Emanuelle Araújo viaja com conforto pela obra marginal de Jards Macalé


Cantora acerta o tom sombrio de músicas como ‘Movimento dos barcos’ e ‘Hotel das estrelas’ em disco gravado nos Estados Unidos. Capa do álbum ‘Quero viver sem grilo – Uma viagem a Jards Macalé’
Ana Cissa Pinto
Resenha de álbum
Título: Quero viver sem grilo – Uma viagem a Jards Macalé
Artista: Emanuelle Araújo
Gravadora: Deck
Cotação: * * * 1/2
♪ Cantar Jards Macalé é transitar por vias marginais da música brasileira e da contracultura nacional. Quatro anos após ter lançado um primeiro álbum solo de bom polimento pop, O problema é a velocidade (2016), Emanuelle Araújo arrisca jornada pelo cancioneiro do compositor carioca no segundo álbum solo, Quero viver sem grilo – Uma viagem a Jards Macalé, lançado na sexta-feira, 7 de fevereiro, em edição digital, antes de sair em LP e CD.
Projetada como vocalista da Banda Eva, a cantora e atriz baiana se movimenta com segurança pela obra do autor de Soluços (1969), uma das dez músicas (do período 1969 – 1977) gravadas pela artista em novembro de 2018, em estúdio do Brooklyn (Nova York), com os toques do guitarrista Guilherme Monteiro e de músicos atuantes nos Estados Unidos como o baixista francês Ben Zwerin, o baterista norte-americano Bill Dobrow e o percussionista brasileiro Mauro Refosco.
Colega da cantora no trio Moinho, a percussionista Lan Lanh também integra o time de instrumentistas arregimentados para o disco produzido por Guilherme Monteiro com a própria Emanuelle Araújo.
A artista viaja pela obra de Macalé com conforto. O disco é bom, embora, em determinadas escalas, a cantora nem sempre atinja a dimensão da música do compositor, sobretudo na já mencionada canção Soluços, na qual Zezé Motta voou bem mais alto em gravação de 2011.
Emanuelle Araújo assina a produção do disco com o guitarrista Guilherme Monteiro
Ana Cissa Pinto / Divulgação
Macalé é justamente celebrado por ter construído, no período que foi de 1969 a 1974, transgressora obra pós-tropicalista, formal e poeticamente ousada. Com essa obra, Macalé aprendeu a nadar contra correntes, desafiando e desafinando o coro dos contentes na atmosfera sinistra do Brasil daquela época ditatorial.
Emanuelle Araújo captou bem esse tom sombrio ao se ambientar em Hotel das estrelas (Jards Macalé e Duda Machado, 1970) em gravação previamente lançada em dezembro como single . O cansaço e a fossa que impulsionam Movimento dos barcos – uma das obras-primas da parceria de Macalé com o poeta da contracultura Waly Salomão (1943 – 2003) – também são exemplarmente reprocessados pela artista em faixa pautada por estranhezas e melancolias que emergem no preciso arranjo.
Boneca semiótica (Jards Macalé, Duda Machado e Ricardo Chacal, 1974) é outro ótimo momento de álbum que no geral captura a atmosfera underground do cancioneiro de Macalé. Em contrapartida, a cantora não dá conta das sombrias ambiguidades afetivas entranhadas na canção Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata (1972), parceria de Macalé com o poeta baiano José Carlos Capinam. O coração da intérprete tampouco queima na devida intensidade do samba 78 rotações (1972), outra música de Macalé com versos de Capinam.
Entre mortos e feridos das relações amorosas e políticas, o saldo do álbum Quero viver sem grilo é positivo. Pérola rara encontrada no baú de Macalé e apresentada em 2016, em registro caseiro feito pelo autor nos anos 1970, a música-título Quero viver sem grilo ressurge vivaz na primeira gravação oficial, ambientada em clima indie, com aliciante pegada roqueira.
Jards Macalé tem dez músicas do período 1969 – 1977 regravadas por Emanuelle Araújo
José de Holanda / Divulgação
Outro achado da seleção de Emanuelle, Tio Barnabé (1977) – rara parceria de Macalé com Marlui Miranda e Xico Chaves, composta e gravada pelo artista com Marlui para a trilha sonora do programa infantil Sítio do pica-pau amarelo (TV Globo, 1977) – tem o beat afro devidamente atualizado pela cantora no disco.
Se a artista come Farinha do desprezo (Jards Macalé e José Carlos Capinam, 1972) sem dar tempero especial a esse samba meio pop meio rock, a intérprete voa alto ao desconstruir Anjo exterminado (Jards Macalé e Waly Salomão, 1972) com a bossa de samba leve.
Anjo exterminado encerra a viagem contemporânea de Emanuelle Araújo pelo território de Jards Macalé, deixando a impressão de que a cantora quase sempre sabia aonde queria chegar quando embarcou na arriscada, mas vitoriosa, jornada.