Entenda como funcionam satélites que monitoram desmatamento na Amazônia; país tem volume de dados ‘absurdo’, dizem especialistas


Coordenador de monitoramento de biomas do Inpe afirma que microssatélite que Ministério da Defesa pretende comprar para monitorar a Amazônia fará o mesmo trabalho que o Instituto faz há décadas. Reprodução de imagens do site do Inpe mostra como a imagem aparece no satélite (à esquerda) e como ela é na realidade. Julho de 2019.
Reprodução/Inpe
Reportagem desta segunda-feira (24) publicada no jornal “O Globo” e confirmada pelo G1 revela que o Ministério da Defesa pretende comprar um microssatélite por R$145 milhões para monitorar a Amazônia.
Atualmente, no entanto, o monitoramento via imagens de satélites do desmatamento na Amazônia Legal já é função do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, desde 1988. O nível de precisão das imagens é de 95%, segundo o próprio instituto.
Levantados por dois sistemas de monitoramento remoto – o Deter e o Prodes -, os dados e alertas de desmatamento na floresta amazônica do Inpe são enviados ao Ministério da Defesa. (veja abaixo como funcionam os sistemas de monitoramento).
“O Inpe tem mais de 30 anos de experiência em monitoramento remoto da Amazônia”, afirma o coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia e Outros Biomas do Inpe, Claudio Almeida.
“Os dados diários de alertas de desmatamento diários reunidos pelo Inpe são encaminhados ao Ministério da Defesa, que analisa as áreas com maior ocorrência de alertas”, explica Almeida.
Em nota enviada a “O Globo”, a pasta explicou que o microssatélite fornecerá imagens de radar, que não sofre interferência de nuvens e, por isso, pode monitorar melhor o território nacional.
Almeida explica que os satélites que carregam câmaras do tipo radar, ao contrário dos satélites óticos, não dependem da luz solar para registrar as imagens do território, pois emitem seu próprio pulso, podendo captar imagens inclusive a noite. “Os radares permitem atravessar a nuvem e captar a imagem.”
Ainda de acordo com o coordenador do Instituto, contudo, “o monitoramento do Inpe trabalha com os dois, radar e ótico.”
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Como funciona o monitoramento via satélite do Inpe
Atualmente, o Inpe conta com dois sistemas via satélite para monitorar e calcular as áreas de desmatamento na Amazônia Legal: o sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) e o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). Tais sistemas utilizam imagens de satélites internacionais que observam a Terra.
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O primeiro deles, o Prodes, foi criado em 1988 para realizar um inventário anual de perda de floresta amazônica. Ele utiliza imagens de três satélites, o Landsat-8 (da Nasa), o Sentinel-2 (da União Europeia) e o Cbers-4 (do Inpe, em parceria com a China).
Em 2004, o Inpe criou o Deter, que utiliza imagens do sensor WFI, que está a bordo do satélite Cbers-4. O Deter acompanha em tempo real o desmatamento e a degradação na Amazônia, emitindo diariamente alertas que mostram áreas totalmente desmatadas (corte raso) e áreas em processo de degradação florestal ( provocada pela exploração de madeira, mineração, queimadas etc).
“Com o satélite Sentinel, temos imagens da Amazônia a cada cinco dias. Com o radar, a cada dois dias. Isso gera um volume absurdo de dados. Gerenciá-los é um grande desafio”, explica Almeida.
Prodes e Deter monitoram via satélite a mesma região, a Amazônia Legal, e têm funções complementares, com o objetivo de produzir dados sobre as florestas o ano todo.
“Já temos material suficiente”, diz o coordenador de monitoramento do Inpe.
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Os microssatélites
Diferente dos três satélites internacionais utilizados pelos sistemas de monitoramento do Inpe, o Ministério da Defesa pretende comprar um microssatélite.
O pesquisador do instituto de pesquisa sobre a Amazônia Imazon, Carlos Souza Junior, explica que a tecnologia utilizada em microssatélites consegue, de fato, gerar dados refinados sobre a área monitorada. Porém, para isso, é preciso ter vários microssatélites atuando em conjunto.
“Este tipo de satélite foi desenvolvido para ser lançado em dezenas, centenas em uma mesma área, formando uma constelação de satélites que consegue captar um nível de resolução mais fina da imagem monitorada”, explica Souza.
Souza lembra que, além dos sistemas de monitoramento do Inpe, o Imazon também monitora e calcula as áreas em desmatamento nas florestas do país. O Imazon já utiliza, inclusive, imagens de microssatélites.
“Por meio do projeto Map Biomas Alerta, utilizamos imagens de todos os biomas de uma constelação de microssatélites comerciais. Temos dados refinados por biomas e regiões. Foi por meio deles, por exemplo, que conseguimos mostrar que 90% do desmatamento no Brasil é ilegal”, explica Souza.
O ambientalista afirma que a tecnologia de microssatélites é válida para monitorar com precisão o desmatamento, mas não basta comprar somente o equipamento, é preciso saber operá-lo.
“Quando você compra um satélite, está comprando o produto apenas. Vai precisar de recursos para operacionalizar a tecnologia, depois vai precisar de uma inteligência computacional, que não é trivial, para dar conta de processar o volume de dados. Senão, vamos ficar atolados em dados”, diz Souza.
Almeida concorda com Souza ao afirmar que a tecnologia de microssatélites exige esforços operacionais e tecnológicos “complexos.”
“O Ministério da Defesa tem estrutura, capacidade para gerenciar esse volume de dados que será gerado?”, questiona Almeida.
O G1 entrou em contato com a assessoria do Ministério da Defesa questionando quantos microssatélites a pasta pretende comprar, como irá operacionalizar a tecnologia e como irá gerir o grande volume de dados que serão gerados, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
‘Soberania’
Ao chegar ao Palácio do Planalto nesta segunda, o vice-presidente Hamilton Mourão, que comanda o Conselho da Amazônia, foi questionado sobre a compra do microssatélite. Para ele, o Brasil tem que ter “soberania” no monitoramento da floresta via satélite.
“A Defesa está providenciando isso daí. Existe satélite japonês, existe satélite de outras nações aí que você compra a imagem, mas você não tem soberania. Faz parte do programa espacial brasileiro, está dentro da agência espacial brasileira”, afirmou Mourão.
Quando questionado sobre se a compra de satélite pelo Ministério da Defesa enfraqueceria o papel do Inpe, Almeida apenas afirmou que o Instituto “cumpre com o papel dele.”
“Se o problema [do monitoramento espacial] é soberania, seria mais vantajoso o Brasil investir em uma plataforma de radar dentro do próprio país”, opina Almeida.
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Além da questão da soberania, em declarações públicas, Mourão tem alegado que há desinformação sobre a Amazônia, citando as queimadas. Já o presidente Jair Bolsonaro duvidou dos dados de aumento de desmatamento na Amazônia divulgados pelo Inpe no ano passado.
“A questão é que o Brasil já tem dados refinados de todo o país sobre o desmatamento das florestas e biomas”, afirma o ambientalista Souza. “O Brasil agora precisa avançar na fiscalização.”
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