa. Em 2020, a jovem se inscreveu em um curso preparatório popular, e estava se dedicando muito quando chegou a pandemia.
Com as escolas fechadas, e sem acesso à internet, ela não conseguiu dar continuidade. Quanto teve a oportunidade de começar a trabalhar, em meio à pandemia, agarrou a chance, mas perdeu o tempo dedicado aos estudos.
“Eu não tinha nem internet ainda, então, não tinha nem como fazer as aulas. Fiquei um bom tempo sem, e só consegui depois que comecei a trabalhar. Mas, quando comecei a ter internet, não tinha tempo de estudar”, relembra.
A decisão de desistir do Enem aconteceu pela falta de tempo, pela dificuldade de acesso ao material didático e, também, pelo medo de contágio. Camila conta que teve Covid-19, e precisou ficar afastada do trabalho por conta de problemas respiratórios decorrentes da doença. “Não gostaria de me arriscar. Agora mais ainda, porque se pegar a segunda vez, pode ser que seja mais forte do que já foi para mim”, complementa.
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