Enem 2020: prova foi de dificuldade média e sem polêmicas, avaliam professores


Exame não citou pandemia de Covid-19. Candidatos responderam 45 questões de linguagens e 45 de ciências humanas, além da redação. Enem 2020 em Curitiba
Giuliano Gomes/PR Press
Para professores de cursinhos pré-vestibulares, a primeira prova do Enem 2020, aplicada neste domingo (17), estava com nível médio de dificuldade, equilibrada na distribuição de conteúdos e sem questões polêmicas.
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“Mantendo a tradição, foi uma prova bastante interpretativa, com muito texto, e às vezes isso pode cansar o aluno ao longo da prova”, avaliou o professor Daniel Cecílio, diretor do Curso Pré-Vestibular Oficina do Estudante.
Assim como na Fuvest, aplicada no domingo (10), nenhuma questão citou diretamente a pandemia de Covid-19. No entanto, uma questão citou a música “Bum bum tam tam”, do MC Fióti. Nesta semana, o músico gravou um clipe no Instituto Butantan, em São Paulo, com nova uma versão do hit, em homenagem à CoronaVac.
O tema da redação – ‘O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira’ – foi considerado pertinente pelos professores. “Tem muito a ver com esse ano pandêmico. Foi uma discussão que se acentuou bastante na sala de aula, com a questão do home office, a aulas on-line, e o estresse das telas, por exemplo”, disse a coordenadora de redação do Poliedro, Maria Catarina Bózio.
Na prova de história, chamou atenção dos professores a ausência, pelo segundo ano seguido, de questões sobre a Era Vargas ou sobre a ditadura militar.
A prova trouxe questões sobre escravização de chineses, insurreição pernambucana, independência dos Estados Unidos, revolução francesa e reformas macroeconômicas no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Houve ainda perguntas sobre desigualdade de gênero, como uma que abordava a diferença salarial entre os jogadores de futebol Neymar e Marta.
Veja a análise dos professores por disciplina:
INGLÊS
Raissa Shiraishi – Professora de inglês do Objetivo
“A prova do Enem deste ano, como nos anos anteriores, tem uma preocupação muito grande com temas sociais. E tem gêneros textuais diferentes, então neste ano caíram poemas, cartazes, literatura, trecho de um romance. O nível de vocabulário foi um nível médio. E só tem um poema que tinha algumas palavras mais complexas. Mas essas palavras isoladas, que talvez fossem mais difíceis, não comprometeram a resposta do aluno para chegar à resposta certa”.
Chico Fransa – Professor de inglês da Oficina do Estudante
“Não estava difícil, foi bastante contextualizada, trouxe temas pertinentes e latentes que estamos sempre discutindo, como apropriação cultural, estereótipo de culturas, misoginia, violência contra a mulher, situação na África, com os refugiados. A prova trouxe bastante material externo como campanhas e cartazes. O que senti foi que, apesar de não estar tão difícil, o vocabulário de alguns poemas estava um pouco desafiador para alguns alunos”.
ESPANHOL
Hernan Bastidas Veloso – Professor de espanhol da Oficina do Estudante
“Estava relativamente fácil com exceção da questão que fala dos proprietários de liberdade. Em relação às outras questões, tem um poema que fala sobre o conflito de identidades, uma sobre autoconhecimento. A questão Pablo Pueblo fala um pouco da exploração dos trabalhadores que tem um ideal na vida, tem sonhos, mas a exploração do trabalho não deixa alcançar seus objetivos”.
HISTÓRIA
Monty Hinke – Professor de história do Colégio e Curso AZ
“Parece que a coisa que mais chama atenção é o fato de não ter caído a parte de história do século 20. Algo que me chama muita atenção, prova de humanas com ausência do século 20. É o século que a gente mais trabalha em sala de aula e que é mais contemplado nos cursos pré-vestibulares. No ano passado já não tinha aparecido Era Vargas e regime militar e, neste ano, além desses temas não terem sido abordados, os demais temas do século 20 também ficaram de lado. Teve questões sobre Revolução Francesa, Antiguidade Clássica, questão sobre exploração de mão de obra escrava na época do imperialismo.”
Robson Santiago, professor de história do Objetivo
“A prova deste ano seguiu o padrão: textos relativamente pequenos ou médios e respostas curtas. Apareceram temas clássicos. Não houve questão polêmica. Não caiu Era Vargas ou período militar, repetindo o padrão do ano passado. Destaque para questões de gênero. E caiu uma questão sobre pré-história citando a África, então temáticas de certa forma já previstas a serem cobradas pelo Enem.
Rodrigo Miranda – professor de história da Oficina do Estudante
“Uma das coisas que impressiona é que não há uma divisão equilibrada entre história do Brasil e história geral. Nesse ano foram 8 questões de história geral e apenas 2 de Brasil e 2 de América. Caiu uma questão sobre historiografia, que pode ter assustado os alunos num primeiro momento, mas é uma questão sobre interpretação. Em geral, a prova se mostra relativamente fácil, com apenas duas ou três questões mais exigentes. O que nos chamou atenção foram os silêncios que se veem na prova. O Enem não prestou algum tipo de solidariedade em relação a vários pontos que aconteceram nesse ano, referentes a pandemia, aos eventos de racismo, aos movimentos de rua exigindo igualdade social, de gênero ou étnica”.
GEOGRAFIA
Eduardo Brito, professor de geografia do Objetivo
“A prova deste ano contou com alguns destaques. Prova bem diversificada. Muitos conceitos importantes, tanto de geografia geral como do Brasil. Ela tratou de problemas típicos do Brasil, como questão fundiária, estrutura do setor de transporte e logística, problemas ambientais. Trouxe temas contemporâneos como a própria questão do Toyotismo, da globalização, temática até mesmo da febre amarela. O Enem não se furtou de abordar os temas mais importantes do país, grilagem de terras, poluição, a questão ambiental, problemas do escoamento agrícola”.
Professor Piton –professor de geografia da Oficina do Estudante
“Não fugiu do que é comum do Enem nos últimos anos. A maioria das questões estavam composta por textos, com as alternativas relativamente pequenas, no esquema de complete a frase. Várias questões referentes a geografia agrária, rural, principalmente apropriação do solo. E também questões de geografia urbana, geografia física, cartografia, transporte e problemas ambientais, porém, em menor quantidade.
FILOSOFIA
José Maurício Mazzucco – professor de filosofia do Objetivo
“Caíram 6 questões de filosofia, prova de excelente nível, muito bem elaborada, com textos clássicos. A preocupação central da prova toda, o aluno deveria identificar o pensamento central das escolas filosóficas. Então tinha que ter compreensão do que é existencialismo, fenomenologia, empirismo, idealismo. Também caiu uma questão sobre política e Aristóteles. Apenas 6 questões, mas conseguiram arco bem abrangente desde a antiguidade até nossos dias. Muito boa a prova. Não foi só interpretação, exigiu conhecimento de algumas escolas filosóficas”.
PORTUGUÊS
Serginho Henrique, professor de português do Objetivo
“A prova de linguagens foi bem abrangente, bem voltada para as competências e habilidades propostas pelo edital. Abordou diferentes linguagens, artes plásticas, tem esportes, literatura, a compreensão das variantes linguísticas. Ainda assim, não significa que seja prova fácil, ela exigiu que o aluno tenha habilidade ampla de leitura e interpretação de texto, e diferentemente de achar que a prova de português ela para eliminar logo de cara, ela exigiu bastante atenção”.
Marcelo Maluf – literatura – Oficina do Estudante
“A prova de português do Enem foi uma prova esperada, não houve muita diferença dos outros anos. Em relação a prova do ano passado, achei uma prova um pouco mais atual, menos conservadora, tocando em temas como questões de gênero e uso de pronomes, que é uma pauta mais contemporânea. De literatura, identifiquei uma ou duas, mas o Enem costuma trabalhar bastante com interpretação de texto.
Uma coisa que me chamou atenção, teve muita canção, muita música popular, menos textos de literatura pura. Os outros anos cobraram textos mais pesados. Mas acho também que isso por causa da pandemia e do acesso ao texto. E não acho que isso seja um problema”.
Fábio Blanc – gramática e interpretação de texto – Oficina do Estudante
“O Enem foi bastante fiel ao seu formato original, que é uma prova de leitura e interpretação de gêneros textuais. E dentro desses gêneros, uma coisa importante foi mostrar a questão dos gêneros jurídicos, decretos, petições, tudo isso foi mais explorado nesse tema. Em relação aos temas vemos uma prova um pouco mais ousada, com questões sobre papel da mulher, questões sociais”.